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<title>Farsante</title>
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<modified>2008-08-20T13:20:11Z</modified>
<tagline>se zelig tivesse um blog</tagline>
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<copyright>Copyright (c) 2008, Bruno Rabin</copyright>
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<title>Mein Kampf de Futebol</title>
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<summary type="text/plain">O colega aqui do lado caprichou...</summary>
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<name>Bruno Rabin</name>

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<dc:subject>Crônica</dc:subject>
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<![CDATA[<p><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/rYvIXQfhvbc&hl=en&fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/rYvIXQfhvbc&hl=en&fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
<small><i>Jesse James pó-de-arroz? Devo admitir: a sacada é boa, e a risada chega a desculpar o constrangimento da associação. Mas vale o aviso: David, pode esperar, que a tua hora vai chegar...</small></i></p>

<p>Informação relevante: este blog é apenas um mensageiro apressado; elogios devem ir para <a href="http://altovolta.apostos.com/">lá</a>.</p>]]>

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<title>Espírito olímpico: bronze</title>
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<summary type="text/plain">Espírito olímpico: bronze.</summary>
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<dc:subject>Crônica</dc:subject>
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<![CDATA[<p>Do alto dessa gripe mal curada, com uma dor crônica na região lombar, diante da fatia de pizza requentada e da coca-cola já sem gás na temperatura ambiente, com o corpo mal aprumado no sofá de cor indefinida pelos anos sob meio sol, vendo as Olimpíadas pela TV, e as entrevistas dos atletas brasileiros, e os comentários dos comentaristas, não consigo deixar de pensar: "Para mim, já é uma vitória estar aqui."</p>]]>

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<title>She&apos;s gotta ticket to ride</title>
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<modified>2008-08-09T11:56:54Z</modified>
<issued>2008-08-09T11:43:54Z</issued>
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<summary type="text/plain">Bebeu e foi parado numa blitz? Impressione o policial.</summary>
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<dc:subject>Mídia</dc:subject>
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<![CDATA[<p><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/6QrpbzK9sf0&hl=en&fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/6QrpbzK9sf0&hl=en&fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
<small><i>No Brasil, o sindicato dos mecânicos vai entrar com uma ação contra a novidade - e é capaz de ganhar.</small></i></p>]]>

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<title>Que pena?</title>
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<modified>2008-07-28T18:26:01Z</modified>
<issued>2008-07-28T18:15:23Z</issued>
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<summary type="text/plain">Ser guru de medicina alternativa não é uma espécie de pena?</summary>
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<name>Bruno Rabin</name>

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<dc:subject>Crônica</dc:subject>
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<![CDATA[<p>Há quem veja na prisão de um criminoso um objetivo apenas reabilitador. O sujeito fica lá uns dias, uns meses, uns anos para pensar direitinho, se arrepender e ver se volta a ser gente. Nesse caso, se, antes da prisão, o acusado já tiver tomado tenência, se tiver mudado de vida completamente, se já for até mesmo um pregador de bons valores - e nem se fale do arrependimento, que isso ninguém consegue enxergar -, então nem precisa condenar o <a href="http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI3022557-EI8142,00.html">sujeito</a>, certo?</p>]]>

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<title>Tratamento de canal é o freak show da civilização ocidental</title>
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<modified>2008-07-23T02:40:08Z</modified>
<issued>2008-07-23T01:20:07Z</issued>
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<summary type="text/plain">Se a civilização existe, ela não está no consultório dentário.</summary>
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<name>Bruno Rabin</name>

<email>rabin.bruno@gmail.com</email>
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<dc:subject>Crônica</dc:subject>
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<![CDATA[<p><img alt="dentes.jpg" src="http://brunorabin.apostos.com/archives/dentes.jpg" width="350"  /></p>

<p>Quando alguém fala em sadomasoquismo você pensa em duas pessoas, não é? Um sádico e um masoquista, que se completam na busca de um prazer <i>borderline</i>, tão pervertido como ridículo, certo? Nada disso. O verdadeiro sadomasoquismo, cumpre esclarecer, só acontece quando uma pessoa encarna as duas dimensões simultaneamente, e esse alguém é o dentista. Senão, espiemos:</p>

<p>Só mesmo o masoquismo mais pervertido explica a escolha por uma rotina de enfrentamento da halitose da pessoa não amada, em meio àquele zunido incessante e à necessidade hiper-humana de um detalhismo que ninguém nota - ou nota, quando dá errado, e processa. Só por uma abnegação religiosa alguém pode se prestar ficar duas horas em frente a uma boca aberta cheia de dentes, equilibrando um sugador, um espelhinho e meia dúzia de equipamentos operados metade pelo pé, metade pela mão.</p>

<p>Ao mesmo tempo, só o sadismo mais cruel explica o ímpeto dos dentistas em perguntar se está doendo, pergunta a que só se pode responder com um grunhido indistinguível que eles interpretam como lhes convier - ou fingem interpretar, embora isso faça pouca diferença. E quando perguntam se está doendo, na verdade eles querem é impor a tortura; mas uma tortura muito sofisticada, que é a ameaça iminente da dor aguda, justo naquele ponto em que a anestesia acaba e você experimenta o insuportável. É como aquele sonho erótico agitado interrompido pela queda no chão frio, com a desvantagem da ausência de erotismo e da certeza da queda num chão gelado, só não se sabe quando.</p>

<p>É pior quando o dentista é mais experiente e nem pergunta sobre a dor; apenas responde ao seu quase-gemido, dizendo "Tá doendo, né? Mas já, já, passa." E continua a fazer o que fazia, sem muita pressa. Alguns chegam a ensaiar uma conversa sobre a reexibição de "Pantanal", ou o caso Daniel Dantas, ou o preço das consultas médicas, e pedem sua opinião sobre esses assuntos, na forma suprema do sadismo, que é o sarcasmo. Isso, a odontologia. E há quem a escolha.<br />
</p>]]>

</content>
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<title>War in Rio</title>
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<modified>2008-07-08T03:04:19Z</modified>
<issued>2008-07-08T02:55:57Z</issued>
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<summary type="text/plain">Com War, muita gente aprendeu geografia. Afinal, de que outra maneira um moleque dos anos 80 conheceria Vladvostok, Aral ou aprenderia que Venezuela e Colômbia são a mesma coisa? </summary>
<author>
<name>Bruno Rabin</name>

<email>rabin.bruno@gmail.com</email>
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<dc:subject>Crônica</dc:subject>
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<![CDATA[<p>Soube que existe um <a href="http://www.grow.com.br/Default.asp?area=111&cod_produto=765">War versão Império Romano</a>. Boa idéia. Além da distribuição geo-política do planeta, aprende-se história. Não fosse a concorrência desleal dos videogames ou da TV a cabo, teríamos uma geração esperta sendo formada. Com o original, muita gente aprendeu geografia. Afinal, de que outra maneira um moleque dos anos 80 conheceria Vladvostok, Aral ou aprenderia que Venezuela e Colômbia são a mesma coisa? </p>

<p>Como se não bastasse a função educacional, War é fonte de várias dessas metáforas que correm o risco de se perder (juntamente com o "caiu a ficha" dos orelhões), sendo a "conquista de 18 territórios" metáfora  muito mais simpática do que as que se usam na adminstração científica (e, só para comentar, "administração científica" é um bom exemplo da denegação freudiana, semelhante a bares que precisam se chamar "informal" ou "Conversa fiada").</p>

<p>Como o Banco imobiliário, War tem a vantagem de ser politicamente incorreto, uma espécie de oásis intelectual em tempos de discurso pacifista e preocupação social. O nome (bem) brasileiro é um "plus a mais": o original se chama Risk. Só mesmo a tradição explica que essa gente que adora vetar videogames não tenha tentado colocar um "protect the rain forest" entre os objetivos ou proposto uma redefinição da quantidade de exércitos que deveria caber ao continente africano.</p>

<p>War é um jogo de estratégia. Mas se joga com dados. Precisamente como as coisas funcionam no mundo real: organização, objetivo e planejamento sempre esbarram no acaso.  O Osama, por exemplo, deve ter jogado War II, aquele com aviõezinhos, antes de ter a idéia do ataque. A Al-Quaeda, aliás, poderia inspirar algumas variações do jogo, mas nada que se compare a esta <a href="http://jogowarinrio.blogspot.com/">aqui</a>:</p>

<p><a href="http://jogowarinrio.blogspot.com/"><img alt="war-in-rio-02.jpg" src="http://brunorabin.apostos.com/archives/war-in-rio-02.jpg" width="400" height="252" /></a>:<br />
</p>]]>

</content>
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<title>A (sua) tristeza</title>
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<modified>2008-07-03T14:10:01Z</modified>
<issued>2008-07-03T13:43:48Z</issued>
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<summary type="text/plain">É sintomático achar  &quot;A vida dos outros&quot; ruim e ter prazer justamente com a derrota alheia...</summary>
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<name>Bruno Rabin</name>

<email>rabin.bruno@gmail.com</email>
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<dc:subject>Crônica</dc:subject>
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<![CDATA[<p>Há quem não conheça a ética do futebol. Na derrota regular, o perdedor sofre duplamente, e sua irritação procede: amigos e inimigos se aproveitam da situação; podem e devem fazê-lo. Na eliminação, o sofrimento cresce na medida das brincadeiras, com a ressalva da intimidade - já não é de bom tom o desconhecido se aproveitar da dor alheia. Agora, na perda do título - e sobretudo na perda honrada do título -, muita coisa não se aplica.</p>

<p>Não se trata de ser flamenguista, pois há os que conhecem o código de conduta. Mas como a torcida rubro-negra é grande, cresce na mesma proporção a quantidade de sujeitos de má-fé. A zoação, como se não bastasse a inaplicabilidade em caso de luto, se torna ainda mais desprezível vinda de quem vem. Não há atenuante. E talvez haja agravantes: cara de paspalho, babando na risada que não se contém, vendo o jogo dos outros como um grande filme (final infeliz, as many); mas um filme dos outros, nunca seu.</p>]]>

</content>
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<title>Conto Sensorial (V)</title>
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<modified>2008-06-27T23:57:54Z</modified>
<issued>2008-06-27T23:04:00Z</issued>
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<summary type="text/plain">O quinto conto sensorial, e os outros quatro na extended entry.</summary>
<author>
<name>Bruno Rabin</name>

<email>rabin.bruno@gmail.com</email>
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<dc:subject>Ficção</dc:subject>
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<![CDATA[<p>O olhar perdido de Juan sugeria apenas uma estupidez inocente, muito ao gosto da imagem de adolescente despenteado com um par de fones metidos nas orelhas, com música alta saindo de lado. O que não se sabia é que ele estava assim havia um dia e meio, desde que, pela centésima vez, havia se esforçado inultimente em tirar os fones do ouvido. Um mau jeito, um mau olhado, um azar tremendo, não se sabe, mas os fones estavam presos ao ouvido sem ter força que dali os tirasse. </p>

<p>O desespero levou Juan a hipóteses estranhas: devia ser castigo divino pela música pirateada; ou então aquele romance nunca lido em que era especialista; talvez não ter escovado sempre os dentes -  qualquer coisa assim absurda servia. Mas nem a promessa de refazer tudo às avessas dava certo.</p>

<p>Quem mandou comprar essa bateria importada? Essa, que dura pelo menos 50 horas sem parar, pensou o garoto. E por que o fone sem fio? Seria tão simples cortá-lo. Mas nada disso seria tão desesperador. Quando terminou a música que tocava foi que ele se deu conta do problema em que estava metido: apertara o botão do "repeat" para ouvir de novo aquela canção, e ficou fadado a só escutá-la.</p>

<p>Mas por que Juan chorava tanto? É que ter renegado os pais sessentões se voltava finalmente contra ele. Depois de desgostar do Fidel, de jogar fora a edição comemorativa do Manifesto, de prometer não beber cerveja, de raspar a barba crescida, Juan resolveu manter sua única ligação com a "hippiesse" do pai e da mãe e copiou "Volver a los 17", na gravação da Mercedes Sosa com a baianada. E essa era a música que Juan ouvia quando os fones se prenderam a seus ouvidos.</p>

<p>Pediu socorro, mas não se fazia entender. Tentou dormir, mas foi em vão. E agora está ali na frente, sentado no banquinho, olhar no infinito, adolescente típico, ouvindo aquela música repetir para sempre, "como el musguito em la piedra, ay si, si, si". A bateria vai acabar, bem sabemos, mas o Juan acaba antes.</p>

<p><i>(Este é o último dos contos sensoriais. Os outros estão na extended entry.)</i><br />
</p>]]>
<![CDATA[<p><b>Conto Sensorial (IV)</b></p>

<p>Desde muito novo, Augusto percebeu que era diferente: nasceu com um problema de paladar; uma espécie de persistência retiniana só que com o gosto das coisas, e muito mais duradoura. O pedaço de pão levado à boca, ainda quente, mantinha-se com igual intensidade quando um gole de leite era sorvido e incorporado ao paladar, já à espera de uma fatia de queijo, de outro pedaço de pão e de tudo que viesse. Sua mãe não entendia por que Augusto recusava o gomo de laranja no café-da-manhã ou a goiabada após o prato de feijão. Ele já sabia que os melhores sabores só se misturam como lixo e começou a ter aversão a comidas novas.</p>

<p>Com o tempo, Augusto parecia ter-se adaptado. Fazia longos intervalos entre as refeições, evitava misturas radicais e, definitivamente, recusava tudo que lembrasse cozinha contemporânea. Mas os cuidados mostraram-se inúteis. Semana após semana, a densidade gustativa aumentava, prolongando-se por horas e horas, até atingir um ponto sem retorno: acordar com a sensação do café-da-manhã do dia anterior.</p>

<p>Um alentou o consolou por alguns meses: Augusto passou a adorar resfriados. Quanto mais congestionado estivesse, menos gosto sentia. Chegou ao ponto de inverter as ordens maternas: ia para a rua sem agasalho, tomava sereno e andava descalço na cozinha. Nessas ocasiões, Augusto aproveitava para comer de tudo, misturar quente e frio, salgado e doce, deliciar-se com jiló e limonada suíça. Comia tanto e tão bem, que logo curava a gripe, voltando à insuportável saúde de sempre.</p>

<p>Todo esse sofrimento, porém, parecia ter acabado quando Augusto viveu seu primeiro amor e aprendeu a beijar. Antes de acabar o gosto do beijo anterior, vinha o próximo. E depois outros e tantos, num acúmulo de sensações que ninguém deve ter experimentado em lugar algum. Se já não gostava muito de comer, Augusto reduziu suas refeições ao indispensável, tão apaixonado que estava pela menina da turma.</p>

<p>E de tão apaixonado, decidiu contar à namorada sua história. Arrependeu-se como nunca: ela ficou assustada ao imaginar que cada beijo seu se misturava a um prato de salada ou a uma xícara de chá. Teve nojo e preferiu afastar-se dele. Antes de ir embora, prometeu-lhe um último beijo, contra a vontade, mas em respeito às lágrimas de Augusto. Foi um beijo delicioso, um último beijo, um beijo para Augusto guardar para sempre em seu paladar. Foi o que ele fez. Nunca mais colocou nada na boca e resistiu alguns dias. Nada mais.</p>

<p><br />
<b>Conto Sensorial (III)</b></p>

<p>A sensação do corpo sujo fazia Vladimir lavar suas mãos a cada meia hora. Banhos, meia dúzia por dia, cada um durando seus quarenta minutos. Havia alívio no contato com água, mas era pouco.</p>

<p>Convencido pelos amigos, Vladimir procurou um psicanalista. Fez algumas sessões, ponderou bastante e acabou abandonando a experiência. Havia chegado à conclusão inevitável: dois sabonetes por dia custavam menos que o atendimento.</p>

<p>No fundo, é sempre uma questão de saldo.</p>

<p><br />
<b>Conto Sensorial (II)</b></p>

<p>Havia um retrato na parede do quarto de Isabel. Era o retrato de uma velha — ela me contou —, uma fotografia esquecida pelo antigo morador da casa que acabara de alugar. Era o retrato de uma velha, uma imagem envelhecida também. No olhar da velha, sua velhice inteira, disse-me Isabel. Não que houvesse ali sabedoria ou experiência, “essas coisas que queremos ver nos velhos, porque queremos ver em nós mesmos”. Não, em seu olhar havia apenas velhice: nenhuma transparência, opacidade pura. Isso tudo me contou Isabel, porque eu já não podia ver.</p>

<p>E me contou também que aquela velha era um pouco ela própria. Como? — perguntei-lhe. Isabel ficou em silêncio. Insisti em tom mais alto, imaginando que ela não tivesse me ouvido. Novo silêncio. Isabel olhava-me fixamente. Isso eu não podia ver, mas sabia. Isabel tinha os olhos marejados. Isso eu não podia ver, mas sentia em minhas mãos, entendendo que me restava também o silêncio.</p>

<p>O retrato da velha na parede nos contemplava vazio. Isabel não chegou a chorar, porque não queria que as lágrimas limpassem seu olhar do silêncio mais fundo. Isabel queria o vazio também, um vazio que a aproximasse da velha na parede; um vazio que a aproximasse de mim.</p>

<p><br />
<b>Conto Sensorial (I)</b></p>

<p>Quando era pequeno, tinha muito medo de me viciar em cocaína. Achava que o vício vinha do cheiro: um perfume tão gostoso, mas tão gostoso, que, uma vez experimentado, produzia no sujeito a vontade incontrolável de senti-lo o tempo todo. Deve ter sido alguma associação com o canto da sereia, possivelmente uma mistura de trechos de conversas de adultos, mal ouvidos pelo sono, à mesa de um restaurante. Talvez sem sono, mas certamente à mesa de um restaurante, impaciente com os cafés antes da conta. Aquele medo persistiu em mim por muito tempo. Não o da cocaína, mas o do vício; não o de um vício qualquer, mas o de um perfume delicioso.</p>

<p>Como o associava à causa errada, custei a perceber que já estava viciado. E que nunca mais conseguiria esquecê-la.</p>]]>
</content>
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<title>Faz sentido</title>
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<modified>2008-06-27T21:10:40Z</modified>
<issued>2008-06-27T21:05:54Z</issued>
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<summary type="text/plain">Faz sentido.</summary>
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<name>Bruno Rabin</name>

<email>rabin.bruno@gmail.com</email>
</author>
<dc:subject>Mídia</dc:subject>
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<![CDATA[<p><a href="http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL616656-7085,00.html">Neste caso</a>, mais uma vez, a ironia é <a href="http://avidadetiago.apostos.com/2008/06/o_concerto_de_joao_gilberto_em_1.html">involuntária</a>.</p>]]>

</content>
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<title>A cena que eu gostaria de ter feito se fosse cineasta</title>
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<issued>2008-06-24T14:39:19Z</issued>
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<created>2008-06-24T14:39:19Z</created>
<summary type="text/plain">A cena que eu gostaria de ter feito se fosse cineasta.</summary>
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<name>Bruno Rabin</name>

<email>rabin.bruno@gmail.com</email>
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<dc:subject>Filmes</dc:subject>
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<![CDATA[<p><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/qoIvd3zzu4Y&hl=en"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/qoIvd3zzu4Y&hl=en" type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="344"></embed></object><br />
</p>]]>

</content>
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<title>Bem de Alzheimer</title>
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<summary type="text/plain">Bem de Alzheimer.</summary>
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<name>Bruno Rabin</name>

<email>rabin.bruno@gmail.com</email>
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<dc:subject>Crônica</dc:subject>
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<![CDATA[<p>Estava pensando que a avó, demenciada, lembrando nomes e gestos, mas não o dia anterior, talvez não precisasse tanto assim da dedicação da família no sentido de lhe proporcionar bons momentos, felicidades de que não se lembraria horas depois. Pensava que não ter a lembrança tirava o sentido da alegria, como se o depois valesse mais que o durante. Mas não. Talvez o contrário: como não tem mais a possibilidade de comparar o que está sentindo com o que já sentiu antes, a avó vive a intensidade mais plena, cada momento contendo a maior felicidade e a maior tristeza possíveis. Nenhum meio termo, nenhuma mediocridade. Consolou-se com sobra.</p>]]>

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<title>Ao contrário</title>
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<summary type="text/plain">A matemática feminina.</summary>
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<name>Bruno Rabin</name>

<email>rabin.bruno@gmail.com</email>
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<dc:subject>Crônica</dc:subject>
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<![CDATA[<p>As mulheres agora fazem contas, mas isso não diminui sua feminilidade; ao contrário. O teste é simples: a mulher vai a uma loja para comprar uma blusinha. Lá chegando, descobre que há uma promoção. A blusa custa 80 reais, mas se você levar três paga 200. Então, é óbvio que ela vai levar as três; afinal, cada blusa saiu por menos de 70 pratas. O gasto inicial de 80 foi acrescido de 120, fora a felicidade da compra bem feita. Essa, a lógica feminina. Mas não é nada de que não se goste; ao contrário.</p>]]>

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<title>Por que a medicina precisa de mim</title>
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<summary type="text/plain">Eu acertaria tudo no exame de vista se as letrinhas não fosse tão parecidas....</summary>
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<name>Bruno Rabin</name>

<email>rabin.bruno@gmail.com</email>
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<dc:subject>Frases</dc:subject>
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<![CDATA[<p>Eu acertaria tudo no exame de vista se as letrinhas não fosse tão parecidas.</p>]]>

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<title>Na mesa</title>
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<modified>2008-06-20T23:29:04Z</modified>
<issued>2008-06-20T15:52:44Z</issued>
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<summary type="text/plain">Conto curto, homenagem às avessas à &quot;mulher que ia navegar&quot;, de Rubem Braga.</summary>
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<name>Bruno Rabin</name>

<email>rabin.bruno@gmail.com</email>
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<dc:subject>Ficção</dc:subject>
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<![CDATA[<p>Quando o terceiro vinho chegou e todos se distraíram um pouco, ele olhou uma outra vez para ela, agora mais detidamente. Ela oferecia um sorriso aberto à mesa, enquanto rodava a taça entre os dedos, como se fizesse carícias em alguém que ele não conseguia identificar. Continuou olhando em sua direção, sem perceber que lhe faziam uma pergunta sobre a safra do vinho, à qual respondeu com um “sim”, prontamente diluído na embriaguez do amigo curioso, que já não ouvia nada. </p>

<p>Ela era estúpida (ele sabia) mas ninguém na mesa conseguia perceber que o silêncio enigmático era um disfarce para a falta do que dizer. Ela se aproveitava (ele sabia) de ter olhos escuros; de ter, com esses olhos, um olhar demorado, não pelo que enxergasse profundamente, mas pela imensidão do vazio, pois a falta é ainda mais eloqüente que o excesso; de ter um cabelo muito fino, que mesmo preso se desprendia aos poucos e deixava uns fios escondendo-mostrando a nuca do pescoço comprido; de ter quase um tique no jeito como passava o polegar no canto inferior do lábio, repuxando-o com suavidade e firmeza, como se quisesse abrir a boca só para deixá-la entreaberta, sem dizer nada, mas expirando um ar quente que (ele sabia) aumentaria de intensidade quando ela já estivesse seminua. Mas ele não sabia com quem.</p>

<p>E quando voltou a beber do vinho, fechando os olhos no final do movimento com a taça, ela estava renovando as carícias que ninguém deveria querer ter, porque ela, afinal, teria pouco a dar em troca. A única coisa que tinha, e inconsciente, era essa habilidade em dizer-se para os outros de um modo que (ele sabia) ela não era, essa competência com o corpo que a fazia controlar os gestos à mesa e molhar o pedaço de pão no azeite sem olhar o próprio movimento, mas percorrendo cada ponto do espaço que deveria percorreria se visasse à perfeição. Ela era distraída em ser.</p>

<p>Só ele percebia que ela era uma impureza – e um vazio. Por isso a decisão de detê-la.</p>

<p>Primeiro, teve a idéia de um ataque. Ensaiou uma gargalhada sonora, à qual se seguiria o deboche do controle que (ele sabia) ela não tinha de verdade. Seria uma agressão indireta, uma maneira de ridicularizá-la na frente de todos, exigindo que ela saísse desse lugar de falsa segurança em que depositara sua habilidade em parecer o que (ele sabia) ela não era. Mas foi só uma idéia. Talvez a bebida o ajudasse a colocá-la em prática. Talvez. Ele duvidou; menos do deboche do que da capacidade de rir à vontade que sua intenção exigia, um riso de superioridade como são os risos de pessoas que se sentem melhores que as outras; e ele não se sentia.</p>

<p>Então, pensou em ser igual a ela. Se pudesse esboçar um olhar de mistério e fazer convergir a atenção dos amigos, daria certo. Mas não podia; e precisava detê-la. Ele ainda tentou imitá-la no gesto generoso, levando sua própria taça à boca em um movimento controlado, mas teve a impressão de que a cada ponto do espaço correspondia um riso sarcástico, um comentário, uma reprovação – o barulho da mesa. Desistiu no meio do caminho, com a taça trêmula voltando rápido para o lugar de onde partira e fazendo um som agudo ao bater na borda do prato. Do barulho, fez-se o silêncio, e todos olharam para ele – inclusive ela. Tinha pena, ele sabia. </p>

<p>Com mais um gesto suave, ela partiu outro pão, levou o pedaço menor ao azeite e de lá à boca, onde o mastigou demoradamente, limpando os lábios com o polegar, como se fosse perfeita – e o torturasse, ele sabia.<br />
</p>]]>

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<title>Oposição, situação</title>
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<modified>2008-06-12T17:12:18Z</modified>
<issued>2008-06-12T15:03:40Z</issued>
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<created>2008-06-12T15:03:40Z</created>
<summary type="text/plain">O dragão e a política.</summary>
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<name>Bruno Rabin</name>

<email>rabin.bruno@gmail.com</email>
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<dc:subject>Frases</dc:subject>
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<![CDATA[<p><img alt="cavernadodragao.jpg" src="http://brunorabin.apostos.com/archives/cavernadodragao.jpg" width="400" height="346" /><br />
<i><small>Dilma, Ideli, Zé Múcio, Romero Jucá e Franklin Martins</small></i></p>

<p>Quer dizer que é para dar aquela torcidinha pela inflação?</p>]]>

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