June 27, 2008

Conto Sensorial (V)

O olhar perdido de Juan sugeria apenas uma estupidez inocente, muito ao gosto da imagem de adolescente despenteado com um par de fones metidos nas orelhas, com música alta saindo de lado. O que não se sabia é que ele estava assim havia um dia e meio, desde que, pela centésima vez, havia se esforçado inultimente em tirar os fones do ouvido. Um mau jeito, um mau olhado, um azar tremendo, não se sabe, mas os fones estavam presos ao ouvido sem ter força que dali os tirasse.

O desespero levou Juan a hipóteses estranhas: devia ser castigo divino pela música pirateada; ou então aquele romance nunca lido em que era especialista; talvez não ter escovado sempre os dentes - qualquer coisa assim absurda servia. Mas nem a promessa de refazer tudo às avessas dava certo.

Quem mandou comprar essa bateria importada? Essa, que dura pelo menos 50 horas sem parar, pensou o garoto. E por que o fone sem fio? Seria tão simples cortá-lo. Mas nada disso seria tão desesperador. Quando terminou a música que tocava foi que ele se deu conta do problema em que estava metido: apertara o botão do "repeat" para ouvir de novo aquela canção, e ficou fadado a só escutá-la.

Mas por que Juan chorava tanto? É que ter renegado os pais sessentões se voltava finalmente contra ele. Depois de desgostar do Fidel, de jogar fora a edição comemorativa do Manifesto, de prometer não beber cerveja, de raspar a barba crescida, Juan resolveu manter sua única ligação com a "hippiesse" do pai e da mãe e copiou "Volver a los 17", na gravação da Mercedes Sosa com a baianada. E essa era a música que Juan ouvia quando os fones se prenderam a seus ouvidos.

Pediu socorro, mas não se fazia entender. Tentou dormir, mas foi em vão. E agora está ali na frente, sentado no banquinho, olhar no infinito, adolescente típico, ouvindo aquela música repetir para sempre, "como el musguito em la piedra, ay si, si, si". A bateria vai acabar, bem sabemos, mas o Juan acaba antes.

(Este é o último dos contos sensoriais. Os outros estão na extended entry.)

Conto Sensorial (IV)

Desde muito novo, Augusto percebeu que era diferente: nasceu com um problema de paladar; uma espécie de persistência retiniana só que com o gosto das coisas, e muito mais duradoura. O pedaço de pão levado à boca, ainda quente, mantinha-se com igual intensidade quando um gole de leite era sorvido e incorporado ao paladar, já à espera de uma fatia de queijo, de outro pedaço de pão e de tudo que viesse. Sua mãe não entendia por que Augusto recusava o gomo de laranja no café-da-manhã ou a goiabada após o prato de feijão. Ele já sabia que os melhores sabores só se misturam como lixo e começou a ter aversão a comidas novas.

Com o tempo, Augusto parecia ter-se adaptado. Fazia longos intervalos entre as refeições, evitava misturas radicais e, definitivamente, recusava tudo que lembrasse cozinha contemporânea. Mas os cuidados mostraram-se inúteis. Semana após semana, a densidade gustativa aumentava, prolongando-se por horas e horas, até atingir um ponto sem retorno: acordar com a sensação do café-da-manhã do dia anterior.

Um alentou o consolou por alguns meses: Augusto passou a adorar resfriados. Quanto mais congestionado estivesse, menos gosto sentia. Chegou ao ponto de inverter as ordens maternas: ia para a rua sem agasalho, tomava sereno e andava descalço na cozinha. Nessas ocasiões, Augusto aproveitava para comer de tudo, misturar quente e frio, salgado e doce, deliciar-se com jiló e limonada suíça. Comia tanto e tão bem, que logo curava a gripe, voltando à insuportável saúde de sempre.

Todo esse sofrimento, porém, parecia ter acabado quando Augusto viveu seu primeiro amor e aprendeu a beijar. Antes de acabar o gosto do beijo anterior, vinha o próximo. E depois outros e tantos, num acúmulo de sensações que ninguém deve ter experimentado em lugar algum. Se já não gostava muito de comer, Augusto reduziu suas refeições ao indispensável, tão apaixonado que estava pela menina da turma.

E de tão apaixonado, decidiu contar à namorada sua história. Arrependeu-se como nunca: ela ficou assustada ao imaginar que cada beijo seu se misturava a um prato de salada ou a uma xícara de chá. Teve nojo e preferiu afastar-se dele. Antes de ir embora, prometeu-lhe um último beijo, contra a vontade, mas em respeito às lágrimas de Augusto. Foi um beijo delicioso, um último beijo, um beijo para Augusto guardar para sempre em seu paladar. Foi o que ele fez. Nunca mais colocou nada na boca e resistiu alguns dias. Nada mais.


Conto Sensorial (III)

A sensação do corpo sujo fazia Vladimir lavar suas mãos a cada meia hora. Banhos, meia dúzia por dia, cada um durando seus quarenta minutos. Havia alívio no contato com água, mas era pouco.

Convencido pelos amigos, Vladimir procurou um psicanalista. Fez algumas sessões, ponderou bastante e acabou abandonando a experiência. Havia chegado à conclusão inevitável: dois sabonetes por dia custavam menos que o atendimento.

No fundo, é sempre uma questão de saldo.


Conto Sensorial (II)

Havia um retrato na parede do quarto de Isabel. Era o retrato de uma velha — ela me contou —, uma fotografia esquecida pelo antigo morador da casa que acabara de alugar. Era o retrato de uma velha, uma imagem envelhecida também. No olhar da velha, sua velhice inteira, disse-me Isabel. Não que houvesse ali sabedoria ou experiência, “essas coisas que queremos ver nos velhos, porque queremos ver em nós mesmos”. Não, em seu olhar havia apenas velhice: nenhuma transparência, opacidade pura. Isso tudo me contou Isabel, porque eu já não podia ver.

E me contou também que aquela velha era um pouco ela própria. Como? — perguntei-lhe. Isabel ficou em silêncio. Insisti em tom mais alto, imaginando que ela não tivesse me ouvido. Novo silêncio. Isabel olhava-me fixamente. Isso eu não podia ver, mas sabia. Isabel tinha os olhos marejados. Isso eu não podia ver, mas sentia em minhas mãos, entendendo que me restava também o silêncio.

O retrato da velha na parede nos contemplava vazio. Isabel não chegou a chorar, porque não queria que as lágrimas limpassem seu olhar do silêncio mais fundo. Isabel queria o vazio também, um vazio que a aproximasse da velha na parede; um vazio que a aproximasse de mim.


Conto Sensorial (I)

Quando era pequeno, tinha muito medo de me viciar em cocaína. Achava que o vício vinha do cheiro: um perfume tão gostoso, mas tão gostoso, que, uma vez experimentado, produzia no sujeito a vontade incontrolável de senti-lo o tempo todo. Deve ter sido alguma associação com o canto da sereia, possivelmente uma mistura de trechos de conversas de adultos, mal ouvidos pelo sono, à mesa de um restaurante. Talvez sem sono, mas certamente à mesa de um restaurante, impaciente com os cafés antes da conta. Aquele medo persistiu em mim por muito tempo. Não o da cocaína, mas o do vício; não o de um vício qualquer, mas o de um perfume delicioso.

Como o associava à causa errada, custei a perceber que já estava viciado. E que nunca mais conseguiria esquecê-la.

Posted by Bruno Rabin at 08:04 PM | Comments (2)

June 20, 2008

Na mesa

Quando o terceiro vinho chegou e todos se distraíram um pouco, ele olhou uma outra vez para ela, agora mais detidamente. Ela oferecia um sorriso aberto à mesa, enquanto rodava a taça entre os dedos, como se fizesse carícias em alguém que ele não conseguia identificar. Continuou olhando em sua direção, sem perceber que lhe faziam uma pergunta sobre a safra do vinho, à qual respondeu com um “sim”, prontamente diluído na embriaguez do amigo curioso, que já não ouvia nada.

Ela era estúpida (ele sabia) mas ninguém na mesa conseguia perceber que o silêncio enigmático era um disfarce para a falta do que dizer. Ela se aproveitava (ele sabia) de ter olhos escuros; de ter, com esses olhos, um olhar demorado, não pelo que enxergasse profundamente, mas pela imensidão do vazio, pois a falta é ainda mais eloqüente que o excesso; de ter um cabelo muito fino, que mesmo preso se desprendia aos poucos e deixava uns fios escondendo-mostrando a nuca do pescoço comprido; de ter quase um tique no jeito como passava o polegar no canto inferior do lábio, repuxando-o com suavidade e firmeza, como se quisesse abrir a boca só para deixá-la entreaberta, sem dizer nada, mas expirando um ar quente que (ele sabia) aumentaria de intensidade quando ela já estivesse seminua. Mas ele não sabia com quem.

E quando voltou a beber do vinho, fechando os olhos no final do movimento com a taça, ela estava renovando as carícias que ninguém deveria querer ter, porque ela, afinal, teria pouco a dar em troca. A única coisa que tinha, e inconsciente, era essa habilidade em dizer-se para os outros de um modo que (ele sabia) ela não era, essa competência com o corpo que a fazia controlar os gestos à mesa e molhar o pedaço de pão no azeite sem olhar o próprio movimento, mas percorrendo cada ponto do espaço que deveria percorreria se visasse à perfeição. Ela era distraída em ser.

Só ele percebia que ela era uma impureza – e um vazio. Por isso a decisão de detê-la.

Primeiro, teve a idéia de um ataque. Ensaiou uma gargalhada sonora, à qual se seguiria o deboche do controle que (ele sabia) ela não tinha de verdade. Seria uma agressão indireta, uma maneira de ridicularizá-la na frente de todos, exigindo que ela saísse desse lugar de falsa segurança em que depositara sua habilidade em parecer o que (ele sabia) ela não era. Mas foi só uma idéia. Talvez a bebida o ajudasse a colocá-la em prática. Talvez. Ele duvidou; menos do deboche do que da capacidade de rir à vontade que sua intenção exigia, um riso de superioridade como são os risos de pessoas que se sentem melhores que as outras; e ele não se sentia.

Então, pensou em ser igual a ela. Se pudesse esboçar um olhar de mistério e fazer convergir a atenção dos amigos, daria certo. Mas não podia; e precisava detê-la. Ele ainda tentou imitá-la no gesto generoso, levando sua própria taça à boca em um movimento controlado, mas teve a impressão de que a cada ponto do espaço correspondia um riso sarcástico, um comentário, uma reprovação – o barulho da mesa. Desistiu no meio do caminho, com a taça trêmula voltando rápido para o lugar de onde partira e fazendo um som agudo ao bater na borda do prato. Do barulho, fez-se o silêncio, e todos olharam para ele – inclusive ela. Tinha pena, ele sabia.

Com mais um gesto suave, ela partiu outro pão, levou o pedaço menor ao azeite e de lá à boca, onde o mastigou demoradamente, limpando os lábios com o polegar, como se fosse perfeita – e o torturasse, ele sabia.

Posted by Bruno Rabin at 12:52 PM | Comments (0)

May 23, 2008

Rômulo e a mãe judia

Rômulo era de uma família católica típica: muita missa, pouca missão. No Natal, tudo como mandava a liturgia: ceia farta, árvore iluminada, aquela coisa. Mas Rômulo queria ser judeu. Ficou com idéia fixa desde que viu uns garotos de solidéu num filme antigo. Depois, aprendeu a palavra “iídiche” e, mesmo sem saber bem o que significava, gostou da sonoridade. Sua intuição se confirmou quando ganhou de presente um livro de piadas hebraicas e descobriu a mãe judia. Resultado: quis ter uma também.

A cada Natal, quando visitava sua família, tentava alguma coisa. Primeiro, deixou de levar um presente para a Dona Mirtes, apenas o dela. A mãe, a princípio, estranhou o esquecimento; depois, acabou ficando satisfeita com o pensamento de que o filho estava tomando juízo e deixando de gastar dinheiro com besteira. Desolado, Rômulo foi adiante. No Natal seguinte, resolveu criticar sem piedade a camisa que sua mãe lhe dera de presente. Disse que era melhor não ter recebido nada. Dona Mirtes chegou a ficar engasgada, mas se resignou: o filho estava nervoso, essa coisa de colocar dinheiro na Bolsa, ela bem que avisou. E se calou sem esboçar reclamação. Desiludido e insistente, Rômulo deu sua cartada final. Disse à mãe que não iria para o Natal porque ficaria com a família de sua nova namorada. Desta vez — animou-se — conseguiria: rejeição e troca por outra mulher, nada pode ser mais eficaz para despertar o instinto maternal judaico de toda mãe... Para desespero de Rômulo, Dona Mirtes não só entendeu a escolha, como ainda sugeriu viajar para confraternizar com a família da moça - claro, se não fosse atrapalhá-lo.

Desde então, Rômulo nunca mais foi visto. Uns dizem que enlouqueceu com a fixação e se tornou o famoso mendigo erudito da Praça Andrade Neves, que fica lendo a Torá com uma pronúncia muito própria enquanto mexe a cabeça de um lado para o outro, achando-se muito parecido com um rabino. Outros afirmam que, na verdade, ele se casou com uma menina judia abrasileirada, que, contra a vontade de Rômulo, aceitou emprego como gerente de R.H. e abandonou o ritual religioso, escolhendo uma coisa assim mais espiritualizada, meio budista, meio mandala, mas muito verdadeira, sabe?, uma coisa que faz a gente repensar a vida - inclusive as receitas de gefilte fish e beigale, as festas de Pessach e o jeito de cuidar dos filhos e do marido, tudo muito ultrapassado, entende?

Ninguém sabe; pouco importa. O fato é que Dona Mirtes nunca mais teve notícia do Rômulo. Para compensar a perda do filho único, adotou um menino. Dizem que o garoto usa óculos, estuda violino e vai ser médico. E quando pede à mãe para brincar na pracinha, recebe sempre a mesma resposta: mas pra quê, meu filho?

Posted by Bruno Rabin at 02:40 PM | Comments (0)

May 22, 2008

Lúcia e o papel alumínio

Lúcia tinha horror a papel alumínio. Não era apenas uma pequena implicância, ou mesmo um desgosto resignado; não, ela tinha horror a papel alumínio. Não conseguia sequer pensar em tigela ou potinho coberto na geladeira. Desde a primeira vez em que se deu conta dessa aversão, passou a evitar o convívio doméstico alheio. Por isso, não freqüentou a casa de um potencial noivo. Tinha medo de que a sogra lhe oferecesse um pedaço de torta para levar. (Mais cedo ou mais tarde, isso aconteceria.) Por isso, não se casou. Por isso, deixou a própria família. Por isso, nunca mais teve Natal. Ano passado suicidou-se dia 24 à noite. No velório, na casa de Dona Carmem, sua mãe, foram servidos biscoitos com chá. As sobras alguém levou embrulhadas em papel alumínio.

Posted by Bruno Rabin at 06:11 PM | Comments (0)

October 18, 2007

O dia em que quebrei as mãos de Nelson Freire

Troquei os pés pelas mãos. Literalmente. Tinha prometido ir ao primeiro concerto do Nelson Freire que aparecesse pela cidade. Pois ele apareceu justamente no dia em que a seleção brasileira fazia sua partida contra o Equador. Não tive escolha; e acho até que não faria outra.

***

A platéia já vai preparada para aplaudir. Ninguém nota a entrada lenta em duas ou três notas de um scherzo notabile. Nem eu, para falar a verdade. Aplaudo também.

E aproveito o concerto para pensar em como gostaria de ser vizinho de um pianista, mas um bem fracote, que eu pudesse ameaçar quando desejasse ficar em paz.

Depois do concerto, espero o pianista sair para cumprimentá-lo. Ele me olha assustado, mas não consegue escapar: estendo a mão e ele a aperta querendo ir embora. Não deixo. E fico com a mão dele apertada pela minha, cada vez com mais força. Ele se contorce, puxa a mão com a outra, tenta a todo custo se livrar de mim. Vai ficando vermelho quase roxo e começa a suar. Aumento a força e faço um leve entorce, até sentir um pedaço de osso se deslocar com o barulho desejado. Só então, sua mão quebrada, ele consegue se libertar. Deixou-o ali, incrédulo, enquanto termina o último movimento antes de mais aplausos. Aplaudo-o também.

Posted by Bruno Rabin at 07:47 PM | Comments (1)

September 09, 2007

Vida simples

Coisa boa na vida são os pequenos prazeres, essas coisas tão simples do dia-a-dia. Ainda agora tomei uma coca-cola fresquinha, fresquinha, feita na hora. Uma delícia. É por essas e outras que eu gosto de morar aqui pertinho da fábrica, na zona industrial.

É um barulho, sabe, um barulho tão forte, tão aconchegante, que você nem sente o tempo parar. Isso pra não falar da felicidade da garotada, que pode brincar à vontade com os vergalhões da obra e correr pelo asfalto, que, de tão quentinho, chega a fazer bolha no pé.

E o colorido em redor? São uns tons de cinza e areia, que se misturam com umas cores gastas, desbotadas, de uma beleza que faz qualquer um sentir por perto a existência de uma força maior. Afinal, só mesmo Niemeyer poderia criar uma coisa assim, que nenhum deus sequer chegaria a imaginar.

Viver por aqui é um perigo a qualquer hora, mesmo de dia. A gente pode deixar a casa toda trancada, que não entra quase ninguém. Só não vêm os amigos, que aliás faltam por essas bandas. Mas o melhor de tudo, devo confessar, é poder tomar essa coca fresquinha, colhida no isopor, do lado da fábica.

Posted by Bruno Rabin at 05:25 PM | Comments (0)

May 12, 2007

A última vez a gente nunca lembra [repost]

O reencontro tinha sido agradável, apesar das mágoas. Depois veio a confusão do divóricio, as brigas, os primeiros três anos morando juntos, as noites aproveitadas em casa, em meio à mudança e às obras. Tudo melhorava, sem dúvida, mas ela não quis aceitar seu convite para a viagem de lua-de-mel. Sabia que depois viria o casamento, o noivado, aquele namoro interminável, o primeiro encontro. Com tanta felicidade, seria muito doloroso se desconhecerem por completo.

Posted by Bruno Rabin at 10:07 AM | Comments (2)

July 30, 2006

“Um suco de garagem”

Ir às compras pode ser educativo. O Nunes, por exemplo: vendedor profissional. Em sua triste vida, misturava as linguagens das tantas lojas e setores em que trabalhou. Da concessionária de automóveis, levou algumas frases para a loja de sucos:

— Olha, o senhor precisa provar esse suco de goiaba. Tá novinho, novinho. Ele nunca foi oferecido pra outra pessoa. A goiaba veio de frete de Petrópolis, chegou agorinha mesmo. O senhor deu sorte. Eu não tava nem querendo oferecer esse suco, pensei em ficar com ele pra mim, mas o senhor é gente boa e eu percebi que tava querendo um suco bom, de qualidade, um suco sem problema, um suco de garagem...

Coitado, às vezes escorregava e misturava tudo. Uma vez, logo após deixar aquela loja de roupas num shopping, foi parar numa Pet Shop:

— Esse gatinho tá lindo mesmo. Tá saindo muito. A senhora não quer experimentar um? Isso, coloque assim no colo.. Perfeito! Olha, ficou muito bem na senhora. Parece até que foi feito sob encomenda. Uma graça. A senhora fica realmente muito bem de gato.

Foi demitido, claro. Mais tarde, tendo passado um tempo numa churrascaria popular, arrumou um “bico” na livraria “cabeça” de um bairro nobre:

— Deixa comigo, patrão! Vou buscar essa Proust no original agorinha mesmo. Tô vendo que o senhor gosta de coisa boa. Mas se o senhor preferir, tem o novo do Dan Brown, que tá saindo muito. Não quer não? O pessoal tá gostando bastante. E tem uma edição colorida com desenho, hein! Uma beleza, chefia.

Mas o pior aconteceu em casa, com a esposa e os filhos. De tanto tratá-los como clientes, um dia, após uma tentativa frustrada de convencê-los a ficar em casa em vez de ir para o jantar de Natal na sogra, acabou ouvindo da mulher a seguinte resposta:

— Pode ser, vou pensar... Enquanto isso, eu vou dar uma voltinha, para pesquisar um pouco, mas já, já estou de volta...

Ela nunca mais apareceu.

Posted by Bruno Rabin at 07:34 PM | Comments (4)

January 19, 2006

Quando eu gostava de ler

Quando eu gostava de ler, faz uns dez ou onze anos, costumava perder muito tempo arrumando a posição perfeita para segurar o livro do jeito mais confortável. Tinha que ser algo entre o relaxamento completo e a rigidez absoluta do braço, num equilíbrio dificílimo. Uma espécie de não sentir. Ainda não me doíam tanto as costas, donde se infere que a leitura era possível. Hoje, nem pensar.

Foi nessa época que eu desenvolvi uma crença em minha capacidade intelectual-sensorial: comecei a perceber que poderia intuir o todo pela parte - sem teoria, puro empirismo.

Da primeira vez, após ter chegado à metade de um longo romance colombiano e sem conseguir ir adiante - menos pela qualidade do livro e mais pela crise lombar -, percebi que tinha entendido tudo. Aquele amor melancólico, aquela demora, aquela incompletude bastante: tudo. Não precisava gastar o antiinflamatório; eu tinha intuído o livro.

A descoberta desse poder foi uma libertação. Passei a exercitá-lo com animação. A cada semana, um meio livro. Cheguei a cursar uma faculdade inteira com livros lidos pela metade. Minto. Nem mesmo pela metade; de muitos livros me bastava a introdução ou a orelha. Os trabalhos acadêmicos, ao contrário do meu temor inicial, tinham notas tanto maiores quanto menos eu tivesse lido da bibliografia. Apenas intuindo o que os autores queriam dizer, eu poderia reinventar as idéias, caminhar em outra direção, fazer diferente. E agradar aos professores.

Com o tempo, essa minha capacidade chegou à sua mais perfeita forma: a intuição pelo título. Um trabalho inteiro sobre "Diferença e repetição" foi a chave dessa singeleza. A partir de então, o prazer da adivinhação pela não-leitura substituiu com sobra o tempo perdido no virar de cada página.

Passei a perceber que muitos livros lidos antes dessa descoberta ganhavam outro sentido quando intuídos apenas por seu título. Tive raiva de mim, do tempo perdido com tanta leitura, da incompreensão de tantos romances e contos, da impossibilidade de desler.

Aos poucos, a excitação deu lugar ao tédio. Com poucos minutos diante da vitrine de uma livraria, eu tinha material suficiente para horas sentado num café ou andando pela cidade. As conversas nas festas e reuniões de amigos deixaram de representar qualquer desafio. Alguém citava um livro, eu pensava uns instantes e sugeria uma teoria a respeito. Uma ou duas meninas ainda ficavam a me ouvir, encantadas; outros, de inveja, deixavam-me a falar quase sozinho.

Sozinho eu me bastava, mesmo entediado, mas resolvi tentar algo novo. Certo dia, após ler um título de um conto num caderno literário, resolvi me arriscar a escrever um texto. Não um texto sobre o conto, mas o próprio conto, à minha maneira. Gostei tanto do resultado, que resolvi publicá-lo. A vontade durou pouco: que editor manteria o nome homônimo do meu conto? Mudá-lo não faria sentido.

Foi quando me veio a idéia de usar um blog para a experiência. Criei-o com um nome apropriado ao meu projeto; afinal, era de farsa que se tratava. Publiquei o conto e esperei. Poucos dias depois, a surpresa: dois elogios na caixa de comentários. Eram outros blogueiros, que tinham descoberto minha página por acaso e resolveram deixar um recado. Que prazer naquilo: novamente eu tinha motivação para exercitar meu dom.

Do primeiro ao centésimo post, passaram-se apenas uns poucos meses. Links para outros blogs aumentaram o número de leitores e de comentários. Eu mesmo passei a visitar os novos amigos virtuais, deixando recados que disfarçavam um convite para minha própria página. As visitas aumentavam em uma velocidade espantosa. Cada conto continuava sendo a intuição do texto de alguém. E quanto mais leitores eu tinha, mais eu queria escrever.

Tudo andou bem até o mês passado. Motivado pelo lançamento de uma coletânea de posts de um "vizinho", fui à livraria no centro da cidade para conhecer aquelas pessoas, escondendo-me como um passante. Ouvi muitas conversas, entre uma taça de vinho e um canapé, até ser surpreendido pela citação de um nome - meu nome virtual. Entre gargalhadas, o rapaz contava sobre sua estratégia de nunca ler meus textos até o final, escrever um comentário e receber minha resposta empolgada. Ria de como me enganava.

Desde então, suspendi os posts. Pensei em escrever sobre tudo: um conto, uma crônica, uma frase. Mas não havia título a copiar. Tive então a idéia desta confissão, imaginando que a originalidade biográfica talvez me salvasse. Nem isso.

Durante algum tempo, a escrita ainda era possível. Hoje, nem pensar.

Posted by Bruno Rabin at 08:37 AM | Comments (5)

November 24, 2005

Um olhar

[Um contículo repostado, para não deixar isso aqui vazio.]

Pela última vez, uma única vez, ela o esperaria. Estava sem maquiagem e sem salto alto, sentada de pernas descruzadas em uma cadeira desconfortável. Sobre a mesa, o café inutil.

Um minuto, uma hora, uma vida, uma vida e meia. Um café frio, um copo d'água. Desistiria, não fazia sentido esperar, e um olhar estranho a perturbava. Mas qualquer gesto seria uma denúncia: descontrole, desequilíbrio. Não esperaria mais, bastava que o olhar a deixasse ali, naturalmente sentada, contemplando a passagem de tudo, como quem sabe o que faz. Mas o olhar a fazia vitrine, mais exposta que nunca.

A decisão veio aos poucos, querendo escapar-se, desejosa de certeza. Seu corpo não atendeu à solicitação de movimento, ou atendeu, lentamente, dando notícia da indecisão, e — pior — voltando à cadeira, voltando à vitrine. Não era a primeira vez que isso acontecia, assim, na frente de todos.

Sempre que estava à espera se sentia assim. Mais de uma vez procurou a síntese entre o desejo e a ação. Não entendia a imobilidade, e não entendendo não tinha desejo o bastante para vencê-la. No último instante, a decisão parecia perder sentido, apagando-se em um quase desmaio. O corpo pendia, o olhar a retinha, o ímpeto esmorecia. Mas era preciso não esperar. Disso ela estava certa. Ou quase. Ou quase nada. Não, nem disso estava certa: o olhar a estava deixando.

O olhar a deixou. Agora que estava sozinha, a força se fazia ainda menor. Agora que poderia, não desejava. Sentada na cadeira ordinária, o café sobre a mesa, o copo d'água. Imóvel. O corpo todo desconfortável, uma impossibilidade. O olhar a deixou. Ela deixou de existir. (Por fim chegaram as roupas da nova coleção.)

Posted by Bruno Rabin at 07:33 PM | Comments (2)

November 04, 2005

O dia em que aquele escritor deixou de ser assunto

Era uma terça-feira chuvosa. Fosse um sábado e ninguém acreditaria na história. Literatura de esquerda sempre defende os marginalizados, inclusive os dias da semana. Bem, era uma terça-feira chuvosa.

O homem de chapéu atravessou a rua apressado para fugir da água fina, a mão direita segurando a aba levemente entortada, os ombros encolhidos como se protegessem o corpo, os sapatos gastos pulando as poças, e não se mais quantas coisas fazendo sei lá o quê, como manda o figurino da descrição charmosa — o leitor que se vire, que descrição depende dele mesmo: se tiver imaginação, verá coisas mais interessantes; se não tiver, não merece ver nada mesmo.

Pouco importa. Chegando ao outro lado da rua, o homem de chapéu — cujo nome hesitei em atribuir, ficando entre dois clichês: o nome-que-diz-alguma-coisa e o sem-nome-que-significa-qualquer-coisa (vence sempre o mais fácil na literatura blogueira) — fez sinal para o táxi. Ninguém pergunte por que ele teve que atravessar a rua para pegar o carro, posto que poderia ter começado sua história já do outro lado, mas é que nessa literatura modernete, tem que haver alguma coisa sem muito sentido narrativo, algo que pareça um indício do que vem depois e que, no entanto, evapore no meio da história.

No táxi, pediu que o motorista fosse para o Centro. Sobre o Centro, nada a declarar, e não declarar nada vem bem ao caso dessa tentativa de falar muito e dizer pouco, como convém ao talentoso e chato homenageado do post, que menos se assemelharia em estilo a este fraseado, tão menor fosse o período ou tão mais direta fosse sua ordem sintática, que na maneira lusitana de contar as coisas, melhor é que se faça logo a explicação de tudo muito direitinho, amarrando o fio das coisas às coisas que já se vão enlaçar adiante, prendendo o leitor pelo fôlego, porque embora muita gente desista da frase comprida e entortada, há sempre os que não conseguem deixar de ler uma coisa até o fim e, quando percebem, não podem mais deitar o livro sobre a mesinha de cabeceira, mas vamos deixando essa conversa de lado, porque nem de livro se trata.

No meio do caminho, o homem decidiu fazer uma ligação, para economizar o tempo de adiante. “Dona Marlene”, falou, “a senhora me faça um favor. Estou a caminho da reunião e não terei tempo de comprar o presente do sobrinho que faz aniversário hoje.” “Pois não, doutor”, prontificou-se a secretária. “O menino gosta de ler, pensei em dar de presente esse último livro do..., do..., meu Deus, do...” “Sim, doutor, pode falar.” Mas o homem de chapéu não conseguia falar o nome do tal autor. “Olhe, dona Marlene, é aquele que escreveu o livro da cegueira, um em que de repente todos vão ficando cegos.” “Sim, acho que sei...” respondeu pausadamente a secretária, tentando se lembrar também do nome do autor. “Ele agora acabou de lançar um outro,” acrescentou o homem, “é a história duma cidade onde as pessoas param de morrer.” “Eu sei, eu sei,” responde num ímpeto a moça, retornando logo em seguida à hesitação de antes, “é o..., o...” E nada. Ficaram o caminho todo a puxar da memória o nome do tal escritor, prêmio Nobel, orgulho do país, e nada. Nenhuma letra, nem o som, nada surgiu para lhes dar um alento que fosse.

Esse pequeno episódio logo deu ares de mudança geral — e aqui começaria a parte enorme que distingue um conto ou romance de um post: a parte em que essa pequena dificuldade de lembrar o nome do escritor vai aparecendo em todos os lugares, seu nome vai sumindo das capas dos livros, das páginas de jornais, os livreiros espantados, sem saber por quê, também não conseguem se lembrar dele. E isso acontece de tal maneira, que em pouco tempo ninguém se lembra do nome do escritor na cidade. Tudo isso deveria estar em detalhes se não se tratasse de um post, mas a Internet nos torna muito preguiçosos, e pulamos tudo quase tudo que seja o caminho da idéia mesma.

Enfim, de tanto tentar lembrar o nome do autor, todos foram deixando o esforço de lado. Aos poucos, as desistências acumuladas já não incomodavam ninguém. Em pouco tempo, o escritor tinha sido esquecido. Ninguém se lembrava dele, e isso não fazia diferença, porque ninguém queria se lembrar dele mesmo.

Estivesse morto, o escritor esquecido seria apenas um escritor esquecido, como tantos que há por aí, coitados — embora nenhum tão importante, prêmio isso, prêmio aquilo, comentador de política e de humanidade. Mas o escritor estava vivíssimo. No intervalo em que passou ao esquecimento em sua cidade, ele estava de viagem ao país-irmão, onde costumava ir se meter, fazendo charme com o jeito ranzinza de dar um pitaco sobre qualquer coisa.

De volta a seu país, estranhou a ausência de assédio das gentes no aeroporto, assim como estranhou a indiferença do taxista, e o silêncio do guarda, e o do porteiro. Chegado à casa, não foi reconhecido pela empregada de tantos anos, que insistiu em chamar a polícia, não vendo como afastar aquele senhor inoportuno. Como pensasse estar ela em meio a uma espécie de alucinação, o escritor esquecido desistiu. E se encaminhou à livraria do outro quarteirão, onde talvez pudesse comprar um livro seu para mostrar à empregada, qualquer coisa que recuperasse a memória da infeliz.

Mas ali a nova surpresa: nenhum livro, nenhum exemplar sequer de qualquer uma de suas obras. Tentou perguntar ao vendedor se havida algum livro seu. O rapaz se riu, perguntando quem era, que livro havia escrito. Mas o escritor esquecido não conseguiu lembrar o próprio nome. “Eu sou o..., o...,” gaguejou. Puxou a carteira, a identidade e... nada. Nenhum nome, nenhuma letra sequer.

Atordoado, o autor desconhecido saiu correndo da livraria, diante do olhar quase interessado do vendedor — e o “quase” aqui é o charme, repararam? —, parou numa esquina, sem conseguir atinar o que sucedia. Não achou nenhuma pista, nenhum indício do que fosse. Uma brincadeira dos amigos não iria tão longe, uma alucinação pessoal não daria tanta certeza da lucidez.

Resolveu voltar ao que havia sido seu lar, tentar uma segunda vez. Tocou a campainha, mas nenhum sinal se fez. Bateu à porta, mas nenhum barulho se ouviu. Insistiu, e nada. Desistiu e voltou à rua. Foi quando teve a pior surpresa: passando em frente a uma vitrine que refletia as pessoas passando, não viu a própria imagem. Ainda tentou se aproximar, passar ao lado, mudando de ângulo, mas continuava sem se ver. Quis pedir ajuda a um passante, mas ninguém o ouvia, pois de sua boca não saía som algum.

Muitas tentativas depois, o escritor esquecido desistiu. Logo ele, que tanto falava, que tanto tinha opinião a dar sobre tudo e sobre todos, tão cheio de coisas a dizer, não era mais visto ou ouvido por ninguém. Ficou ali parado, sentado no chão, à espera de alguma coisa. Talvez Deus, mas ele era ateu, e isso seria pior que o esquecimento. Algum tempo se passou, não muito, e o problema cessou de existir. Não que as pessoas tivessem se lembrado de quem ele era; é que ele próprio acabou por esquecer-se.

Posted by Bruno Rabin at 06:25 AM | Comments (17)

September 30, 2005

No almoxarifado, ninguém sabe

No almoxarifado, ninguém sabe, há uma pequena janela cuja fresta deixa passar um solzinho quente entre nove e dez e meia da manhã, e é ali que eu passo essa hora e meia, o rosto virado pra cima, o corpo mal apoiado na mesinha com tampo de fórmica, fria que só ela, esperando uma coisa meio paradoxal do tempo, que ele passe depressa e que não acabe nunca, porque me aflige estar escondido, mas também me aflige saber que o resto do dia não trará sol, não trará quase nenhuma luz, nem trará o silêncio do almoxarifado, com o cheiro de limpeza, detergente, desinfetante, água sanitária, cera, limpa-vidros, álcool, essas coisas de embalagens coloridas, poluição visual feita para limpar, vejam só, nada disso ocupará meu dia, nem mesmo a lembrança de que fora dali, nas salas, nas mesas, nos computadores, ninguém imagina esse sol, ninguém imagina esse tempo roubado, nem essa posição estúpida, o corpo mal ajeitado, o rosto entortado, como cachorro à espera do carinho, entre nove e dez e meia da manhã, ninguém sabe, no almoxarifado.

Posted by Bruno Rabin at 09:38 PM | Comments (4)

September 05, 2005

I'm a looser, indeed

Ser um perdedor tem suas vantagens. Ter um post pronto, por exemplo. É o seguinte: inscrevi um conto num concurso do Caderno Prosa&Verso, do jornal O Globo. No sábado saiu a lista dos dez finalistas, entre os quais não se encontrava o meu. Além da limitação do tema — a memória do Rio —, era preciso escrever em menos de 5500 caracteres. Se tiverem paciência, cliquem no link a seguir para ler o original. Se tiverem mais paciência ainda, deixem um recadinho elogioso a mim e agressivo a esses jornalistas tacanhos que fazem pseudo-crítica em caderno cultural e não sabem reconhecer um verdadeiro talento. Se preferirem, digam a verdade. Enfim,

Sorriso de Bronze

Se pudesse, abandonaria tudo. Do pouco que aprendi nestes anos, quase nada escapa à minha própria indiferença, não bastasse a dos outros. Aquilo se tinha tornado uma rotina. Consultas a livros, estudos de terreno, preparação de estratégias e mais um ataque. Para quê? Nenhuma notícia, nenhuma nota, nenhum ai. Mas eu não poderia parar.

Lembro-me da primeira vez.

Sempre amara Machado de Assis. Abundante, eu sabia, sem ligar muito. Menor fosse minha fixação, menor teria sido o impacto daquele dia, diante daquele texto. Nada de espantoso para um homem público, não fosse o tema: uma homenagem — ainda hoje me custa dizê-lo —, uma homenagem a José de Alencar. Li-a pulando frases, sem entender como aquelas palavras puderam ser ditas impunemente. Eram poucas linhas; eram linhas de mais. Cheguei a ponderar que não se esperaria menos de um discurso pela inauguração de uma estátua. Mas eu tinha menos de vinte anos e só enxergava impropriedades.

“Creio que jamais o espetáculo da morte me fez tão singular impressão,” dizia Machado a respeito de Alencar. “Quem o lê agora não tem idéia da fecundidade extraordinária que revelou tão depressa entrou na vida.” Cretinice. “Nenhum escritor teve em mais alto grau a alma brasileira.” Cretino, pensei novamente. Como teve coragem? Li tudo outra vez, procurando em cada frase a entrelinha cínica, uma ironia que fosse. Nada, nenhum sinal. Apenas um elogio; e, no entanto, uma mentira deslavada. Tive — por que não dizer tudo? —, tive nojo.

Mal devolvi o volume ao mofo da prateleira, mergulhei em livros sobre Machado. Queria entender aquilo tudo. Em menos de uma hora, tive vertigem. O estômago vazio fez ainda mais forte o enjôo que sentia diante das páginas amareladas. Meu desprezo por Alencar foi-se transformando em aversão a Machado. A mesma hipocrisia que ele denunciara estava ali sob meus olhos. Datas, locais, acontecimentos — uma vida mensurada em biografia, uma vida que se ausentava da obra. Era preciso fazer alguma coisa. Eu era jovem e exigia coerência de todos; sobretudo, exigia-a de mim. Tinha escolhido estudar História por amor à verdade. Encontrei a pior mentira. Era preciso fazer alguma coisa.

Saí da biblioteca desconsolado. Tomei um ônibus para casa. Saltei na Senador Vergueiro e caminhei em direção ao Catete, decidido a parar no Lamas. O conhaque, sorvi-o de um gole. Em frente ao caixa, o susto: “Fundado em 1874” — a placa! Eu havia esquecido. Despido do que ainda restava de sobriedade em mim, saí. Mas não me refiz de nada: estava diante da estátua de Alencar, ao lado do Café, como Machado o chamava. Senti-me ainda mais ultrajado e tive uma idéia ruim. Não hesitei: eu me vingaria, e vingaria a todos.

Já passava das dez, e a praça começava a ficar vazia. Pensei em ir ao número 18 da rua Cosme Velho, tomado pelo ódio do marido traído. Mas eu era um marido viúvo; e aquela casa já não existia mais. Tive outra idéia. Resolvi procurar um amigo antigo, a quem reputavam a pior fama. Às batidas insistentes, abriu-me a porta assustado. Há tanto tempo! E àquela hora! Fui seco. Sem entender por quê, trouxe-me o que lhe pedi. Agradeci e desci correndo as escadas, sua voz ecoando pelo vão.

Resolvi caminhar até meu alvo, dando mais tempo ao silêncio da noite. Quem me visse, diria estar diante do próprio assassino da velha usurária de Petersburgo. Riria de mim se soubesse que em minha mente um crime tão menor se tramava. No entanto, a cada passo, em vez de me dissuadir da idéia, mais meu ódio justificava a decisão. Pensava em como todos se chocariam com aquilo; pensava nas matérias de jornal; pensava, enfim, em como ajudaria a cidade a desiludir-se de um homem que se orgulhava de só ter tirado os pés dela uma única vez. Gago, epilético — nada me dava pena. Cretino.

Estava decidido. Não podendo ir à sua casa, iria ao seu lar, naquele prédio antigo do centro, em cuja escadaria repousava a estátua solene. Chegando à Academia, certifiquei-me de que ninguém me visse e, em pouco mais de um minuto, com o spray emprestado, escrevi duas palavras no trono em que repousava a imagem em bronze: “Mentiroso.” “Cretino.” Saí correndo antes que me pusesse a perigo. Fui para casa.

Mal consegui dormir. Sentia medo e prazer. Estava tonto e acho que cheguei a delirar. Assim que amanheceu, saí à rua em busca do primeiro jornal, demorando a perceber que não houvera tempo para a notícia. Vaguei pela cidade por algumas horas, mas só me restava aguardar.

No dia seguinte, nenhuma notícia, nenhuma nota, nenhum ai. Tive raiva de todos: maior o silêncio, mais eu sofria. Ao cair a noite, voltei a agir. Correndo maior risco, escolhi a estátua de José de Alencar. Mais uma vez, a eloqüência trágica da indiferença.

***

Não descansei desde então. Percorri todos os volumes e praças da cidade à procura de biografias e estátuas. Tornei-me um especialista na memória do Rio — só para poder aviltá-la. Escrevi tratados e romances históricos. Há alguns anos, acabei por ser eleito para a Academia, estimulado por amigos que nem desconfiam de minha obra secreta. Ainda tentei provocar o assunto, condenando em artigo de jornal a delinqüência vazia da pichação. Um leitor concordou comigo, e só.

Se pudesse, abandonaria tudo. Não posso: estou doente, e a morte não tarda. Por isso, escrevo este testemunho, para me salvar da ameaça que me ronda silenciosa: a de me transformarem em estátua, portando o sorriso amargo da ironia de bronze.

Posted by Bruno Rabin at 10:41 PM | Comments (10)

August 13, 2005

Contos Sensoriais (IV)

Desde muito novo, Augusto percebeu que era diferente: nasceu com um problema de paladar; uma espécie de persistência retiniana só que com o gosto das coisas, e muito mais duradoura. O pedaço de pão levado à boca, ainda quente, mantinha-se com igual intensidade quando um gole de leite era sorvido e incorporado ao paladar, já à espera de uma fatia de queijo, de outro pedaço de pão e de tudo que viesse. Sua mãe não entendia por que Augusto recusava o gomo de laranja no café-da-manhã ou a goiabada após o prato de feijão. Ele já sabia que os melhores sabores só se misturam como lixo e começou a ter aversão a comidas novas.

Com o tempo, Augusto parecia ter-se adaptado. Fazia longos intervalos entre as refeições, evitava misturas radicais e, definitivamente, recusava tudo que lembrasse cozinha contemporânea. Mas os cuidados mostraram-se inúteis. Semana após semana, a densidade gustativa aumentava, prolongando-se por horas e horas, até atingir um ponto sem retorno: acordar com a sensação do café-da-manhã do dia anterior.

Um alentou o consolou por alguns meses: Augusto passou a adorar resfriados. Quanto mais congestionado estivesse, menos gosto sentia. Chegou ao ponto de inverter as ordens maternas: ia para a rua sem agasalho, tomava sereno e andava descalço na cozinha. Nessas ocasiões, Augusto aproveitava para comer de tudo, misturar quente e frio, salgado e doce, deliciar-se com jiló e limonada suíça. Comia tanto e tão bem, que logo curava a gripe, voltando à insuportável saúde de sempre.

Todo esse sofrimento, porém, parecia ter acabado quando Augusto viveu seu primeiro amor e aprendeu a beijar. Antes de acabar o gosto do beijo anterior, vinha o próximo. E depois outros e tantos, num acúmulo de sensações que ninguém deve ter experimentado em lugar algum. Se já não gostava muito de comer, Augusto reduziu suas refeições ao indispensável, tão apaixonado que estava pela menina da turma.

E de tão apaixonado, decidiu contar à namorada sua história. Arrependeu-se como nunca: ela ficou assustada ao imaginar que cada beijo seu se misturava a um prato de salada ou a uma xícara de chá. Teve nojo e preferiu afastar-se dele. Antes de ir embora, prometeu-lhe um último beijo, contra a vontade, mas em respeito às lágrimas de Augusto. Foi um beijo delicioso, um último beijo, um beijo para Augusto guardar para sempre em seu paladar. Foi o que ele fez. Nunca mais colocou nada na boca e resistiu alguns dias. Nada mais.

[Outros contos sensoriais estão aqui, aqui e aqui também.]

Posted by Bruno Rabin at 12:16 PM | Comments (5)

June 25, 2005

Nelson e as gotas de chuva [repost]

O trânsito estava lento. Era uma quinta-feira chuvosa e escura, lá pelas cinco da tarde. Nelson teve uma idéia. Colocou o rádio na estação que tocava música clássica e pôs-se a contemplar os pingos de chuva que caíam sobre o pára-brisa do carro, refletindo as cores das lanternas dos outros automóveis. Parecia que eles acompanhavam a melodia. Lindo, lindo, pensou. Aquilo tudo o sensibilizou demais. Nelson teve outra idéia. Estacionou o carro em um refugo à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, desligou o limpador e contemplou o infinito através do vidro do carro. A imagem dinâmica dos pingos coloridos ganhou uma imprecisão de contornos que acentuou a sensação bonita daquele momento. A música suave o envolveu por completo. Nelson começou a chorar.

Por que chorava Nelson naquele fim de tarde cinzento à beira da Lagoa? Será difícil dizê-lo. Não que ele tivesse tantas angústias e inquietações, que qualquer palavra fosse incapaz de dizer seu sentimento intenso. Nada disso. Na verdade, Nelson era o típico representante da mediocridade mundana. Não refletia muito, nem tinha grandes problemas existenciais. Se chorava, era por um motivo muito mais banal. Por que, então, a dificuldade em dizê-lo? Ora, porque o narrador fica constrangido em contar que Nelson chorava apenas pela beleza do choro. Não entendia nada de música clássica. Para ele, tratava-se apenas de trilha sonora. O colorido da chuva era seu cenário; o choro, seu enredo. Faltava-lhe argumento.

Desde pequeno, Nelson se sentia pertencente a uma espécie intermediária de homem. Não era um idiota, a quem coubesse estudar na véspera da prova, passar na reclassificação para uma faculdade particular e fazer planilhas pensando nas férias. Mas também não era uma inteligência à mostra, capaz de perceber com agudeza a realidade, identificar referências nos filmes ou escrever uma frase de efeito. Vivia no pior dos mundos. Admirava as profundidades, mas só podia contemplá-las da superfície. Queria mergulhar, mas se afogava a cada tentativa. A essa altura, o leitor deve imaginar que essa limitação consciente fazia de Nelson uma pessoa infeliz. Engana-se. A infelicidade seria demais para ele. Nelson não a alcançava.

Seus amigos e familiares dividiam-se entre os idiotas e os sensíveis. Os primeiros achavam Nelson idiota. Os outros não achavam nada. Algumas vezes, alcançou dos amigos inteligentes — na verdade, ex-colegas, que o convidavam ao cinema por falta de companhia — uma atenção momentânea. Num jantar ou numa festa de aniversário, formavam-se rodas de conversa. Nelson acompanhava todos os movimentos com dedicação concentrada. A cada lance, cada frase dita por um amigo, voltava a Nelson aquela sensação de sempre: a de que quase pensou o mesmo com alguns segundos de atraso. Era sempre assim; alguém sempre se antecipava a ele. Melhor que fosse dessa maneira, porque, nas poucas vezes em que deu um passo à frente, arrependeu-se mortalmente:

— Mas isso não é nada. Tem um livro...

De repente, todos o olhavam. E Nelson ia murchando, murchando, baixando a voz, até quase desistir de falar. Uma vez ou outra, um amigo mais próximo ainda tentou salvá-lo, elogiando seu comentário. Era uma concessão, e Nelson sabia disso.

Na verdade, Nelson tinha a impressão de que algo muito profundo, complexo e agudo se retorcia dentro dele. Era como uma intuição que, de tão singular, se fazia inefável. Para ele, era só ter um pouco mais de concentração e disciplina que as coisas se arrumariam. Achava que lhe faltava apenas confiança. Nelson se enganava. Faltava-lhe talento. E, à falta dele, sobrava-lhe vontade. Nunca, porém, a vontade superou o talento, mas isso Nelson não era capaz de perceber.

Naquela tarde escura, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, Nelson quis sentir alguma coisa. A música o sensibilizou; o colorido informe dos pingos no vidro também. Algumas lágrimas correram seu rosto, e ele viu nisso uma bela analogia com as gotas da chuva. Poderia ter pensado que aquela água insistente e abundante representava a fluência que ele não tinha. Poderia, em vez disso, imaginar que aquela cena bela e vazia era uma metonímia para sua própria vida. Mas Nelson não pensava nada disso. Intuia algo grandioso, belo e comovente, mas não sabia bem o que era. Suas lágrimas cessaram logo, a chuva também, e a música deu lugar à publicidade. Nelson ainda tentou mudar de estação e olhar na direção de uma paisagem bonita, mas o sentimento o havia deixado novamente.

Posted by Bruno Rabin at 02:07 PM | Comments (8)

June 12, 2005

A lista das listas

Se você pudesse ser uma lista, qual seria?
Eu seria uma bela e completa lista de compras, dessas em que se colocam pães, queijos, pastas, livros, discos e algumas mulheres, sem se olhar a preços.

Que lista você levaria para uma ilha deserta?
A Lista de Schindler. Não dando sono, duraria tempo suficiente para pensar em outras listas.

Qual é sua lista inesquecível?
Poderia listar uma infinidade de listas, mas fico com esta.

A quem repassa esta lista e por quê?
Ao Jorge Luís, porque sua lista teria um rei desencontrado, um animal inumerável e um símbolo atópico, além de algumas listas de listas, todas dentro de uma enorme lista, em que esta lista estaria incluída, ainda que a incluísse também. Mas deixa pra lá...

Posted by Bruno Rabin at 01:00 PM | Comments (4)

June 11, 2005

Contos de Namorados (I)

Dia dos namorados é uma data muito comercial. O pessoal das lojas aproveita e mete a mão mesmo. Um absurdo!, arrematou, antes de passar o cartão para comprar uma namorada novinha em folha.

Posted by Bruno Rabin at 07:31 PM | Comments (0)

May 31, 2005

O paradoxo de Edgar

Para D.B.

Edgar é dessas pessoas que gostam das pessoas. Gostam, admiram, idolatram. E as pessoas de que Edgar mais gosta são as pessoas que não gostam de quase nada. Como Edgar gosta dessas pessoas! Quanto mais um amigo fala mal de um filme, de um livro, de um governo, mais Edgar admira o amigo. Alguns conhecidos de Edgar são quase profissionais na arte do não-gostar. Um é crítico de arte; outro, professor de comunicação; o mais admirado, blogueiro paulista. Edgar não perde uma frase dos conhecidos, invejando não gostar do mesmo jeito. Principalmente, invejando não gostar de tantas coisas.

De uns tempos pra cá, Edgar resolveu não gostar também. Como era um gostador contumaz, teve de controlar sua vocação para o aplauso. Mas nenhuma disciplina parecia suficiente. Quando ia ao cinema, Edgar passava duas horas sofridas, olhando a defeitos em tudo: atores, enredo, poltrona, preço, o que fosse. Nada o demovia da sensação de que tinha valido a pena, e as horas não foram perdidas. Por aí não via um caminho.

Por isso, mudou de estratégia: já que não conseguia odiar ao vivo, Edgar resolveu odiar por escrito. Disseram-lhe que era mais eficaz, que a pessoa mais doce poderia se transformar num filósofo de jornal, só de colocar as mãos num teclado. Foi em vão: o primo de Edgar — homem rancorosíssimo, em quem nosso herói se espelhava acima de tudo — riu-se do primeiro artigo, achando-o de uma simpatia rara. “Mas, e os xingamentos?!”, espantou-se Edgar. “Engraçadíssimos”, respondeu-lhe o primo.

Quem via o esforço de Edgar e sua infelicidade crescente, tentava dissuadi-lo da empreitada, dizendo que ser odioso não era algo invejável. “Seja você mesmo”, diziam-lhe. Edgar ria dos conselhos dos amigos, que lhe lembravam outros ódios já lidos. Mas seu riso não era irônico, e os conselhos acabavam sendo ouvidos. Um dia, refletindo sobre seu gostar infinito, pensando bastante sobre sua admiração pelos não-gostadores, pensou que só gostava de quem não gostava de nada. Juntando isso com a evidência de que não conseguia odiar, Edgar montou um silogismo perverso. Até hoje não se recuperou da constatação.

Posted by Bruno Rabin at 10:39 PM | Comments (4)

May 13, 2005

Giuseppe, coitado

Giuseppe dizia gostar de escrever. Por isso, coitado, foi aconselhado a estudar letras, mal sabendo que no curso de letras aprende-se a saber como se gosta de um texto e, assim, a gostar menos de textos. Com o tempo, Giuseppe passou a odiar certos autores. Dizem que chegou a queimar uma coleção inteira de Machado, a quem só chamava assim, com esse desprezo cheio de intimidade.

É claro que Giuseppe continuava escrevendo, mas preferia sempre curvas a retas, quando de retas se tratava, e retas a curvas, quando o contrário. Esse Giuseppe — que safado! — escrevia contos entortados, mas nem assim fazia bem feito. Uma vez resolveu perveter a narrativa, escrevendo um texto sem narrador: coitado, já tinham inventado o teatro. Depois, deu de fragmentar o discurso e descentrar o sujeito, mas isso virou tabu entre seus amigos, já que ninguém leu o livro até o fim. Giuseppe interpretou a atitude como prova de qualidade.

Esse Giuseppe! Certo dia, numa entrevista para o jornal da faculdade — a glória tarda, mas chega —, disse que sentia vergonha de ter dito que gostava de escrever. “Escrever não é questão de gosto; é necessidade”, disse na frase que seria manchete do tablóide. Que safado, o Giuseppe, já sabia até lidar com a mídia. Para ele, escrever era “um sofrimento e uma urgência transformadora” (ou “uma transformação e um sofrimento urgente”, whatever). O garoto que o entrevistava fez “sim” com a cabeça, pois, como qualquer estudante de jornalismo, tinha menos vocação que incompetência.

Com o tempo, Giuseppe foi perdendo o dom da inventividade e só conseguia escrever histórias completas, algumas lembranças da infância em Bom Jesus, duas ou três anedotas juvenis. Giuseppe passou a ter raiva de si mesmo; amassava os textos com fúria e os atirava num canto da sala. Sentia estar perdendo aquela força expressiva; não conseguia nem mesmo escrever uma crônica sobre a falta de assunto. Giuseppe decaía.

Ao contrário das estórias que escrevia (sempre com essa grafia, que ele julgava ter inventado), a história de Giuseppe teve um fim. Cansado de tanto tentar ser original escrevendo, teve uma última idéia. Às oito da manhã de uma terça-feira, quando a cidade se movimentava para o trabalho, Giuseppe atirou-se do décimo andar, atrapalhando o trânsito. No bilhete de despedida, poucas palavras: “Nada de mais, apenas um pouco de ar fresco.” Coitado de Giuseppe, achou que estava criando o suicídio vazio.

Nem esse episódio reabilitou o que Giuseppe escrevera. Uma amiga mais próxima que o achava “fofo” tentou ajudar, publicando suas obras completas na internet. O blog póstumo ainda está por aí, com meia dúzia de leitores. Um xingamento sem sentido de um garoto de quinze anos ficou como último comentário. Ninguém percebeu, mas esses palavrões diziam muita coisa sobre Giuseppe e sua obra.

Posted by Bruno Rabin at 06:08 AM | Comments (15)

May 10, 2005

Conto Literal (I)

Saúde era uma menina muito triste e sozinha, porque os pais de seus coleguinhas sempre diziam: “Com Saúde não se brinca.”

Posted by Bruno Rabin at 06:19 PM | Comments (11)

May 06, 2005

Eu faço vídeo

Ninguém acreditava no Armandinho. Sonhava virar intelectual, mas não demorou a perceber que usar óculos era insuficiente. Como era meio preguiçoso, não lia, nem assistia às aulas. Em vez de desistir da idéia, Armandinho a aumentava, imaginando que, além da inteligência, gostaria de ter dinheiro e reconhecimento. Os amigos se riam dele; o pai dava uma mesada silenciosamente triste.

A limitação de Armandinho foi sua salvação. Ouviu uma música daqueles que julgava gênios e não entendeu a ironia. Pegou uma câmera, foi a um shopping da cidade e colheu depoimentos sobre a sensação de ficar ali durante horas comprando. Hoje, todo mundo engole em seco quando pensa no seu sucesso: Armandinho é documentarista do GNT.

Posted by Bruno Rabin at 05:52 AM | Comments (8)

May 03, 2005

A última vez a gente nunca lembra

O reencontro tinha sido agradável, apesar das mágoas. Depois veio a confusão do divóricio, as brigas, os primeiros três anos morando juntos, as noites aproveitadas em casa, em meio à mudança e às obras. Tudo melhorava, sem dúvida, mas ela não quis aceitar seu convite para a viagem de lua-de-mel. Sabia que depois viria o casamento, o noivado, aquele namoro interminável, o primeiro encontro. Com tanta felicidade, seria muito doloroso se desconhecerem por completo.

Posted by Bruno Rabin at 06:48 PM | Comments (11)

April 26, 2005

Heróis de verdade (I)

Arnaldo pensou em desistir. Afinal, eram só cinqüenta pratas. Fazer falta, fariam, mas tem coisas que é melhor esquecer. Chegou a decidir deixar tudo de lado e resolveu tomar um banho do tipo mudando-de-assunto. Mal sabia Arnaldo que os banhos têm outra vocação: sob o chuveiro, alguns se acham sedutores; outros acabam se achando cantores. Arnaldo se achou alguém — e não hesitou: precisava lutar pelo que era seu.

Ainda de toalha, empunhou o telefone e discou. Digitou dois. Esperou. Digitou quatro. Nova espera. Digitou quatro novamente. A ligação caiu; ele sabia que deveria esperar a instrução completa. Repetiu a ligação. Estava tão sereno, que nem se importou com a demora habitual, até que finalmente foi atendido. Assim que a funcionária perguntou o que desejava, começou seu discurso. Arnaldo falou sobre como havia sido seu dia, o que fazia no trabalho, a que horas chegava em casa, como lidava com o dinheiro, a economia para pagar dívidas antigas, o medo de faltar alguma coisa para as crianças, o quanto gostava de não se preocupar com serviços pagos, a importância de conversar para resolver as coisas, a demora da Justiça, a chatice da Justiça e dos advogados, a vontade de que o mundo dependesse menos de regras e mais do bom senso, a lentidão burocrática, a previsibilidade do discurso pronto dos atendentes de telemarketing, o quanto era importante o homem ser comandado por sua consciência, a anulação do desejo no mundo comercial, os bons tempos em que tudo se resolvia com boa conversa, a crise de valores no mundo contemporâneo, o medo de perder tudo, um poema do Drummond que fala dessas coisas, o cansaço de tudo, a vontade de desistir, o banho encorajador, o telefonema inútil mais uma vez, como precisamos resistir apesar de tudo, um post que leu no Farsante sobre o “prefiro não fazer” do Bartleby, umas coisas estranhas que sentia quando ficava muito tempo ao telefone, esse hábito de responder sem dizer nada, os monólogos, o quanto o teatro sempre lhe parecera insuportável, a mania dos atores de acharem interessantes, a última peça boa a que havia assistido há uns cinco ou seis anos, o gosto pelo cinema, o desgosto pelas salas de cinema cheias de gente, o preço absurdo das entradas, o dinheiro que vai embora sem a gente perceber, as contas no fim do mês, as companhias telefônicas que fazem cobranças indevidas, a dificuldade de provar isso, a conversa mole dos atendentes, o direito de receber de volta seus cinqüenta reais.

Foram duas horas de conversa. “Entendo, senhor Arnaldo,” disse ela ao final. Mas antes que pudesse explicar alguma coisa, veio o corte. Arnaldo ficou sem seu dinheiro, mas ganhou o dia.

Posted by Bruno Rabin at 08:21 PM | Comments (4)

April 19, 2005

Contos Sensoriais (III)

A sensação do corpo sujo fazia Vladimir lavar suas mãos a cada meia hora. Banhos, meia dúzia por dia, cada um durando seus quarenta minutos. Havia alívio no contato com água, mas era pouco.

Convencido pelos amigos, Vladimir procurou um psicanalista. Fez algumas sessões, ponderou bastante e acabou abandonando a experiência. Havia chegado à conclusão inevitável: dois sabonetes por dia custavam menos que o atendimento.

No fundo, é sempre uma questão de saldo.

Posted by Bruno Rabin at 05:51 AM | Comments (6)

March 13, 2005

Contos Sensoriais (II)

Havia um retrato na parede do quarto de Isabel. Era o retrato de uma velha — ela me contou —, uma fotografia esquecida pelo antigo morador da casa que acabara de alugar. Era o retrato de uma velha, uma imagem envelhecida também. No olhar da velha, sua velhice inteira, disse-me Isabel. Não que houvesse ali sabedoria ou experiência, “essas coisas que queremos ver nos velhos, porque queremos ver em nós mesmos”. Não, em seu olhar havia apenas velhice: nenhuma transparência, opacidade pura. Isso tudo me contou Isabel, porque eu já não podia ver.

E me contou também que aquela velha era um pouco ela própria. Como? — perguntei-lhe. Isabel ficou em silêncio. Insisti em tom mais alto, imaginando que ela não tivesse me ouvido. Novo silêncio. Isabel olhava-me fixamente. Isso eu não podia ver, mas sabia. Isabel tinha os olhos marejados. Isso eu não podia ver, mas sentia em minhas mãos, entendendo que me restava também o silêncio.

O retrato da velha na parede nos contemplava vazio. Isabel não chegou a chorar, porque não queria que as lágrimas limpassem seu olhar do silêncio mais fundo. Isabel queria o vazio também, um vazio que a aproximasse da velha na parede; um vazio que a aproximasse de mim.

Posted by Bruno Rabin at 06:35 PM | Comments (0)

March 01, 2005

Triste Fim de Oswaldinho Nota Verde

Ainda na escola, Oswaldo aprendou a amar o Capitalismo, que fazia questão de escrever assim mesmo, com maiúscula. Sua namoradinha de ginásio, a Ritinha, ficou apaixonada por um professor hippie de geografia — Felipe, Lipão para os próximos —, para quem a propriedade privada era um assalto (ou roubo, não se lembrava bem). Oswaldo tomou o professor como inimigo e resolveu atacá-lo com sua melhor arma à época: “Professor, fala rápido: Marx, Eva e Adão.” Não deu muito certo, e Oswaldo resolveu estudar.

Na sétima série, já conhecia Adam Smith em detalhe, preferências gastrômicas e doenças familiares incluídas. Queria mostrar àquele barbudo com quantos argumentos se ganha uma garota. No entanto, quanto mais lia, mais se dava conta de que sua vitória sobre o professor não seria na porrada, nem no bate-boca; resolveu ficar rico e ganhar a namorada de volta. Para isso, nada melhor que ser doutor. Oswaldo estudava muito, mas só se interessava por capitalistas que se assumissem de boca cheia. Resultado: tirou zero em história e não passou no vestibular. Como era contra a universidade pública, ficou até satisfeito, mas não podia pagar uma particular. Embora fosse capitalista, Oswaldo mal tinha o da passagem. Resolveu se virar.

Primeiro tentou um empreendimento próprio. Viu que no bairro só havia uma banca de jornal e montou a sua. No início até que vendia bem; tinha um bom papo e se tornou ídolo dos aposentados das redondezas. Seus argumentos — acredita-se — foram a matéria-prima de dezenas de cartas de leitores enviadas ao jornal da cidade, daquelas em que se protesta com frases de efeito. Sua banca sempre cheia acabou atraindo outros jornaleiros e, em pouco menos de dois anos, Oswaldo faliu. Não ficou chateado; antes o contrário: viu naquilo a beleza da livre concorrência e do espírito empreendedor.

Depois da tentativa frustrada, Oswaldo ainda sonhou com uma towner, mas ficou no sonho mesmo. Acabou arrumando um emprego numa firma de serviços gerais. Não tinha carteira assinada, mas não via mal nisso. Afinal, ele vendeu sua força de trabalho como quis e quem seria o Estado para reclamar disso? Mas o Estado reclamou, e uns fiscais obrigaram a firma a empregá-lo oficialmente. Férias, décimo-terceiro, aquela coisa toda. Oswaldo entrou em depressão: estava feliz com a CLT, logo ele, que tanto gritava contra aquele absurdo. Antes que fizesse uma besteira, foi demitido.

Oswaldo não desanimou. Achou que a política seria o seu lugar e não tardou a se filiar a um partido liberal. Logo descobriu que o nome não dizia muita coisa: em seu primeiro discurso, ouviu um bocejo a cada citação de um economista de renome. Quando chegou a Schumpeter, um colega o interrompeu numa salva de palmas. Só saiu candidato porque se comprometeu a não falar difícil. “Povo gosta de emprego, não de trabalho,” disseram-lhe. Irritado com a censura freqüente, Oswaldo exigiu respeito à sua coerência, no que foi prontamente atendido: passaria a se chamar Oswaldinho Nota Verde, em alusão aos dólares que adorava elogiar. A campanha não deu certo. Ninguém parecia disposto a doar dinheiro para alguém com aquelas idéias. “Mas o que eu defendo é exatamente o seu lucro”, insistia, antes de ouvir a resposta de sempre: “Meu filho, se eu quisesse livre concorrência, não dava dinheiro pra campanha política.” Os votos dos aposentados do bairro não salvaram Oswaldo da derrota humilhante. A política o expulsou de vez.

No dia da eleição, Oswaldo ficou cabisbaixo; não pela derrota, que ele até compreendeu. Triste mesmo foi ver a Ritinha toda prosa ao lado do Lipão, num conversível mais que bacana. Arrasado, Oswaldo ainda teve tempo de pegar o ônibus, mas ninguém sabe para onde.

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February 27, 2005

Contos Sensoriais (I)

Quando era pequeno, tinha muito medo de me viciar em cocaína. Achava que o vício vinha do cheiro: um perfume tão gostoso, mas tão gostoso, que, uma vez experimentado, produzia no sujeito a vontade incontrolável de senti-lo o tempo todo. Deve ter sido alguma associação com o canto da sereia, possivelmente uma mistura de trechos de conversas de adultos, mal ouvidos pelo sono, à mesa de um restaurante. Talvez sem sono, mas certamente à mesa de um restaurante, impaciente com os cafés antes da conta. Aquele medo persistiu em mim por muito tempo. Não o da cocaína, mas o do vício; não o de um vício qualquer, mas o de um perfume delicioso.

Como o associava à causa errada, custei a perceber que já estava viciado. E que nunca mais conseguiria esquecê-la.

Posted by Bruno Rabin at 07:28 PM | Comments (0)

February 06, 2005

Roberto ri por último

Roberto tem gestos largos e gargalhada fácil. Embora se ache dono da verdade, é um pouco ignorante e bem burro — mas tem gestos largos e gargalhada fácil.

Roberto gosta de definições, tanto mais radicais quanto mais ignorantes. A cada encontro com os amigos, uma nova — ou a repetição das velhas. Adora fazer comparações entre cineastas bons e cineastas brasileiros: “Cacá Diegues é o Fellini brasileiro,” repete sempre. Também costuma dizer que Manuel de Barros é um poeta genial. “Gente, ele é o Guimarães Rosa da poesia!” Quando fala de política, Roberto não deixa por menos: “O que o Brasil precisa é de um líder, o resto a gente resolve.” Para ele, “a única comida que presta é a italiana, e de cantina, que vem bem servida, porque, vocês sabem, comida é ingrediente, comida é ingrediente...” Os braços se abrem na frase, e depois de cada frase, a gargalhada fácil. Roberto ri fácil, e todos riem também.

Os amigos de Roberto gostam de falar mal dele em sua ausência; interpretam seu comportamento, relembram histórias, repetem sua ignorância. Não é difícil. Alguns já tinham tentado interceptá-lo ao vivo, durante a conversa. “Mas, Roberto, a idéia do filme é incomodar mesmo e fazer pensar.” Péssima estratégia, logo respondida com uma gargalhada franquíssima, seguida de um desdém preciso: “E você vai ao cinema para ficar incomodado?” E repetia a gargalhada, contagiando quem estivesse por perto.

Os amigos de velhos tempos já sabem disso e preferem calar, concordando com gentileza e se cutucando sob a mesa. Ali colhem material para o próximo encontro. Seu assunto preferido é Roberto. Alguns se perguntavam o que leva uma fraude como ele a ter uma namorada tão interessante. Outros trincam os dentes ao falar sobre seu sucesso como advogado. “Como é possível, o cara não consegue sustentar uma opinião?!” Há ainda os que duvidam de que ele seja tão idiota e imaginam estar diante de uma espécie de pegadinha... Mas todos concordam que, mais dia, menos dia, a fraude será descoberta. E riem risadas irregulares, cruzando os braços em gestos obtusos.

Roberto nem desconfia do que os amigos dizem sobre ele. Sempre os abraça largamente, prometendo aquela visita adiada, com a ressalva de sempre: “Mas vê se lê o Emir Sader, que o cara é gênio, hein!” E dá sua gargalhada aberta. Roberto não sabe, mas essa gargalhada é sua suprema ironia.

Posted by Bruno Rabin at 11:23 AM | Comments (0)

January 02, 2005

Ideologia de Botequim (2)

Ele era de direita, mas — que diabo! — pediu um chopp ao garçom.

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September 12, 2004

Mater dolorosa

Calou-se mais uma vez. Sabia que não adiantava argumentar. Sua mãe sempre teria a vantagem de poder chantageá-lo. Ela não o compreendia, nem agora, nem nunca. Ainda que ele insistisse em dizer que a escola não tinha importância e que poderia aprender muito mais com os amigos, ela fazia de tudo para que ele ficasse em casa. Preocupação inútil. Ele era teimoso. Mas ela insistia.

Ele desistiu de fazer a despedida. Havia pedido para conversar com ela apenas para satisfazê-la. Já antevia o choro e pretendia torná-lo menos incompreensível. Errou: mães não costumam ouvir, pois correm o risco de estar erradas. Preferem as lágrimas. Por isso, calou-se, deu-lhe um longo abraço e disse que ela não deveria ficar preocupada. Estava tudo sob controle.

Bateu a porta de casa e andou cerca de dez metros. Olhou para trás e entreviu a mãe pela fresta da janela. Ela chorava como nunca. Talvez antecipasse que sua teimosia o levaria a alguma aventura arriscada. Talvez temesse, talvez apenas estivesse arrependida de não tê-lo criado melhor. Assim são as mães, ele pensou novamente, antes de continuar andando. Que besteira!

Alguns quarteirões depois, pensou em ligar para casa, mas estava próximo demais de seu destino. Foi tomado pela tensão, embora soubesse que seria infantil voltar atrás e que alguém teria que fazê-lo. Respirou fundo e andou mais um pouco, até alcançar o banco da praça em que receberia a mochila com a encomenda. Não chegou a esperar mais que dois minutos. O enviado mascava uma goma qualquer e parecia calmo. Isso o tranqüilizou.

O azul da mochila lembrou-lhe outra vez a mãe, que vestia um véu em tom semelhante. Pensou novamente em ligar para ela. Pensou apenas; e continuou seu caminho. Quando finalmente chegou à porta da escola, respirou fundo mais uma vez. E mais uma vez pensou na mãe, vendo um caderno cinza na mão de uma aluno. Era igual ao que ela lhe dera no início do ano. Inútil, pensou, um segundo antes de ativar o detonador. Já não pensaria mais na mãe.

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September 07, 2004

À moda de Charlie Kaufman

Há quanto tempo não comia? Quatro, cinco horas? Sentia-se enjoado, mas se lembrou de comida ao passar em frente a uma dessas lojas de sucos. Tinha inveja daquelas pessoas capazes de devorar com volúpia sanduíches de mil camadas, baicon, maionese, tudo — e ainda por cima, coca-cola, em plena loja de sucos. Mas não tinha fome. Era só um sentimento recorrente: inveja de gente saudável. Saudável no sentido pleno, com saúde para enfrentar toda aquela comida sem passar mal. Desde sempre se apercebera disso. A saúde ou se tem ou não se ganha. Ele não tinha e se sentia enjoado.

Não era o enjôo de sempre, aquele desconforto contínuo, aquele sem-jeito com tudo. Ou era isso misturado. Mas havia um ingrediente novo: tinha resolvido pedir demissão.

(Passara a madrugada em claro. À noite, antes de dormir, um banho morno, um presságio. O barulho da água, o sabonete, a pele e um desejo de descanso definitivo. Lembrou-se do dia, da semana, de sempre e teve uma sensação ruim. Mergulhou a cabeça sob a água e se esqueceu de tudo. Uma camisa limpa, um lençol recém-lavado, a penumbra, o sono.

De repente, acordou sobressaltado. O coração palpitava. Deve ter sido um sonho, um pesadelo, pensou. Levantou-se, foi até a cozinha. Bebeu de um gole um copo d’água, tão sofregamente, que acabou se molhando. Com as luzes ainda apagadas, foi ao banheiro. Lavou o rosto e acendeu a luz à procura da toalha. Olhou-se no espelho e quase não se reconheceu. Olheiras profundas, barba mal feita. Nem parecia ter saído do banho há tão pouco tempo. Voltou à cama, mas não conseguiu dormir.)

Resolvera pedir demissão. E caminhava para o trabalho. O copo de café da manhã — que ele preferia às xíxaras convencionais —, a última fatia de pão e mais nada. Já era uma da tarde e ele estava atrasado, tinha resolvido ir a pé. Sentia-se enjoado, mas achou boa idéia parar por um suco. Assim adiava um pouco o encontro decisivo.

A meio quarteirão, quase diante da loja de sucos, uma vitrine o reteve. Nela, um manequim nu, à espera das roupas da nova coleção que lhe colocaria o funcionário da loja. Ele olhou fixamente para aquela figurou e vislumbrou ali alguma vida. Delirava. Devia ser a fome. Quis continuar andando, mas havia uma atração pelo manequim: era uma mulher, claro, estava nua e parecia viva.

Estranha também aquela sensação. Um desejo de ir embora paralisado. Ele ficaria ali o dia inteiro, em tensão permanente, corda esticada. (“Corda esticada”? Estranho.)

Fez ainda mais força para sair. Finalmente conseguiu. Já era tarde, ele precisava chegar ao trabalho. Não, já era tarde, ele precisava pedir demissão. Não, ele estava enjoado, algo passageiro. Não, ele precisava tomar um suco. Não.

— Não, você não vai pedir demissão.

— Por que não? E quem é você?

— Uma única explicação: eu sou o Autor e você não passa de um personagem. Não tem vontade própria, não pode pedir demissão.

— Bem que eu desconfiei: “o coração palpitava”, “presságio”, “corda esticada”...

— Como assim?

— Ora, apenas um autor medíocre poderia contar minha história com esses clichês. Aliás, é por isso que pretendo ir embora.

— Como assim?

— Ora, cansei de ser o que sou, um derrotado-padrão. Um personagem solitário, homem urbano, cheio de neuroses, com um ou dois cacoetes, sobrevivendo na selva urbana. Falido, impotente, angustiado. Em pouco tempo eu seria transformado em um assassino em série, cuja história seria narrada com serenidade, como se fosse normal.

— Até que você tem boas idéias...

— Tá vendo? Você é medíocre. Rubem Fonseca genérico. Graciliano diluído. Pior ainda, porque esses pelo menos publicaram livros, são premiados. Você, nem a metade: usa-me para escrever posts em um blog. Suprema mediocridade.

— Mas eu não sabia que personagens...

— Falam? Pensam? Sentem? Não são os personagens, idiota, é você. Nem isso você percebe? Acha que sou mesmo eu conversando aqui?

— Então, quer dizer que esse diálogo aqui é todo meu. E que eu posso...

E pela primeira vez em sua vida, sentiu que algo valia a pena.

(“Não tem jeito”, pensou o personagem, ao ler a última frase. “Estou fadado ao clichê eterno. Preciso voltar àquela vitrine, onde há esperança”)

Posted by Bruno Rabin at 05:55 PM | Comments (0)

August 20, 2004

Um olhar

Pela última vez, uma única vez, ela o esperaria. Estava sem maquiagem e sem salto alto, sentada de pernas descruzadas em uma cadeira desconfortável. Sobre a mesa, o café inutil.

Um minuto, uma hora, uma vida, uma vida e meia. Um café frio, um copo d'água. Desistiria, não fazia sentido esperar, e um olhar estranho a perturbava. Mas qualquer gesto seria uma denúncia: descontrole, desequilíbrio. Não esperaria mais, bastava que o olhar a deixasse ali, naturalmente sentada, contemplando a passagem de tudo, como quem sabe o que faz. Mas o olhar a sentir-se exposta.

A decisão veio aos poucos, querendo escapar-se, desejosa de certeza. Seu corpo não atendeu à solicitação de movimento, ou atendeu, lentamente, dando notícia da indecisão, e — pior — voltando à cadeira, voltando à vitrine. Não era a primeira vez que isso acontecia, assim, na frente de todos.

Sempre que estava à espera se sentia assim. Mais de uma vez procurou a síntese entre o desejo e a ação. Não entendia a imobilidade, e não entendendo não tinha desejo o bastante para vencê-la. No último instante, a decisão parecia perder sentido, apagando-se em um quase desmaio. O corpo pendia, o olhar a retinha, o ímpeto voltava a diminuir. Mas era preciso não esperar. Disso ela estava certa. Ou quase. Ou quase nada. Não, nem disso estava certa: o olhar a estava deixando.

***

O olhar a deixou. Agora que estava sozinha, a força se fazia ainda menor. Agora que poderia, não desejava. Sentada na cadeira ordinária, o café sobre a mesa, o copo d'água. Imóvel. O corpo todo desconfortável, uma impossibilidade. O olhar a deixou. Ela deixou de existir.

Por fim chegaram as roupas da nova coleção.

Posted by Bruno Rabin at 05:38 PM | Comments (0)