July 02, 2009
Ato falho

Postado por Bruno Rabin at 03:45 PM | Comentários (0)
June 04, 2009
No Globo Online, agora há pouco

Postado por Bruno Rabin at 05:18 PM | Comentários (0)
May 04, 2009
O grito dos excluídos (III)
Psicológo, sociológo, ministro, aposentado que dá entrevista na fila do banco ao RJTV: todo mundo que opina sobre essa história de acabar com o vestibular - os que concorda e os que discorda - todo mundo acha que, de qualquer maneira, é preciso acabar com a decoreba.
Tão falano besteira.
Primeiro, é romântico pensar que você sabe algumas coisas de coração (é etimologia, meu amigo, pergunte à tia do colégio).
Segundo, quase sempre a decoreba é criticada porque se supõe que o indivíduo possa desenvolver habilidades dedutivas e competências interpretativas para construir o conhecimento de forma autônoma, e se eu continuar essa frase mais um pouco, ganho um título em pedagogia, então é mió pará.
Quer dizer: o Pitágoras vai lá, corta uns retângulos ao meio, experimenta as proporções, tem um insight, publica um twitter com o famölzo teorema e a mulher que tirou zero em Matemática, que sequer sabe o que é um cateto, escreve um artigo no jornal protestando contra o absurdo das fórmulas impostas à cabeça dos pobres estudantes. Então, é isso: em vez de entender o caminho longo uma única vez e pegar o atalho depois disso, a sugestão é que, a cada vez, o sujeito faça o percurso de novo? Como é que essa gente assiste à televisão? Ou usa o lápis? Será que fica pensando sobre como o grafite entra naquela pedaço de madeira e risca o papel?
O pior dessa aposta na "capacidade de dedução" é que, além de ser bastantemente injusta com as pessoas que não conseguem sequer percorrer de novo o caminho aberto pelo inventor da fórmula, ainda nutre certo desprezo pelos gênios - o que não deixa de ser um desestímulo para os ditos cujos. Se estivesse vivo, o Newton mesmo ia colocar as leis num post it na geladeira e olhe lá!
Agora, o que eu queria ver mesmo é esse pessoal que ataca a decoreba sendo operado por um médico que não decorou anatomia, fisiologia ou farmacologia. Na hora do aperto, sangue pra todo lado, tá lá o cara pensando: "Humm, esse tubinho aqui está vindo de onde? Humm, deixa eu ver, olha ali. Ah, vem do coração. Se vem do coração, então deve ser artéria. E se é artéria, vem com pressão total, porque o coração acabou de bombear. Nesse caso, deixa ver, é melhor comprimir logo, senão vai tudo embora... Ih, não deu..."
É óbvio que, quando se fala de decorar alguma coisa, está se falando sobre ter repetido tantas vezes uma operação mental, que já se pode deixar de lado os intermediários. Do contrário, o atalho leva do nada a lugar algum. Mas o esforço da memorização, para além do prazer de poder dispensar o Google nas conversas com amigos, ainda tem o sentido poético de uma recordação dos tempos de escola. Multiplicação do nove, ciclo de Krebs, funções inorgânicas - é todo um lirismo que as gerações da educação construtivista não vão conhecer.
Ou vocês acham que todo mundo acha graça da piada abaixo?
Postado por Bruno Rabin at 09:32 PM | Comentários (4)
April 27, 2009
Quem foi o maior pensador de todos os tempos?
Não é de hoje que esta pergunta intriga a Humanidade. Quem, afinal de contas, foi o maior dos pensadores que viveu neste mundo? Especialistas de todas as áreas já tentaram dar suas respostas, todas elas infelizes e muito mal formuladas, um sempre dizendo que o amiguinho era maior que os outros. E entre os próprios filósofos, devo dizer, o discurso da “questão de ponto de vista” esconde um temor em fazer uma medição meticulosa.
Mas, inspirado num desejo que há tempos me acompanha, resolvi desvendar esse mistério e dizer, de uma vez por todas, quem foi o maior. Para isso, precisei lançar mão das mais ardilosas ferramentas, comparando um filósofo a outro, procurando detalhes que ninguém percebeu, descobrindo o que cada pensador pensou poder esconder.
Se você está preparado, clique abaixo e me acompanhe o meu raciocínio.
Continue lendo "Quem foi o maior pensador de todos os tempos?"
Postado por Bruno Rabin at 07:39 PM | Comentários (10)
April 20, 2009
O pior surdo
Ler uma história pós-moderna num livro sem ilustrações é como ouvir bandas que cantam em idiomas inumanos: Sigur Rós. Depois de treinar bastante a imaginação com descrições e indicações que os mui gentis escritores lhe oferecem em troco da leitura afetuosa, você se vê diante do nada, obrigado a fazer o trabalho que o autor não fez - por preguiça, inaptidão ou de sacanagem mesmo. Você sabe que estão dizendo alguma coisa, intui algumas possibilidades, mas está longe de saber se o sujeito usa barba, se está andando a pé ou de carro, se é um ser humano, afinal. Em favor da música, diga-se que o problema é seu; quem mandou faltar às aulas de sueco. Na literatura pós-moderna, pelo menos em tese, você compartilha o idioma. O analfabetismo, nesse caso, seria apenas uma questão de perspectiva - de quem diz ou de quem ouve. Entrar nesse jogo, nos entretantos e poréns, significa aceitar a premissa do perspectivismo. Pode ser. Cá entre nós, prefiro a dica de um amigo diante de alguém que o irrita: "Faz uma coisa. Fica aqui, que eu vou à merda ali rapidinho."
Postado por Bruno Rabin at 01:19 PM | Comentários (3)
April 09, 2009
O grito dos excluídos (II)
Comida de avião. Qualquer comida: galinha ou pasta, como dizem; sanduíche de queijo com pão fofinho; até barrinha de cereal. A comida de avião merece nosso respeito também. Primeiro porque é uma espécie de presente, né? Ok, você pagou a passagem, foi uma nota, dividou em doze vezes etc. etc., mas nem vai usar a carteira durante o voo, então na verdade está ganhando um brinde. E é de comer. Segundo, porque há o fator surpresa. Você nunca sabe direito o que vai encontrar. Na ida, foi um caneloni de frango com molho de tomate, pudim de sobremesa. E na volta? Bifinho com purê? Ou será lanchinho? E essa barra de cereal, será com avelãs? Façamos as contas do horário... Terceiro, porque vem tudo dividido em pequenas porções, caixinhas, plásticos. Coisa da infância, que ajuda a surpresa a vir aos poucos, parte por parte, até o mini-brownie. E, quarto, porque dá um gostinho de competição. Cada um encontrando a melhor maneira de arrumar a bandeja, manusear os talheres de plástico, organizar os restos. Que sensação de superioridade olhar para o lado e ver aquela bagunça! Essa gente incivilizada. Se fosse do ramo, inventaria até um restaurante em forma de avião, para servir apenas essas comidinhas. Você reservaria, pagaria adiantado e teria toda surpresa lá na hora. Ainda teria a vantagem de poder ir sem companhia, para ler à vontade. E sem passar pela Linha Vermelha.
Postado por Bruno Rabin at 09:27 AM | Comentários (1)
April 07, 2009
O grito dos excluídos
O véio tarado é um tipo excluído. Talvez o pior de todos os excluídos, porque não existe ideologia, religião, time de futebol ou preferência gastronômica que poupe o coitado. À direita e à esquerda, todo mundo faz cara de nojo para ele. Basta o véio tarado dar aquela olhada gulosa na direção da menininha, que qualquer um em volta, e não apenas a menininha empinada, faz questão de fazê-lo ouvir um "tsc-tsc" bem alto, às vezes até com xingamento: "Véi tarado".
Mas o véio tarado não faz mal a ninguém. Às vezes, é verdade, dá uma roçadinha, que é para melhorar um bocadinho as lembranças daqueles tempos. E nessa encostadinha - no ônibus, no balcão da padaria ou na fila do banco -, nosso heroi acaba incomodando um pouco, não pelo contato em si (igualzinho ao de um tarado em qualquer idade), mas pela velhice do véio. Ele nem faz cosquinha, mas a suposta vítima é capaz até de dar uma bolsada nele, só por causa da baba enrugada.
Pois este blog quer defender o direito do véio tarado de ser quem ele é; o direito de olhar sem vergonha para babás, enfermeiras e estudantes de uniforme; o direito de falar safadezas para mulheres de saia e sem saia também; o direito, enfim, de babar.
Excluído dos excluídos, o véio tarado merece nosso respeito. Admire-se não apenas sua safadeza-arte, sua baba-moleque, mas sobretudo sua coragem para exercer, sem vergonha, aquilo que todos gostaríamos de poder fazer, tivéssemos liberdade para isso. No futuro aberto por esses desbravadores, todos nós - pobres ou ricos, bebedores de cachaça ou de campari, admiradores de bocha ou de vôlei de praia -, todos nós poderemos ser também velhos tarados em busca de colegiais inocentes (se as houver, é sempre bom lembrar).
Postado por Bruno Rabin at 01:11 PM | Comentários (6)
April 03, 2009
Eu devo estar perdendo alguma coisa
O vestibular vai acabar, anuncia o ministro da educação. Por quê?, pergunto eu. Porque é um sistema injusto e ultrapassado, que privilegia a decoreba, responde o funcionário do novo ídolo do Obama.
Ai, que preguiça... Mas vamos lá:
Injusto, se bem entendi, porque fica muita gente de fora. Não vou nem discutir o que é injustiça, porque não vale a tecla. Fiquemos no mesmo níver: do total de pessoas que prestam vestibular para universidades públicas, todos os anos, a maior parte "roda". Uns, porque não alcançam notas mínimas (problema deles, quando não aproveitam os colégios, ou deles e dos governo, que não lhes oferecem alguma coisa miózinha); outros, porque há vagas de menos. Nesse caso, até o ratinho simpático que deve morar num buraco do Palácio do Planalto entende que a única maneira criar, er, "justiça" é aumentar o número de vagas nas universidades - ou diminuir o número de formandos no ensino médio. Do contrário, qualquer que seja a forma de seleção - jogo de dados, pôquer ou comparação de muques -, muita gente vai continuar ficando de fora.
Ou seje: o governo vai acabar com o vestibular, mas obviamente continuará existindo um processo de seleção para o ensino superior com provas que medirão (mal ou bem, tanto faz) algumas habilidades intelectuais e certos conhecimentos. Nem quatro anos de faculdade de comunicação me deram essa habilidade semântica do ministro. "Vestibular" é obra do coisa-ruim, sem dúvida. Talvez haja até um nome novo. Faço minha aposta: "Vagas para Egressos Selecionados Tecnicamente como Individuos Bons para Universidades Locais de Alto Rigor". Quem quiser que faça a sigla.
O outro problema é a decoreba, diz o ministro. De que vestibular ele está falando? No caso das federais, sob sua alçada, acho difícil encontrar provas tão horríveis assim hoje em dia. Há casos tristes, claro (UFBA, UFC, por exemplo), mas a coisa funciona muito bem na UFRGS, na UFSC, na UFMG. NA UFRJ, em particular, as provas são todas discursivas e muito mais inteligentes do que suporia o olhar sobre o que lá se faz depois de se conquistar a vaga. Mas a questão é de linguagem, tinha me esquecido. "Vestibular", "injustiça", "decoreba", "coragem de mudar" - é só fazer a mistura conveniente. Pra que falar de "detalhes"?
Há questões menores nessa história: fala-se sobre a autonomia universitária, por exemplo. O governo federal manda, obedece quem quiser. Em tese, claro. Porque reitores "alinhados" e o pessoal que fica esperando aquela verbinha extra certamente aprovarão a novidade.
Fala-se também em substituir a primeira fase dos vestibulares, partindo-se da premissa - equivocada - de que todas as provas sejam divididas em fases (não são!) e de que as primeiras fases que existem não cumpram seu papel de cortar o grupo mais fraco, que, de uma forma ou de outra, não entraria mesmo. Nesse contexto, acabar com as eliminações da primeira fase seria adiar um pouquinho a decepção da rapaziada e entortar o processo de correção das provas discursivas (já muito caro e um pouco mal feito com menos provas).
Por último, surge a ideia de aplicar o ENEM como essa primeira fase nacional, deixando de lado o incômodo de que se trata de uma prova facílima, em que todo o grupo aprovado em carreiras mais concorridas obtém, no mínimo, 90% de rendimento (ou seja, não faz distinção de mérito). Isso, para não falar na prova de redação, que tem um dos modelos de correção mais cretinos imaginável. Entre os cinco parâmetros de avaliação do texto, encontra a exigência de que o aluno respeite diversidades, direitos humanos etc. - dá até vergonha de falar.
E tudo isso para quê? Para o pessoal arrumar um dipromazin universitár e nóis subir nos ideagár.
Faz o seguinte, Haddad: imprime logo os diplomas pra todo mundo. Tenho certeza de que você arruma um jeito de explicar a ideia. "Considerando a impossibilidade, para grande parcela da juventude brasileira, de concluir os cursos universitários no atual modelo, elitista e autoritário, em que os estudantes ainda precisam provar para figuras de autoridade que aprenderam alguma coisa, decidimos alterar essa herança maldita, com um processo democrático, que atenda às reais necessidades do povo brasileiro. Assim, a partir de agora..."
Postado por Bruno Rabin at 06:11 PM | Comentários (3)
March 28, 2009
À maneira de César, um post-twitter sobre posts pendentes que jamais escreverei, meio por preguiça, meio por falta de empolgação (coisas bem diferentes), com um título maior que o dito-cujo
1. Ia fazer análise, mas o gasto mensal com as consultas ficaria mais caro que os sabonetes para a compulsão, sem falar na limpeza, né?
2. A próxima vez que ouvires alguém falando “pré-conceito”, compra-te um revólver.
3. Se quiserdes ser eterno, escrevais em segunda pessoa.
4. Blog é quem nem biscoito: vai um, vêm dezoito.
5. Quando alguém sugerir que você leia o novo romance daquele compositor bebum, responda logo: “Ah, eu já li, mas foi há muito tempo, nem lembro.”
6. Se eu preferisse resenhas a uns trocados, ia escolher um destes protagonistas para o meu romance: dançarino de dança de salão, comentarista de blog, estudante de design ou baixista de banda alternativa. A história ia ser chata, mas que charme!
7. Aliás, o rock, a dança de salão e o design fizeram mais pela ilusão da igualdade democrática do que dois séculos de política.
8. O vegetarianismo teria muito a ganhar se não precisasse tanto se afirmar; ou você acha mesmo que existe tal coisa como “estrogonofe de tofu”?
9. O politicamente incorreto é o novo politicamente correto.
10. Decoração é a maneira menos econômica de ter personalidade.
Postado por Bruno Rabin at 05:11 PM | Comentários (1)
March 27, 2009
Quem mandou baixar legenda
- Não me padronize, Paul!
(Tradução de Neozin para "Don't patronize me, Paul!", fala de Laura em In treatment)
Postado por Bruno Rabin at 02:20 PM | Comentários (0)
March 22, 2009
Na fila K


Postado por Bruno Rabin at 10:34 PM | Comentários (1)
March 16, 2009
Sobre os shows do Radiohead no Brasil
Quando se é meio velho desde cedo, shows são sempre a certeza de um equilíbrio improvável entre a sobriedade que, evitando o suor alheio, nada aproveita e a bebida suficiente para esquecer aquela gente ao lado, mas que impõe a ida ao banheiro lotado a cada cinco minutos. Em casa não tem nada disso.
***
Avisado por um amigo, vejo o Fantástico à espera da entrevista com o guitarrista Ed O’Brien. O de sempre: então, você conhece o Brasil? E gosta de música brasileira? Está preparado para uma emoção diferente? “Hello, Brazil. This song is for all of you!” E mandam Creep: “I don’t belong here.”
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Nesses shows no Brasil, antes do Radiohead, quem toca é o grupo Los Hermanos, que chegou a desistir do que fazia por causa dos fãs. Aqui no Rio é famosa a crítica ao fato de que, nos shows do grupo, era tanta gente cantando a letra ao mesmo tempo, que o cantor ficava quieto a maior parte do tempo. Terminaram a banda e ganharam minha admiração. (E vocês se lembram deste texto?)
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Não existe salvação para qualquer tipo de idolatria. Mas pelo menos a tietagem tem uma vantagem sobre a iconoclastia: não precisa se explicar. O ridículo se basta.
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Ser fã é uma estranheza. Ao mesmo tempo em que quer que todo mundo sinta a mesma intensidade que ele sente, no fundo acha que nenhuma outra pessoa consegue perceber a mesma coisa.
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A ideia distante de um show do Radiohead já tinha me levado a pensar numa viagem só pra isso. Assim são as ideias, afinal; nem precisam virar realidade. Mas o anúncio da vinda do grupo e as vendas de ingresso desde novembro me levaram à incômoda circunstância de ter que ir ao show na próxima sexta-feira, donde se conclui que o resfriado vai se transformar em gripe forte – se tudo der certo.
Postado por Bruno Rabin at 12:09 AM | Comentários (5)
March 11, 2009
A metáfora que não fiz
Era para fazer uma metáfora sobre sutileza e generalização. Falar do ridículo de proibir os sempres e nuncas e do ridículo dos pode-ser-que-talvez-em-certo-sentido-se-consiga-perceber-certa-espécie-de-sei-lá-o-quê. Porque, nestes dias de palavras que ferem, fico achando que está todo mundo certo. Quem acha que spaghetti, spaghettoni, spaghettini, rigatoni, penne, mezze penne, penne rigate, bavette, bavettine, capellini, farfalle, tagliatelle, fusilli, gnocchi, orecchiette, cannelloni, bucatini, capellini, ziti e lasagnette são todos diferentes. E quem acha que é tudo macarrão. That's my offer, instead.
Postado por Bruno Rabin at 02:00 PM | Comentários (0)
March 04, 2009
Se um turista numa manhã de verão

Lendo essas notícias sobre problemas em cruzeiros marítimos (intoxicação alimentar, pane elétrica, incêndio, falta de cuidados médicos, abuso de drogas, morte e, o que é pior, voltagem de 220 para secadores de cabelo de 110), fico achando bom o argumento de que "a natureza se vinga".
Deus faz um mundão para as pessoas passearem, o homem capricha aqui e ali com outros espetáculos, e essas pessoas escolhem entrar num navio cheio, beber drinks açucarados dentro de abacaxis com guarda-chuvinha colorido e usar aquele vestido do casamento da afilhada para jantar comida morna de buffet com náusea do sobe-e-desce. Merecem castigo, claro.
Postado por Bruno Rabin at 09:34 AM | Comentários (5)
March 01, 2009
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel
Conhecer muitas pessoas inteligentes é evidência das próprias lacunas. A sagacidade do outro vem sempre duma lerdeza própria – mas muito vaidosa. Percebeu antes de mim? Então, é brilhante.
De modo que a sensação da mediocridade é exatamente assim: um quase. Eu quase fiz aquele trocadilho; por pouco não falei a mesma coisa. Como quando se ouve pela primeira vez um Bill Evans e cada toque parece ser justamente o que deveria vir e o que você faria se tocasse piano. Ou quando um amigo imita perfeitamente um trejeito de outra pessoa, que você faz direitinho dentro da sua imaginação.
A mediocridade é isto: a impressão sempre presente de que, no fundo, com um pouco mais de esforço, você faria igualzinho – cada lance do Romário, cada episódio dos Sopranos. Não fez, mas poderia ter feito – e por isso reconhece o esforço alheio como brilho. E olha para o lado, à procura de um cumplicidade, ficando muito feliz por não encontrá-la.
Postado por Bruno Rabin at 08:46 PM | Comentários (0)
February 17, 2009
Portabilidade mulhérica

Mas que janela de migração!
A portabilidade numérica funciona assim: você vai à operadora para a qual pretende migrar, conversa, discute os planos, pergunta sobre tudo aquilo que infernizou sua vida na operadora atual, faz um charme e fecha o negócio. Nem precisa falar com a anterior. Elas se resolvem e, em três dias, você está por aí, com o mesmo número, de operadora nova. Nesse período - eles avisam -, existe uma "janela de migração", na qual você fica já sem a antiga e ainda sem a nova.
Tudo muito civilizado.
Então, a proposta é que a humanidade crie uma espécie de portabilidade amorosa, que funcionaria da mesma maneira: cansado daquela broaca, você conhece uma morena que nem te conto. Conversa bastante, faz algumas visitas à casa dela, fala abertamente sobre a nova relação, exige o tempo pro futebol e nenhuma reclamação sobre cuecas sujas. Ela aceita tudo sorrindo e ainda confessa algumas preferências sexuais. Aí, decidido pela nova companheira, você nem precisa fazer nada. Uma liga para a outra, elas que se entendam. E o melhor: você ainda ganha uma "janela de migração", para aproveitar o Carnaval como quiser.
Postado por Bruno Rabin at 09:43 PM | Comentários (4)
February 16, 2009
Analogia infundada para pecadores
O funcionário da empresa acha que o patrão tem muito dinheiro e lhe paga menos do merece; por isso, para compensar a exploração, em vez de mostrar mais serviço e discutir um aumento, faz um interurbano pessoal na firma, imprime o trabalho escolar da filha, leva alguns saquinhos de adoçante para casa.
Cometer um pecado, no fundo, é a mesma coisa. O sujeito acha que Deus já tem coisas de mais e está pagando mal pela tarefa – viver, no caso. Aí, em vez de falar com o patrão ou fazer melhor o que ele manda, prefere pegar um pedaço duplo da torta de chocolate e dizer que não poderá ir à festa de quinze anos da afilhada do vizinho, porque precisa levar a avó à final estadual do jiu-jitsu para a terceira idade.
Donde se infere que Deus talvez tenha péssimos gerentes de R.H.
Postado por Bruno Rabin at 08:35 PM | Comentários (3)
February 09, 2009
São João Batista; epifania
Olhou para o caixão, tentando ver se achava uma opinião sobre o corpo descoberto. Não teve aversão àquela "coisa de católicos", como dizia a mãe. Nem atração. Era difícil se concentrar com o barulho do tráfico próximo ao túnel. E estava quente. A irmã do morto chorava e suava igualmente, o corpo gordo mal cabendo na camisa verde. A morte ali ao lado era também um sofrimento para quem estava acima do peso, pensou. Como ter dignidade num caixão gigante, obrigando os amigos ao esforço descomunal?
Enquanto chorava, a irmã mexia as bochechas rosadas de um jeito estranho, fazendo-o pensar também que não era só o peso, mas o formato do rosto que não combinava com a morte exposta: não há seriedade diante de uma bochecha rosada. E ela estava de verde. Será que tinha escolhido a cor? Ele mesmo havia demorado horas resistindo ao preto. A janela do velório era enorme, e o sol ia até o meio da sala. Meia dúzia de pessoas usava bermuda; quase todos de camiseta clara. Pensou que deveria se lembrar de morrer no inverno.
Uma velhinha se aproximou da irmã do morto, abraçou-a e manteve suas mãos entrelaçadas nas dela, balançando os braços da irmã como quem busca animar a pessoa que não quer ser animada. A irmã se viu obrigada a ficar agradecendo repetidas vezes, desviando o olhar para o guaraná que seu irmão mais novo bebia. Passou a língua entre os lábios, engoliu em seco, os braços sem vontade animados pela velhinha. Nem sofria mais, suando, a garganta seca, e a velhinha falando com ela sem parar. Enquanto bebia o guaraná, o irmão olhava fixo para a cruz sobre o caixão. Era um modo de não ser incomodado. Quando a bebida acabou, continuou sorvendo o canudo, sendo repreendido pela velhinha, que desviou o olhar em sua direção.
Tentou se concentrar no morto. Ele também suava. Aproveitou que um casal se levantou do banco e procurou um lugar sob o ventilador. O primeiro alívio logo se transformou num incômodo maior. A forração de plástico preto imitando couro grudava em sua roupa, produzindo sons estranhos a cada movimento. Levantou-se. Andou vagarosamente até a janela, onde também não suportou ficar. Desta vez mais decidido, resolveu sair da sala, sacando o telefone celular no momento em que atravessava a porta. Fingiu checar a mensagem nenhuma e foi até o lado de fora do prédio, onde imaginava encontrar um restinho inexistente de brisa. Àquela hora, o São João Batista não tinha nem ar.
Ao voltar para a sala, cumprimentou a ex-mulher do morto, sem saber se ela o reconhecia. Murmurou uma frase propositalmente sem sentido. Era só a intenção que importava. Queria concentrar-se naquela morte. Não era tão amigo do morto, nem o via fazia bastante tempo. Estava ali por outras pessoas, mas uma morte exige respiração profunda. Esforçou-se mais uma vez, e por isso não percebeu a movimentação em torno do caixão. Dois homens vestidos com calças velhas, blusas desabotoadas, um deles com um boné do MST, pegavam as coroas de flores sem muito cuidado, empurrando as pessoas ao levá-las para fora. Um grupo de amigos do morto começou a se organizar. O caixão foi fechado, as pessoas foram aumentando o tom de voz. Na confusão, ele foi sendo empurrado para fora, mal conseguindo se apertar num canto, enquanto aqueles homens disputavam a amizade do morto aos olhos dos vivos, cada um querendo ser o principal carregador do caixão.
No caminho para a sepultura, ninguém falava muita coisa, menos pela sobriedade do acontecimento, do que pela necessidade de poupar forças. Ninguém sabia até onde teria que andar. Pensou em voltar dali mesmo (sempre pensava nisso), mas achou que perderia a última oportunidade de dar alguma dignidade ao ritual. Enquanto andava, lia as inscrições e as lápides. Saudade eterna de Ana Amélia Dias Leite. Mausoléu da Família Sousa e Silva. Ao lado d'Ele, em descanso eterno. Ao virar na via principal, notou uns fios se movendo. Eram pipas, duas delas, uma verde e vermelha, a outra laranja. Seguiu as linhas pata ver de onde vinham e logo se deparou com dois garotos de calção, sobre túmulos próximos ao lugar para onde ia o enterro. Um ria, o outro falava. Parecia irritado. À medida que se aproximavam, pôde ouvir as palavras com mais atenção. Um palavrão, um xingamento, a pipa que não subia naquela tarde sem vento. O menino que ria resolveu pular de um túmulo para outro, puxando a pipa com força, até que ela subisse um pouco. Gritou o nome do amigo, ou apelido. A essa altura, todas as pessoas já olhavam na direção dos meninos, a maioria querendo reprovar o comportamento, mas logo se desanimando diante do caminho a ser percorrido.
Nesse momento, a pele queimando pelo sol sem vento, os meninos soltando pipa e gritando, as pessoas andando a contragosto em direção à vala aberta, os homens com camisas desbotoadas levando as flores sem jeito, a irmã bochechuda limpando a testa no lenço que tinha ido ao nariz - nesse momento, teve uma intuição. Deus não existia. Pelo menos no Rio de Janeiro, Deus não existia. Continuou andando e pensando sobre a ideia nova. Em pouco tempo, a intuição se transformou em certeza e lhe parecia uma verdade tão suficiente em si mesma, que ele teve um momento de alegria.
Tudo fazia sentido: as pipas, o suor, as camisas desabotoadas e as bochechas suadas. Olhou outra vez para as lápides. Natasha, amor infinito. Paz e alegria no Reino de Deus. Maria Vitória de Albuquerque, 12/01/13-17/05/07. Virou o rosto para a esquerda. O menino que reclamava agora ria do outro, uma risada de escárnio, sem pena nenhuma da pipa presa a uma cruz. Naquele enterro, tinha encontrado uma resposta. Nunca mais o desconforto de viver em meio a pessoas que falam de espiritualidade sem religião, de sentimento divino sem rituais. Era o contrário. Nenhuma alma, nenhum espírito, nenhuma divindade. Só o ritual valia a pena. E, no São João Batista, nem isso.
Postado por Bruno Rabin at 10:35 PM | Comentários (0)
February 02, 2009
Opinião, argumento - e essas coisas que você fica achando por aí
Três tipos:
1) Pessoas que têm opinião;
2) Pessoas que têm opinião fundamentada (i.e., argumento);
3) Pessoas que gostam de opiniões.
Que são:
1) Raras (Ex."falsa gaga");
2) Chatíssimas (Ex.: achar que dinossauro também é gente);
3) A gente (Ex. Hahaha).
Postado por Bruno Rabin at 11:29 PM | Comentários (0)
January 27, 2009
Apostos que vocês vão gostar
Taí o que vocês queriam.
Postado por Bruno Rabin at 08:56 PM | Comentários (0)
December 29, 2008
Vinho, chatice e Scarlett - tudo no mesmo post
Na disputa silenciosa entre enochatos e anti-enochatos, fico com os primeiros. O prazer deles continua sendo o vinho; o de seus adversários, a maledicência.
Mal-dizer é um prazer soberano, claro, mas serve pra qualquer coisa: classe média na praia, jornalista da Folha, adoradores de filmes trash, blogueiros paulistas. Escolhendo os entendidos em vinho, o vinho vai junto, por coerência - se é que isso importa a essa nova geração de iconoclastas. E do vinho não se pode abrir mão.
Eu entendo os anti-enochatos. O que eles não suportam é o ritual: a escolha demorada demais do vinho; a cabeça estendida para trás, de maneira que os olhos possam atravessar os óculos de leitura à procura de uma informação salvadora no rótulo; o nariz desconfiado da rolha; os movimentos circulares com a taça, sempre muito imperfeitos.
Tudo isso envergonha quem está por perto, mas o problema não é do ritual: é do sujeito que o faz. Deixar uma pessoa que entende de aplicações financeiras se aventurar na gastronomia é como permitir que um Leandro e Leonardo sejam cantores de sinagoga. Aristocracia não combina com realidade.
O rótulo, a rolha, a taça, o vinho - ninguém tem nada com isso.
Mas a maior chatice dos anti-enochatos é o argumento verdadoso: "Aposto que ele confunde sangue-de-boi com um Brunello sem não tiver o rótulo por perto." Primeiro, nem o Lula confundiria. Segundo, o gosto do vinho inclui o rótulo - como o gosto da lagosta inclui o preço, o gosto do estrogonofe inclui o nome e a origem, o gosto do picadinho inclui o diminutivo. Por que separar as coisas? Se não me engano, os anti-enochatos também costumam se incomodar com aquelas pílulas de comida que os astronautas de filmes dos anos 70 usam no espaço: "Não é a mesma coisa que a comida de verdade, mas não é mesmo!"

Postado por Bruno Rabin at 05:35 PM | Comentários (4)
December 17, 2008
Sapatada

Já jogou o seu?
Postado por Bruno Rabin at 04:11 PM | Comentários (0)