August 19, 2008
Mein Kampf de Futebol
Jesse James pó-de-arroz? Devo admitir: a sacada é boa, e a risada chega a desculpar o constrangimento da associação. Mas vale o aviso: David, pode esperar, que a tua hora vai chegar...
Informação relevante: este blog é apenas um mensageiro apressado; elogios devem ir para lá.
Posted by Bruno Rabin at 10:54 PM | Comments (1)
August 11, 2008
Espírito olímpico: bronze
Do alto dessa gripe mal curada, com uma dor crônica na região lombar, diante da fatia de pizza requentada e da coca-cola já sem gás na temperatura ambiente, com o corpo mal aprumado no sofá de cor indefinida pelos anos sob meio sol, vendo as Olimpíadas pela TV, e as entrevistas dos atletas brasileiros, e os comentários dos comentaristas, não consigo deixar de pensar: "Para mim, já é uma vitória estar aqui."
Posted by Bruno Rabin at 07:14 PM | Comments (2)
July 28, 2008
Que pena?
Há quem veja na prisão de um criminoso um objetivo apenas reabilitador. O sujeito fica lá uns dias, uns meses, uns anos para pensar direitinho, se arrepender e ver se volta a ser gente. Nesse caso, se, antes da prisão, o acusado já tiver tomado tenência, se tiver mudado de vida completamente, se já for até mesmo um pregador de bons valores - e nem se fale do arrependimento, que isso ninguém consegue enxergar -, então nem precisa condenar o sujeito, certo?
Posted by Bruno Rabin at 03:15 PM | Comments (1)
July 22, 2008
Tratamento de canal é o freak show da civilização ocidental

Quando alguém fala em sadomasoquismo você pensa em duas pessoas, não é? Um sádico e um masoquista, que se completam na busca de um prazer borderline, tão pervertido como ridículo, certo? Nada disso. O verdadeiro sadomasoquismo, cumpre esclarecer, só acontece quando uma pessoa encarna as duas dimensões simultaneamente, e esse alguém é o dentista. Senão, espiemos:
Só mesmo o masoquismo mais pervertido explica a escolha por uma rotina de enfrentamento da halitose da pessoa não amada, em meio àquele zunido incessante e à necessidade hiper-humana de um detalhismo que ninguém nota - ou nota, quando dá errado, e processa. Só por uma abnegação religiosa alguém pode se prestar ficar duas horas em frente a uma boca aberta cheia de dentes, equilibrando um sugador, um espelhinho e meia dúzia de equipamentos operados metade pelo pé, metade pela mão.
Ao mesmo tempo, só o sadismo mais cruel explica o ímpeto dos dentistas em perguntar se está doendo, pergunta a que só se pode responder com um grunhido indistinguível que eles interpretam como lhes convier - ou fingem interpretar, embora isso faça pouca diferença. E quando perguntam se está doendo, na verdade eles querem é impor a tortura; mas uma tortura muito sofisticada, que é a ameaça iminente da dor aguda, justo naquele ponto em que a anestesia acaba e você experimenta o insuportável. É como aquele sonho erótico agitado interrompido pela queda no chão frio, com a desvantagem da ausência de erotismo e da certeza da queda num chão gelado, só não se sabe quando.
É pior quando o dentista é mais experiente e nem pergunta sobre a dor; apenas responde ao seu quase-gemido, dizendo "Tá doendo, né? Mas já, já, passa." E continua a fazer o que fazia, sem muita pressa. Alguns chegam a ensaiar uma conversa sobre a reexibição de "Pantanal", ou o caso Daniel Dantas, ou o preço das consultas médicas, e pedem sua opinião sobre esses assuntos, na forma suprema do sadismo, que é o sarcasmo. Isso, a odontologia. E há quem a escolha.
Posted by Bruno Rabin at 10:20 PM | Comments (1)
July 07, 2008
War in Rio
Soube que existe um War versão Império Romano. Boa idéia. Além da distribuição geo-política do planeta, aprende-se história. Não fosse a concorrência desleal dos videogames ou da TV a cabo, teríamos uma geração esperta sendo formada. Com o original, muita gente aprendeu geografia. Afinal, de que outra maneira um moleque dos anos 80 conheceria Vladvostok, Aral ou aprenderia que Venezuela e Colômbia são a mesma coisa?
Como se não bastasse a função educacional, War é fonte de várias dessas metáforas que correm o risco de se perder (juntamente com o "caiu a ficha" dos orelhões), sendo a "conquista de 18 territórios" metáfora muito mais simpática do que as que se usam na adminstração científica (e, só para comentar, "administração científica" é um bom exemplo da denegação freudiana, semelhante a bares que precisam se chamar "informal" ou "Conversa fiada").
Como o Banco imobiliário, War tem a vantagem de ser politicamente incorreto, uma espécie de oásis intelectual em tempos de discurso pacifista e preocupação social. O nome (bem) brasileiro é um "plus a mais": o original se chama Risk. Só mesmo a tradição explica que essa gente que adora vetar videogames não tenha tentado colocar um "protect the rain forest" entre os objetivos ou proposto uma redefinição da quantidade de exércitos que deveria caber ao continente africano.
War é um jogo de estratégia. Mas se joga com dados. Precisamente como as coisas funcionam no mundo real: organização, objetivo e planejamento sempre esbarram no acaso. O Osama, por exemplo, deve ter jogado War II, aquele com aviõezinhos, antes de ter a idéia do ataque. A Al-Quaeda, aliás, poderia inspirar algumas variações do jogo, mas nada que se compare a esta aqui:
Posted by Bruno Rabin at 11:55 PM | Comments (1)
July 03, 2008
A (sua) tristeza
Há quem não conheça a ética do futebol. Na derrota regular, o perdedor sofre duplamente, e sua irritação procede: amigos e inimigos se aproveitam da situação; podem e devem fazê-lo. Na eliminação, o sofrimento cresce na medida das brincadeiras, com a ressalva da intimidade - já não é de bom tom o desconhecido se aproveitar da dor alheia. Agora, na perda do título - e sobretudo na perda honrada do título -, muita coisa não se aplica.
Não se trata de ser flamenguista, pois há os que conhecem o código de conduta. Mas como a torcida rubro-negra é grande, cresce na mesma proporção a quantidade de sujeitos de má-fé. A zoação, como se não bastasse a inaplicabilidade em caso de luto, se torna ainda mais desprezível vinda de quem vem. Não há atenuante. E talvez haja agravantes: cara de paspalho, babando na risada que não se contém, vendo o jogo dos outros como um grande filme (final infeliz, as many); mas um filme dos outros, nunca seu.
Posted by Bruno Rabin at 10:43 AM | Comments (1)
June 24, 2008
Bem de Alzheimer
Estava pensando que a avó, demenciada, lembrando nomes e gestos, mas não o dia anterior, talvez não precisasse tanto assim da dedicação da família no sentido de lhe proporcionar bons momentos, felicidades de que não se lembraria horas depois. Pensava que não ter a lembrança tirava o sentido da alegria, como se o depois valesse mais que o durante. Mas não. Talvez o contrário: como não tem mais a possibilidade de comparar o que está sentindo com o que já sentiu antes, a avó vive a intensidade mais plena, cada momento contendo a maior felicidade e a maior tristeza possíveis. Nenhum meio termo, nenhuma mediocridade. Consolou-se com sobra.
Posted by Bruno Rabin at 12:03 AM | Comments (2)
June 21, 2008
Ao contrário
As mulheres agora fazem contas, mas isso não diminui sua feminilidade; ao contrário. O teste é simples: a mulher vai a uma loja para comprar uma blusinha. Lá chegando, descobre que há uma promoção. A blusa custa 80 reais, mas se você levar três paga 200. Então, é óbvio que ela vai levar as três; afinal, cada blusa saiu por menos de 70 pratas. O gasto inicial de 80 foi acrescido de 120, fora a felicidade da compra bem feita. Essa, a lógica feminina. Mas não é nada de que não se goste; ao contrário.
Posted by Bruno Rabin at 10:36 AM | Comments (0)
June 11, 2008
Curtura (ou: post em que quase firo a regra número oito do Blogma, no mais puro casuísmo, mas ao contrário)
A vantagem do dogma religioso sobre o, digamos, pagão, é que ele tem a força do mistério. Isso parece óvio, embora talvez não seja lógico - no sentido menor da palavra "lógica", ou seja, como silogismo aristotélico for dummies. De qualquer maneira, com ou sem a interdição do mistério, as pessoas precisam de dogmas, e tanto pior que eles não sejam plenamente dogmáticos. Explica-se: na educação familiar, aprende-se cada vez menos sobre valores humanos absolutos ou respeito a Deus, mas todo mundo sabe que é imprescindível separar o saco de arroz do detergente nas sacolas de supermercado e ninguém ousa escovar os dentes na pia da cozinha. E por quê? Porque não pode, oras.
Mas isso é só curioso, digo, é apenas engraçado que as pessoas questionem tão pouco alguns costumes e verdades domésticas, na mesma medida em que fazem redações escolares sobre o quanto a riqueza de uns poucos é fruto da exploração gananciosa e desumana da miséria alheia. Em qualquer dos casos, assume-se um raciocínio que parece bom como o fundamento daquilo que ele funda, sem se perceber a enrascada, humm, lógica da coisa toda.
Nada disso, porém, tem um efeito tão perverso quanto as etimologias e distinções que aquele tio coroa, sabido, cheio de tiradas, nos ensina na forma de rasteira. São como gerentes de R.H. familiares, com a desvantagem de ainda não sermos cínicos o suficiente para rirmos da insistência dessas frases ao longo dos anos ou da evidência curiosa de que essa sabedoria do tio não o levou a pagar dívidas ou conseguir um empreguinho de professor numa universidade pública. E assim, mal percebendo tudo isso, aceitamos do tio que educação seja mesmo "ex-ducere, levar para fora, extrair da pessoa o que ela tem de melhor" e criticamos a imposição de conteúdo de certos professores, justamente os que teriam algo a dizer numa época em que não temos nada para ser extraído de nós (ou temos, mas isso bem sabemos fazer quando ninguém está por perto).
Entre todos os dogmas do tio sabidão, nenhum é tão terrível quanto a distinção dita como resposta a uma crítica que fazemos a um apresentador de televisão estúpido ou ao vizinho que não lê: "Mas, meu filho, cultura não é sinônimo de inteligência", meaning: pouco importa a erudição, o que interessa é saber raciocinar, ter aquela espécie de mental sharpness, para a qual, muito sintomaticamente, não temos palavra em português. Resultado: a pobre criança começa a achar que os livros são tempo perdido e talvez até um prejuízo à sua inventividade. Lembra-me, a propósito, um poeta-revelação que entrevistei na época de escola para o jornal do grêmio, que dizia preferir não ler outros poetas para não se influenciar. No caso dele, que me lembre, deve ter sido uma vantagem de sobrevivência não ter feito comparações e, pensando bem, até que tem certa razão o sujeito que não descobre que não inventou nada: para ele, tudo é orginal.
Mas o poeta também sou eu, num certo sentido. E muito do que não li talvez tenha relação com essa sensação compensatória de que a observação inteligente poderia servir de resposta a qualquer citação. Por isso, durante boa parte da vida, uma certa fuga da "assimilação de cultura" se combinou à inércia da esperteza, produzindo uma catástrofe mais tarde, quando descobri que inteligente mesmo é o sujeito que resolve algumas equações e que, quase sempre, a referência cultural é um trampolim do brilho - a não ser no caso da estupidez, que é uma mistura de chatice com insensatez, e não o oposto de inteligência, como se costuma pensar. Enfim, nem tão sagaz, nem tão letrado - e mediano é bastante medíocre. Por isso, escrevo (e publico :-).
Daí, também, a recomendação deste jovem tio: nunca aceitar as dicas do tio sabichão.
Posted by Bruno Rabin at 11:31 AM | Comments (0)
June 05, 2008
Do futebol
Para o torcedor, o futebol é um jogo de azar pior que um jogo de azar. Porque, na roleta, se o vermelho 17 não sai, você bem pode recolher as fichas, ou apostar nos pares, não sei. No futebol, o investimento de alegria é viciado e não se pode fazer muita coisa para que tudo corra bem. Mas continuamos apostando, porque a alegria, quando vem, vem em dobro.
Posted by Bruno Rabin at 12:38 PM | Comments (2)
May 29, 2008
Desamor
Boa descoberta foi a de que o Bernardo Carvalho tem um blog. E no primeiro post:
O horror confesso que eu tenho dos blogs me pôs numa sinuca de bico (devidamente ironizada pelos amigos mais próximos) quando descobri que durante a minha estada em São Petersburgo também teria que escrever um. Não é que não goste; eu detesto blog.
Eu, que gosto muito de literatura contemporânea, e gosto especialmente da tensão das coisas que não acontecem, acho os romances do Bernardo Carvalho quase todos muito bons. Claro, tem aquelas partes nojentas, mas aí você pode ir pulando. Então, nem me sinto à vontade para fazer a piada óbvia com o comentário dele sobre blogs. E, confesso, até concordo um pouquinho com ele. Bem, não é um pouquinho, é muito. Tanto como se fosse quase uma epifania. Por exemplo: é bem blogueiro dar o nome ao blog de "Epifania", não é não? Ou em latim. Então, é isso que detesto. E também que tem blog demais por aí (inclusive este, eu bem sei, não precisa falar o óbvio). A Internet é como um sebo ao contrário, onde tem sempre uma novidade nova, em vez duma novidade velha. Mas coisas velhas desconhecidas, se sobraram, é porque são boas, ou porque são engraçadas, ou porque são boas de tão ruins. No blog, não; quase tudo sobra como novidade. E nenhuma novidade dessas novinhas pode ser excitante de verdade. Por isso, um desamor sonolento diante de tudo.
Posted by Bruno Rabin at 10:43 AM | Comments (1)
May 28, 2008
Para mim, o mais difícil em Chesterton é...
a pronúncia do nome.
(Aliás e a propósito, outro patrício falando do ômi aqui, mas só para assinantes. A mesma coisa aqui.)
Posted by Bruno Rabin at 11:20 AM | Comments (4)
May 27, 2008
Marketing Editorial
Poucos livros devem vender tão erradamente quanto Como vencer um debate sem precisar ter razão, de Arthur Schopenhauer. Culpa do Olavão?
Em vez de criticar a escolha, pode-se aprender com ela:
- Como chatear seu chefe, não trabalhar e ainda ser pago por isso, de Herman Melville
- Dê um tempo para o seu ser, de Martin Heiddeger
- A arte da guerra - e da paz, de Leon Tolstói
- Você quer, você pode - desvendando os segredos dos super-homens, de Friedrich Nietzsche
- Casais inteligentes vão ao paraíso juntos, de Dante Aligheri
- Transforme sua vida no maior barato, de Franz Kafka
- Não morra de inveja: descubra o Iago que existe em você, de William Shakespeare
- O segredo das mentes perdedoras, de James Joyce
- Quem precisa da OAB? - 101 superdicas para estudantes de Direito, de Fiódor Dostoiévski
- Second Life para iniciados: invente seu próprio mundo (versão em diálogos!), de Platão
- Vencendo o preconceito: como arrumar um marido e se orgulhar disso, de Jane Austen
- O guia do turista misantropo, de Albert Camus
- Quem joga a isca que quer acaba fisgando o que não pode pescar, de Ernest Hemingway
- Sua casa é seu universo - visitando o porão da vida, de Jorge Luis Borges
Posted by Bruno Rabin at 03:23 PM | Comments (13)
May 24, 2008
Apelo de filho
- Pai, assina a Internet de banda larga, que eu vou poder visitar o Museu do Louvre, a Biblioteca do Congresso Americano e fazer muitas pesquisas pro colégio.
Posted by Bruno Rabin at 11:53 AM | Comments (0)
May 16, 2008
Vaidades masculinas

Não é verdade que as pessoas sejam cada vez mais vaidosas; elas são mais estúpidas, talvez, e põem a vaidade nas coisas erradas. O corpo, para citar o exemplo mais comum. É assim: incapaz de se envaidecer de alguma coisa que preste, o sujeito vai para a academia ou fica assistindo ao gnt. Mas esse culto ao corpo – um hábito mais bom do que ruim, é bom dizer antes que alguém pense o contrário, mas se pensar, também, pouco importa –, enfim, esse culto ao corpo é só porque as outras vaidades exigem sutileza, e alguma elegância. E variam conforme o meio cultural, a profissão, o grau de beleza (os feiosos que fazem dança de salão bem o sabem). Na verdade, quanto mais vaidosa é a pessoa, menos preocupada com a aparência ela será.
A vaidade dos escritores, por exemplo, é bem charmosa, digam o que disserem sobre a falsa timidez, os óculos sem lentes ou o olhar penetrante no infinito pensando: "Acho que ela vai me dar, acho que vai." O livro está publicado, o que é que há?! A pose precisa acompanhar os fatos, pois vaidade também é questão de credibilidade profissional. No caso do escritor, não há qualidade literária que resista a uma discussão sobre o troco com o caixa do supermercado onde foi comprar leite em pó e meio quilo de cebola a pedido da cozinheira após a corrida matinal na praia.
***
Nada disso vem muito ao caso. Era só pretexto para falar de uma outra vaidade, digamos, intelectual: a dos professores. Espécie que dá pena, sobretudo o bom professor. Peito inflado, voz alta numa roda de conversa, gestos largos como quem precisa da atenção risonha de todos, o professor tem uma vaidade infantil. De tanto ouvir que é inspirador, que ensinou o que ninguém tinha conseguido ensinar, que é uma pessoa brilhante, ele acaba acreditando nisso – e abre aquele sorriso confiante, de uma orelha a outra, sem olhar as unhas sujas de giz, sem sentir o próprio bafo de café, sem ter lido Freud, Lacan ou qualquer monografia de primeiro período de psicologia explicando a projeção do "sujeito suposto saber". Suposto, diríamos a ele, se o professor conseguisse ouvir alguma coisa além da própria voz.
Posted by Bruno Rabin at 03:39 PM | Comments (0)
May 13, 2008
O terno amassadinho do Saramago
Lendo este post do AFB, lembrei que, na literatura, às vezes, a "contaminação ideológica" é uma qualidade vibrante, daquelas que, ao ler, você olha pro lado, apontando a página e dizendo para o abajur: "Tá vendo, né?" Outras vezes, atrapalha a ponto de não se conseguir levar a leitura adiante. Em parte, claro, isso deve ter relação com a empatia do leitor, mas é pouco.
No caso de Saramago, é bem possível que a qualidade dos romances esteja na proporção inversa do esquerdismo, explícito ou não. O que faz de O ano da morte de Ricardo Reis um bom romance é um silêncio que falta ao Ensaio sobre a cegueira, talvez, e sobretudo à Jangada de pedra. Isso para não falar naquilo em que se transforma a fórmula, a que já prestei "homenagem" por aqui.
De qualquer maneira, suspeito que o problema do Saramago, como de tanta gente - à esquerda, à direita ou pela meiuca -, é comparecer demais. Isso no sentido de comparecimento que um amigo usa para descrever o Gatorade de tangerina, que ele dispensa por achar que a fruta comparece em excesso, estragando a gatorabilidez do dito cujo. No romance, esse comparecimento excessivo é uma mistura de tudo que há de ruim na arte conceitual (ter conceito) com o que há de pior no academicismo. É como se auto-consciência de uma qualidade nublasse a qualidade ela mesma - problema para o qual muito contribui o estudo de literatura, sem dúvida.
(Coisa semelhante me fez perceber o embuste que era o Höderlin do pantanal, por exemplo - muito sabido sobre o que deveria escrever, coisa ainda pior na poesia. Ninguém se torna referência para ator da Globo à toa, afinal.)
Tudo isso seria perdoável (quem não quiser que não leia, cada um faz o que quiser com seu talento, inclusive estragá-lo), não fosse a mitificação de que fala o AFB. E não fosse também e acima de tudo o compromisso com o terno amassadinho na hora de receber um prêmio.
Posted by Bruno Rabin at 04:04 PM | Comments (2)
May 12, 2008
O frio
Nas cidades de frio, faz muito frio mesmo já nesta época do ano. E a gente vai lá para sentir frio e reclamar depois, Nossa, que frio horrível, deusmelivre. Mais para reclamar do que para sentir frio. E também vai lá para comer nos restaurantes da serra, todos reis da truta, aquele peixe insosso que precisa de muito molho para ficar bom ou então de ser defumado, mas aí é aquele gosto de defumado, nem precisa ser truta. E quando tem muito molho a gente acha que o restaurante é ruim, porque só um restaurante muito ruim coloca tanto molho, e se não tem molho a gente acha uma pobreza. Se eu fosse imigrante e quisesse ter um restaurante na serra, ele se chamaria "Assim pescava Zaratruta", nome muito bom porque ninguém diria que a comida é divina. Ou então "Assim pescou...", mas isso é discussão de tradutores, não tem nada com o frio. Porque no frio o que a gente menos faz é discutir, e a gente se abraça e fica concentrado na programação do dia. Do café para o almoço, quantas horas?, do almoço pro jantar, passa logo? Também a gente pode ver aqueles filmes que não veria nunca, mas no frio, naquela televisão mais ou menos, com lareira acesa e amor infinito, a gente faz uma concessão enorme e vê. E acha muito bom. Fica satisfeito de ter visto um filme assim tão denso, com professor que transforma o aluno e tudo, e ainda se pergunta por que deixou essa obra-prima passar no cinema sem perceber. Mas a gente nem tem tempo de responder, que é hora de concentrar para o chá. Com o silêncio do frio, tudo fechado, o chá é um acontecimento. O cheiro da fumacinha embaçando os óculos e a gente pensando: Que frio horrível, deusmelivreeguarde.
Posted by Bruno Rabin at 04:57 PM | Comments (2)
May 09, 2008
In olden days a glimpse of stocking / was looked on as something shocking, / but now, heaven knows, / anything goes.
A volta é muito mais difícil que o começo. Porque há mágoas no caminho - o post (ainda) não feito para nossa meme -, uma bela promessa não cumprida - um post por (cinco) dia(s) - e o novo teclado, sem aquele barulhinho tão agradável, razão principal para ficar por aqui escrevendo.
Há também o constrangimento com a vizinhança. Esse apartamento aqui no Leblon digital é coisa antiga, prédio de pilotis, sem garagem, um banheiro para dois quartinhos; e agora que o bairro ficou chique - e mais ainda ficará... -, a gente fica com vergonha de carregar essa sacola surrada perto das vitrines bonitas.
Também porque não há tanto sobre o que falar: essa felicidade morninha sob esse sol encasacado da vida diminui a vontade das coisas que não dão prazer. Escrever, por exemplo.
Mas sobretudo porque escrevia para maltratar. Mas agora é amor e mágoa - por exemplo, gostar honestamente de McEwan e ouvir um amigo destratá-lo, ficando meio sem jeito no meio da briga. Nessas horas, a pior coisa é amar; porque o contrário do amor é a ironia, e a graça.
...
Não me lembro de quem falou sobre esse efeito perverso dos blogs sobre a literatura tradicional - o de que cada post é um romance em potencial, não escrito porque permanente em sua forma inacabada (quem foi, Márcio?) -, mas este blog chega a lugares piores: o de posts sobre posts que nem se vão escrever:
O post sobre a sugestão de trama para novelas, em que o herói descobre (não que é filho de sua irmã, como sempre), mas que é paulista, tendo se achado carioca a vida inteira (inclusive com o "x", a preferência por chinelos, o "falso inglês relax"); um outro post sobre o pretexto que a idéia de "tudo já foi feito" deu a tanta gente para gastar tinta à toa (e antes que você diga alguma coisa: é pixel, idiota!); um terceiro post sobre a vantagem de ser muito, muito infantil para gerir um negócio; e quatro ficções que vou colocar à venda (vinte pratas cada uma, mas valem menos).
Mas a gente vamos escrevendo, afinal. Que de doce basta a vida.
Posted by Bruno Rabin at 07:19 PM | Comments (2)
April 28, 2008
Pollyanna
Aposto que agora a molecada travessa vai pensar duas vezes antes de fazer traquinagem.
Posted by Bruno Rabin at 01:12 PM | Comments (0)
March 17, 2008
Quase-opiniões - muita preguiça, como se não fosse nem uma coisa humana
Tudo o que penso é quase:
1) Alguns livros ficam melhor na tradução do que no original. Livros bons são dados a ótimos tradutores; ou péssimos tradutores, mas excelentes escritores; ou tradutores marromeno, escritores idem. Eles sempre dão uma ajeitada no original; tiram aquela gordurinha. Comparem, podem comparar. Isso pra não falar de escritores que nem deveriam escrever em seus idiomas, caso de Borges, que fica errado em espanhol, como já disse o Alexandre. Ou de Machado de Assis, que escrevia em inglês e era traduzido pela Carolina. Dizem.
2) E a tecnologia que veio pra facilitar nossa vida? Toda vez que a gente precisa (a gente precisa, sim, sempre só por fetiche, mas quem disse que isso não é necessidade? E o livro que você colocou de lado antes de entrar aqui, era ou não era necessário? Ah, eram técnicas para a entrada de dados em sistemas não-linerares... Não, não, estava falando daquele outro, que você usa pra dormir - o limite da necessidade) fazer um upload de micro, telefone, qualquer brinquedinho, toca de tomar rasteira de sistema, agenda, configuração, manual, the hell. É só fazer a conta: o tempo que se "ganha" com esse novo sistema que disca o telefone quando você pensa na pessoa (mas tem que pensar com o lado direito do cérebro, e olhos vendados, plantando bananeira numa piscina Toni) é inversamente proporcional... completa aí.
3) Atenção, denúncia: todas as datas são comerciais. Pronto. Páscoa, Natal, Dia dos Namorados, Aniversário, Dia da Sogra - é tudo feito pela indústria para vender mais! Sim, e que bom.
4) Por que uma pessoa que acha um absurdo a quantidade de pessoas num shopping no domingo chuvoso à tarde, gritando e xingando atrás do volante à espera de uma vaga, vai a um shopping num domingo chuvoso à tarde? Aliás, as pessoas quando compram. Não, as pessoas quando querem comprar uma coisa perdem dois ou três sentidos: andam feito zumbis no shopping, batem em todo mundo, olhando aquela coisa piscando. Mas isso é bom: essas pessoas acho até que ficam uns vinte minutos sem dizer nada.
5)
Posted by Bruno Rabin at 07:25 PM | Comments (4)
March 13, 2008
Entanto lutamos mal rompe a manhã

Non é veramente lo stesso: il tuo elitismo, lo trovo un po piu brutto, Tancredi.
Uma pessoa que se incomode com a coerência precisa tomar cuidado. Recomenda-se o silêncio. Ou uma coerência às avessas: "metamorfose ambulante" - e nesse caso endossar a estupidez de preferir sê-lo a ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Mas é solução verbal; vale nadinha.
Ser elitista brasileiro, por exemplo, e se sentir excluído. Ou querer ser religioso e ter o fetiche do ritual mais que o sentido da, hummm, espiritualidade (words should choose speakers, as they say). O contrário, então, pior ainda. Acreditar numa força, sabe, mas sem esse nome de Deus, e sem ritual, e sem uma tradição - e sem sentido, claro. Ou querer ser blogueiro obscuro, distribuindo tabefes virtuais como prova de macheza, nem fazendo cosquinha no ofendido e rindo aquele risinho protegido pela mão, bem afetado, num cantinho da sala (vai aprender luta livre, filho, que uma boa cotovelada na cara acalma qualquer discussão).
Então, o silêncio mesmo. Ou uma migalha de post. Mas que ninguém se engane: estar a postos, diz o dicionário, é estar "preparado para, à primeira advertência, resistir a um perigo ou tomar a ofensiva." Incoerente, all the same. Mas provisório, enquanto não termina a preparação:
Enquanto vocês postam, a gente prepara a resposta
Posted by Bruno Rabin at 05:53 PM | Comments (1)
February 15, 2008
O cineasta
Cineastas estão para a classe média "informada" como modelos estão para o resto. Todos querem dirigir um filme. Melhor: querem ser diretores. Reconhecimento intelectual, publicidade, poder - está tudo lá na figura do "gênio". Enquanto adiam o sonho, vão enchendo nossa paciência com documentários. Interessante notar que a ambição do "gênio" não passa pela leitura, por algum estudo, ou por qualquer outra coisa que exija um pouco mais dos neurônios. Este, o cinema brasileiro renascido: quantidade cada vez maior, qualidade bosta de sempre. E como o predador natural dessa espécie - o mercado - não pode entrar na jaula dos incentivos públicos, há cada vez mais deles à solta por aí.
Posted by Bruno Rabin at 11:24 AM | Comments (2)
February 13, 2008
Perdi alguma coisa
Não existe mais essa história de correção gramatical, né? Tudo depende da adequação, não é mesmo? As normas não podem ser prisões, certo? E também não podem servir à exclusão e ao preconceito, ok? Então, numa carta formal ou em um texto acadêmico, deve-se usar uma linguagem adequada, isto é, que siga os preceitos da norma culta vigente, não é? E essa norma culta corresponde ao que poderíamos chamar também de correção gramatical, tá me acompanhando? Mas... por quê? Ora, nessas situações, a linguagem adequada é a correta, certo? E isso não acontece apenas porque essa linguagem é mais clara ou mais precisa, não é mesmo? Isso também tem alguma relação com a impressão que queremos causar nos leitores, né? E, provavelmente, essa boa impressão tem como pressuposto o fato de que a norma culta parece constituir uma linguagem melhor, não é mesmo? Ah, então quer dizer que existe uma hierarquia de qualidade, certo? Do contrário, eu poderia usar gírias e traços de oralidade numa tese de doutorado, desde que a considerasse "adequada", é isso? Mas ninguém usaria, não é mesmo? Então, quer dizer que existe essa história de correção gramatical?
Posted by Bruno Rabin at 08:38 AM | Comments (0)
November 17, 2007
Yoko Ônus

Se a arte contemporânea trabalha com o valor da iconoclastia, poderíamos achar que Yoko Ono é uma grande artista. Afinal, ela destruiu os Beatles.
Mas nem isso. Ao contrário do que pretendia, o fim da banda ajudou a consolidar o mito.
O problema da japonesa foi ter financiado John Lennon no que ele tinha de pior e receber, em troca, a projeção global que a faz, por exemplo, vir dar opiniões por aqui. Mal sabe o que a espera: se tem uma coisa de que devemos nos orgulhar, é essa capacidade de desprezar o sujeito que não sabe a hora de sumir do mapa.
Posted by Bruno Rabin at 05:57 AM | Comments (0)
November 15, 2007
They´ve got a ticket to drive... but we dont´t care
Muitos taxistas desenvolvem técnicas que os fazem parecer estar mesmo dirigindo. Uns até nos enganam. Mas há sempre quem se pergunte sobre como suas habilitações são validadas. Agora sabemos.
Não clicou? Tudo bem, eis o lide: o Detran do Rio vai isentar da prova teórica de renovação de carteira os motoristas profissionais que preferirem apenas freqüentar um curso sem avaliação. A justificativa é que as reprovações são muito numerosas, talvez porque muitos deles não tenham intimidade com o computador. Claro. Em vez de fazer provas em papel, arcaicas, o melhor é não fazê-las at all, evitando as freqüentes demissões.
Soluções do tipo "vender-o-sofá-em-que-a-mulher-estava-com-seu-amante-quando-o-marido-chegou" são bem a cara do Brasil, especialmente do Rio, onde a suspensão de multas ocorre de dois em dois anos. É só esperar.
Mas esse caminho deve nos preocupar, principalmente pelo precedente. Daqui a pouco, vai que um governo populista resolve fazer o mesmo com estudantes que não conseguem passar no vestibular.
Posted by Bruno Rabin at 09:52 PM | Comments (0)
November 01, 2007
33, diga 33.
Sempre que alguém dizia estar fazendo 33 anos, minha avó comentava algo sobre ser a idade de Cristo, como se outras ele não tivesse tido. Agora é a minha vez e, francamente, se a metáfora compensa a blasfêmia, também me sinto crucificado.
Posted by Bruno Rabin at 10:50 AM | Comments (6)
October 29, 2007
Clichê na sala escura
Há um truísmo a respeito do cinema que está fazendo uns cem anos, mas continua a fazer sucesso entre gerentes de R.H.: "Ah, mas o livro é muito melhor que o filme!"
Lógico. É um filme. É preciso que o livro seja muito ruim para que o filme o supere. Mas aí também não há sentido: quem produziria, dirigiria, estrelaria um filme baseado em um livro muito, muito ruim? E quem assistiria a esse filme? (Hummm, temos o Tarantino, é claro, mas as exceções, vocês sabem, ...)
Poderíamos deixar estabelecido de uma vez: livros são melhores que filmes — o que não torna os filmes necessariamente ruins. Por isso mesmo é que os cineastas têm procurado a literatura como fonte; nunca se viu o contrário.
André Bazin costumava dizer que as adaptações para o cinema — se não forem boas em si mesmas — têm pelo menos a vantagem de divulgar para o grande público um autor de qualidade. Com mais alguns leitores, a literatura só teria a ganhar (ou perder, se a conta for qualitativa).
Posted by Bruno Rabin at 03:53 PM | Comments (1)
October 27, 2007
Já se tentou modificar muito o marxismo; trata-se de interpretá-lo

Dos relativismos contemporâneos, o mais curioso é aquele que pretende reduzir ideologias, sistemas filosóficos e políticas ao discurso da professora "antenada": "Olha, na verdade, é claro que a esquerda tem coisas boas, assim como a direita tem lá sua razão; o importante é não exagerar", diz, enquanto lambe os dedos do chocolate derretido que sempre carrega na bolsa. Ensina ela que é da boa educação discordar só um pouquinho, como quem pede desculpa pela grosseria.
O radicalismo se tornou, para muita gente, o contrário do que é (ou deveria ser): irracionalismo, ao invés de inteligência na raiz. Por isso, nos 40 anos da morte de Che Guevara e 90 da Revolução Russa, fala-se muito em revisão histórica dos mitos e no retorno de conversas do tipo não-é-porque-esse-modelo-de-socialismo-não-deu-certo-que-a-idéia-em-si-morreu. Parece difícil, para essas pessoas, perceber que a teoria não é uma menina de cabelo arrumadinho, sempre pronta a ajeitar um fio solto, antes de sair e que, por isso mesmo, nunca sai. Ou sai, e o vento lhe bagunça tudo. "Mas eu juro que ela é bonita. Foi o vento que desarrumou."
Também não se percebe que é difícil aceitar certas verdades pela metade. Às vezes, dá pra partir a coisa em pedaços, pegar uma parte boazinha e jogar o resto fora; na maioria dos casos, porém, sobretudo em posições políticas e (custa dizer) ideológicas, não se pode ficar com um pedaço sem aceitar sua premissa. É um problema de lógica.
Por outro lado, fica-se espantado com a persistência de tanta gente em esquerdismos, socialismos, marxismos e afins - apesar de tudo: evidências e premissas. Posso estar errado, mas acho que é só uma questão de marketing, muito melhor na esquerda do que na defesa da economia de mercado, por paradoxal que pareça. O vermelho é a cor das cores; a foice-e-o-martelo, fortíssimos; o herói é mais charmoso; as citações, mais românticas; e até o hino é mais bonito. A propaganda faz a gente esquecer muita coisa do produto. E sempre que ela atenta contra a razão, pensamos: "Mas, que diabo, não vou deixar de querer esse chocolate só por causa das calorias". E, no fundo, não deixa de ser irônico que justamente a publicidade seja a força que faz da esquerda uma mosca que não larga esta sopinha. Nisso, a esquerda se rende; e a direita também. No que ganham os marrons. Aleluia.
Posted by Bruno Rabin at 03:48 PM | Comments (11)
October 23, 2007
Arrrrnaldo Jaborrrr
Arnaldo Jabor é o Galvão Bueno da política e da cultura: Faz lá o dele, gritando como pode e se indignando bastante, inclusive a favor. Aliás, coisa bem interessante essa de se indignar a favor. Chega a ser uma revolução na arte da polêmica: concordar com tudo, mas balançando a cabeça de um lado para o outro, dizendo "tsc-tsc-tsc".
Jabor se faz de analista da pós-modernidade, muito embora pareça que a pós-modernidade seja uma invenção dele para justificar, como sintoma, a própria verborragia, quase sempre chamuscada de erudição. E riso vulgar a contento. E cinismo também. E um terno desalinhado às vezes. E bastante cuspe enquanto fala.
Volta e meia, ele fala de "novidades" como a desreferencialização do real, o fim das fronteiras, a falência de utopias e ideologias. Repete o mantra (agora a gente tem que usar essa palavra, "mantra", quando fala de alguma repetição, já viram?) da inexistência de esquerda e direita, da necessidade de ultrapassar o maniqueísmo. Engraçado. Se não me falha a memória, em 82,6% de seus artigos, Jabor faz reduções do tipo "Antigamente" x "Hoje", inclusive no texto de hoje, nO Globo.
E justamente sua melhor qualidade - a de ser ex-cineasta brasileiro, num país em que todo mundo é cineasta-wannabe - também está indo pro brejo: ele está rodando outro filme. Sugeriram como título "Eu te odeio", mas ele achou que era elogio.
Posted by Bruno Rabin at 06:23 PM | Comments (3)
September 30, 2007
Arte conceitual, comme il faut
A arte conceitual, quase sempre, propõe o desapego pelo suporte único. Daí a preferência por multimeios, instalações, impurezas - como se a idéia impusesse os meios expressivos e o artista fosse livre para fazer misturas. Parece-se um contrasenso. Por que justamente o conceito, a imaginação em essência e pureza, se verteria em linguagem múltipla? Não deveria ser exatamente o contrário - a mais pura forma para o mais puro sentido? Mas, não. Nem isso. A linguagem pura, inexistente, seria um sinal de menos, para o conceito.
Melhor seria como propunha um velho professor (a quem devo a libertação de ter me mostrado que eu não conseguia finalizar uma monografia sobre Manoel de Barros, porque tinha descoberto - e não sabia - a chatice disfarçada de sabedoria para ator da Globo daqueles poemas), mas esse velho professor costumava descrever instalações e projetos multimídia para comentar, piscando o olho esquerdo, que a obra criada naquele momento já existia. É isso: obra conceitual radical não pode existir senão como idéia. Aliás, nem a descrição serviria; a pureza do conceito merece a incomunicação do não-dito. O que não se pode dizer deve-se calar, já disse o outro. E assim, caladinhos, artistas conceituais poderiam criar suas obras mentais, sorrir, vibrar e voltar a criar, uma após uma, suas peças virtuais, em busca da síntese mais pura do pensamento (ou de uma lista de substantivos abstratos, já encontrável em dicionários, é sempre bom avisar).
Teriam problemas em vender suas criações, é verdade. Mas isso apenas até a telepatia funcionar. Talvez nem precisassem vender nada, desde que o MinC garantisse a renúncia fiscal para essa arte do não-dizer. Boa forma de lavar dinheiro, com a vantagem de dispensar a hipocrisia - ou levá-la ao limite, o que dá no mesmo. E o mais importante: o pintor poderia voltar a pintar; o escultor, a esculpir; e o músico, a compor - cada um livre do conceito e da radicalidade, para sempre concentrados na imaginação do artista autista.
Posted by Bruno Rabin at 01:28 PM | Comments (0)
September 27, 2007
A boniteza das palavra
Desde a criação do PSDB e, sobretudo, durante a Era FHC, foi piada corrente o eufesmismo em-cima-do-muro do discurso político tucano. Fome era "estado de vácuo estomacal" e desemprego, "suspensão temporária de atividade profissional". O politicamente correto é sempre caricatura; e caricatura é sempre piada.
Não para todos. O PT e o Lula vão pelo mesmo caminho, como o estudante medíocre que reúne meia dúzia de substantivos com mais de oito letras para impressionar o professor. Do eufemismo, guardam apenas a prolixidade. Um dia, é a "Secretaria de Planejamento de Longo Prazo"; no outro, o "Plano Nacional de Enfrentamento das Mudanças Climáticas". Imaginem a reunião em que se criaram esses termos, a diversão do redator com sua sugestão, diante do olhar invejoso dos outros. E o Lula achando tudo de uma boniteza que só.
Não há mal nisso, minha gente. No Brasil - olhem para o lado - o que não é eufemismo?
Posted by Bruno Rabin at 06:34 PM | Comments (0)
September 25, 2007
O que se diz; o que se ouve
Preciso fazer uma série sobre diálogos que tenho ouvido na hora do almoço. Gosto muito de pegar uns pedaços de conversa, mas minha memória funciona mal. Este, pelo menos, eu anotei:
- Então você é vegetariano! Não come carne mesmo?
- Não.
- Não sabe o que está perdendo. Mas, olha, respeito muito sua escolha.
- Tudo bem, eu também respeito a sua.
(Esse é o post de ontem, dentro da campanha "Um post por dia". Estava pronto, mas acabou não indo ao ar. Ainda hoje, tem mais.)
Posted by Bruno Rabin at 12:20 PM | Comments (0)
September 23, 2007
Duas ou três coisas sobre a polêmica em torno dos livros didáticos aprovados pelo MEC
1) Desde o governo Fernando Henrique, na gestão Paulo Renato, a escolha dos livros didáticos é feita pelos próprios professores, a partir de uma lista de aprovados pelo Ministério. Se, ao que parece (google, pessoal), cerca de 50 mil professores de história do país escolheram os livros de Mário Schmidt, num processo democrático, a que conclusão se pode chegar: a) os livros são bons, e o Ali Kamel está errado (é assim que funciona a democracia)?; b) os livros são ruins mesmo, e os professores de história estão errados (é a ssim que funciona o bom senso)?
2) A mediocridade de alunos e professores dificilmente os levará a algo além da mediocridade. Estão nos livros elogios a Mao, simplismos sobre o capitalismo, blá-blá-blá, mas isso não faz a menor diferença. A maioria dos estudantes não lê; quando lê, não entende o que leu. E mesmo que não houvesse nada disso nos livros, os professores se encarregariam de dizê-lo - e isto seria muito mais verdadeiro para as crianças do que a página impressa (até hoje me lembro da professora de literatura que não gostava de Drummond e dizia que ele era elogiado demais. E não?).
3) Quer dizer que Mao era pegador? (Tá vendo? A gente aprende muitas coisas nesses livros. Onde tem para vender?)
Posted by Bruno Rabin at 11:14 AM | Comments (0)
September 21, 2007
Escritores e pedagogas
No telejornal de hoje, a pedagoga - aliteração gaga, que diz muito sobre a profissão da dita cuja - falava sobre a bienal do livro, destacando que as crianças têm a oportunidade de conhecer os autores e desmistificar a figura do escritor, ver que eles são pessoas de carne e osso, enfim, ver que são gente como a gente, que roem a unha e têm bafo.
Sei não. Além de achar perigoso as crianças identificarem escritores com as "tias" do colégio, acredito que a maior parte do gosto pela leitura é imaginar o autor como ser inalcançável. Qual a graça de ler um conto de Borges sabendo que ele derramava a sopa como se babasse?
Por falta de mito, corre-se o risco de ver mais crianças se transformando em adultos que acham que podem escrever, que escrever é para qualquer um, que escrever é uma coisa cotidiana, que escrever é como dar um arroto. Daqui a pouco, imaginem, algumas dessas crianças podem chegar ao cúmulo de criar blogs e postar um texto por dia. Aonde chegaremos?
Posted by Bruno Rabin at 12:47 PM | Comments (0)
September 17, 2007
E se “Tropa de Elite” fosse também uma denúncia da pirataria?
E contam que se trata de um “soco no estômago” - pior, “no fígado”, ou ”no pâncreas”, (que devo ter lido por aí, muito embora me tenham dito impossível esse soco. Disseram-me isso os entendidos em anatomia, coisa que os críticos devem achar pra lá de bacana, pois que metáfora pura, sem referente no real, é a força crua, perfeita para o filme) - “soco no estômago”, eu estava dizendo. E isso diz mais de quem fala do que do filme.
Não deixa de ser curioso o fetiche em torno dele, da violência crua, da verdade, da denúncia, da falta de perspectivas, das contradições (que mais? que mais?), da audácia, do despudor (não desista, não desista), da cidade, da vida, do Brasil, dos Brasis... Esses que o vêem, que o compram nas ruas, que o baixam na rede, justamente esses olham para o filme como se diante da pornografia, e se excitam. Ouvi dizer até que “o filme é muito legal”. Esse foi o adjetivo, “legal”, como poderia ter sido “empolgante”, ou “arrebatador”. “Legal”, disseram. E o disseram sobre “Tropa de elite”, que fala do BOPE, sabem? É ou não é um filme sobre o BOPE? É ou não é um filme sobre tortura, corrupção na polícia e afins? E o filme é “legal”.
Posted by Bruno Rabin at 06:27 PM | Comments (0)
September 16, 2007
Animais
Durante muito tempo, eu quis gostar de touradas. Mas, invertendo a lógica da pena — que recomenda defender os mais fracos —, sempre fiquei do lado dos bichos, gostando pouquíssimo de vê-los à morte. Apesar disso, defenderia a tourada. Só não gostaria de vê-las, e o problema é meu.
Não me parece razoável, portanto, querer estender aos outros um defeito de sensibilidade individual. Se tenho pena de touros ou galos, basta que não assista aos embates.
Boa estratégia para os defensores dos animais submetidos a barbaridades desumanas — "desumanas", você leu certo — transformar essas práticas em crimes ambientais. Convém incomodar: não seria crime ambiental de verdade impedir galos-de-briga de brigar?
Posted by Bruno Rabin at 10:19 PM | Comments (0)
September 13, 2007
Dar um Pavarotti
Pavarotti foi um ídolo. Por metonímia, esclareça-se. Num grupo de amigos, convencionou-se que, sempre que alguém passava do limite do bom senso, estava "pavaroteando" ou "dando um pavarotti". Tudo sempre relacionado a discussões e argumentos.
Dar um pavarotti é sempre muito útil quando se está afundando no meio de um debate. Não podendo garantir a adesão de outros a um ponto de vista que lhe pareça óbvio, o sujeito apela. E discussão costuma ir ao limite. Um Pavarotti puxa outro, e as coisas perdem seu rumo.

Pois bem, nesse grupo de amigos (amigos que trabalham juntos, é bom que se diga), isso nunca acontece. Quando alguém vai nessa direção, um dos outros sempre puxa uma voz sonoríssima para gritar "Pavaroooottiiiii", dissolvendo toda seriedade insensata que pudesse restar.
Depois de um Pavarotti, as coisas voltam ao ponto de onde nunca poderiam ter saído. Perde-se em graça e malemolência. Ganha-se bastante em produtividade. Com a "senha" do Pavarotti, nenhuma discussão ultrapassa meia hora. Recomenda-se para administradores, gestores e outros infelizes.
Posted by Bruno Rabin at 07:16 PM | Comments (2)
September 12, 2007
Bons tempos
E haverá quem subverta a segurança tecnológica para mandar sinais de fumaça durante a sessão? Porque, nesse caso, procurei me informar, nem mesmo com pay-per-view.
E ainda há uma defesa e uma acusação, coisas que só interessariam quem está de fora. Lá dentro, não há sensibilidade ao argumento explícito. Daí que, de uma próxima vez, transmita-se pelo menos o jogo, ainda que sem direito à disputa por pênaltis.
Nessas horas, faz falta o ACM para a gente poder saber como ficou o placar da votação.
Posted by Bruno Rabin at 05:07 AM | Comments (1)
September 11, 2007
Um post
Para não me acusarem de fraco. Ou para não terem razão. Um post por dia, nem que seja assim.
Posted by Bruno Rabin at 11:40 PM | Comments (0)
September 10, 2007
Coisa finíssima:
postar o vídeo do You Tube com o anúncio do Estadão difamando blogueiros.
(E aproveito para declarar que, sim, o Bruno do anúncio sou eu mesmo, um farsante - como já se sabia. Mas essa imprensa não acerta uma: imaginem só, dizer que meu blog é de economia...)
Posted by Bruno Rabin at 07:46 PM | Comments (0)
September 07, 2007
Humilhação; humildade
O testemunho de autoridade tem matizes de todos os tipos. Serve tanto à escassez de idéias próprias quanto à sua abundância - quando as referências se embaralham para criar alguma novidade, um riso que seja.
Para alguns, trata-se sempre de uma evidência do pedantismo de quem cita. Qualificação interessante essa de pedante. Varia muito entre pessoas. Mostra mais a estupidez de quem qualifica do que um defeito de quem fala; porque o pedantismo é um conhecimento alheio que nos diminui. “Ele não precisava ter mostrado que sabe isso”, diz-se, cheirando a inveja, como se a falta de “necessidade” não fosse justamente o que mais liberta o citador.
O grau de intolerância com citadores não é uniforme: varia de acordo com o autor citado, indo da rejeição máxima — um teólogo norueguês “obscuro” — à aceitação simpática — um desses fiolósofos do futebol. Ou seja, não há relação com o citar em si, o que só prova o argumento.
Por falar em “si”, há uma forma radical e pura de citação, que é quando o sujeito cita a si mesmo: “É como eu sempre digo, isso aí vai dar merda!” Que auto-estima! É quase como colocar o próprio livro na bibliografia. Ser exemplo de si mesmo é, possivelmente, a maior segurança intelectual possível. Ou falta de vergonha na cara. Tanto faz.
Posted by Bruno Rabin at 05:20 AM | Comments (0)
July 29, 2007
Do vôlei (III)
O problema do Bernardinho não é a covardia ou a eventual canalhice. É apenas a falta de bom humor. Daí esse compromisso imaturo com a seriedade que, paradoxalmente, beira o ridículo. Claro que isso não tem qualquer relação com a competência; é apenas questão de caráter, but who cares?
Posted by Bruno Rabin at 05:45 PM | Comments (0)
July 28, 2007
Do vôlei (II)
Brasileiros que têm horror ao Galvão Bueno devem estar vibrando com a narração das partidas de vôlei. Como há menos enrolação que no futebol ou na Fórmula 1, ele fica quase impedido de fazer comentários sobre assuntos, humm, “maiores”, como reflexões acerca das diferenças culturais entre países com índice pluviométrico alto e países em cujas bandeiras existem estrelas amarelas.
Posted by Bruno Rabin at 08:00 PM | Comments (0)
Do vôlei (I)
Nas partidas de vôlei, o cara quem tem alguma espécie de TOC deve ficar mais tenso nos intervalos do que no próprio jogo. Ou vocês não têm reparado no descuido dos limpadores de quadra, que insistem em perder o alinhamento logo na primeira passada?
Posted by Bruno Rabin at 07:51 PM | Comments (0)
July 26, 2007
As vaias do Rio
A polêmica do momento aqui no Rio são as vaias indiscriminadas a atletas de todo e qualquer país durante o Pan. Polêmica nada, porque só se fala sobre o quanto isso "prejudica nossa imagem lá fora".
Duvido. Primeiro, porque o Brasil não existe. Segundo, porque se existisse, não custa lembrar que centenas de pessoas acabam de morrer numa tragédia com todos os ingredientes para o jornalismo de minissérie. Terceiro, porque é possível que, "lá fora", se enxergue nas vaias a maldade na cidade do oba-oba, e essa maldade talvez represente uma personalidade que nos falta.
Não há maldade nas vaias, nem personalidade. Aliás, não há nada que não seja o puro prazer da estupidez. (Sim, porque a estupidez é prazerosa, posso assegurar. Tenho dado aula para adolescentes que espancam domésticas ou prostitutas - metaforicamente, até onde sei.) O Rio é o irmão mais velho daquele nosso amigo, que está sempre com um riso no canto da boca, à nossa espera para dar um cascudo.
Nem Cuba se salva das vaias - ao contrário do que poderíamos esperar. Nenhuma ideologia supera a iconoclastia. As vaias não seriam nada; nem valeria a pena escrever sobre elas, a não ser pela conseqüência óbvia de acabarem salvando todos os vaiados: quem vaia até um mesa-tenista jamaicano desqualifica a própria vaia - mesmo seja contra o presidente.
Posted by Bruno Rabin at 07:06 PM | Comments (1)
March 24, 2007
Etimologia selvagem
Estou acabando de ler um dicionário etimológico e não fico satisfeito enquanto não decorar tudo. Mas é pouco. Preciso de mais palavras para realizar um sonho: levar ao limite da paciência meia dúzia de pessoas para quem etimologia e verdade são sinônimos.
Não bastasse ter que ouvir gerentes de R.H. falarem “pré-conceito”, assim como muita ênfase no prefixo (gerentes de R.H. adoram prefixos, mas adoram “ênfase” acima de tudo, palavra que pronunciam devagarinho, mexendo a cabeça pra cima e pra baixo, em sinal de profunda sabedoria). Tá bem, não tenho ouvido gerentes de R.H. dizerem isso; acho que nunca vi uma gerente de R.H. de verdade. Mas conheço muitas pessoas assim, pessoas que ainda não descobriram a vocação e já consideram o Jô uma pessoa muito inteligente, confessam gostar de novela, sim, e dizem ter “cometido” alguns poemas na vida.
Digressiono.
O fato é que essas pessoas presas à etimologia me irritam. Isso já seria o bastante para eu querer irritá-las. Com carinho (e eu tenho muito carinho por alguns animais), vocês não têm nada a ver com isso. Mas eu não escolho os leitores deste blog (chegarei lá, vou logo avisando), e o pessoal adora um fundamentozinho. Então é o seguinte: gente que fica falando a origem das palavras, apesar da qualidade do pedantismo (que me causa alguma inveja, devo confessar), geralmente acha que a etimologia é o fim de tudo, como se não fosse justamente o contrário. Como se “inveja”, de “invidere”, “lançar um olhar para dentro de algo” fosse então toda (a) inveja.
São as mesmas pessoas que fazem questão de dizer o tempo todo que “a língua é um organismo vivo, uma essência mutante”, me fazendo lembrar o cocô de agora há pouco. Falam, achando que pensam, e não pensam no que falam (essa frase, se essa gente ler, vai anotar no caderninho, pode escrever aí!). Não deixa de ser curioso: só mesmo um sujeito que desconheça o sentido de evolução pode achar que a palavra é o que era. (Até que faz sentido...)
Bem, mas o que queria contar é sobre essa minha idéia de sair disparando a origem de todas as palavras. Interromper o discurso nele mesmo, a cada instante, numa auto-referência ao infinito, que impossibilite qualquer conversa e qualquer resposta. E no meio disso todo, posso até recuperar uma de minhas maiores virtudes, abatida em pleno vôo pela professora da sexta série, que é a de fazer “etimologias selvagens”.
Tendo descoberto o sentido do prefixo “pro-” e o grego “polis” e querendo impressionar a professora novata de português (novata e muito charmosa, com uns olhos levemente vesgos e um sotaque do sul), enfim, para impressioná-la, disse que ela deveria tomar própolis para curar a dor de garganta. E expliquei: “própolis, sabe, professora? Aquilo que é anterior à cidade, o campo, a natureza.” Ela não conhecia Heidegger; nem eu. Mais um talento perdido.
Ou então eu desisto mesmo. Pouco importa.
Posted by Bruno Rabin at 07:40 PM | Comments (5)
February 20, 2007
O Messias
O Messias me salvou. O Messias me mostrou o caminho. Foi há poucos dias. Eu estava perdido, mais: eu estava desencontrado. Ainda ouvia uma voz rouca me dizendo: “É preciso seguir em frente, sempre em frente, até ver um campo vazio à esquerda.” E eu segui, quase sempre em frente, mas o caminho era tortuoso, não havia como andar em linha reta. Tive de virar à direita, escolher à esquerda numa bifurcação, até me perder por completo.
Foi quando o avistei: o Messias. Ele levava uma mochila no ombro direito e vestia uma camisa de botão aberta pela metade. Humilde e com algum medo, resolvi me aproximar. Fui chegando, meio de lado, devagarinho, encorajado pela própria aproximação do Messias. Ele me olhou com um olhar terno, que se abriu num meio sorriso à medida que me aproximei. E perguntei: “Senhor, eu preciso de uma ajuda. Estou perdido.” E ele me iluminou, apontando pra o único lugar que eu não havia visto ainda. Eu havia chegado ao meu destino e não sabia. Tantas voltas para voltar quase ao mesmo lugar.
Algumas coisas são assim; a gente precisa perder o rumo para encontrar o caminho. Mas eu quase me perdi por completo, se não fosse o Messias, eletricista, desempregado, chegando ao bar perto de sua casa, que me mostrou o caminho. Andar na Zona Norte tem dessas coisas.
Posted by Bruno Rabin at 08:34 PM | Comments (3)
November 26, 2006
A metáfora é:
“Com ou sem açúcar?” Silêncio. “Doutor, o seu suco é com ou sem açúcar?” Olhei para o lado, não vi ninguém. Respondi que sim. Prefiro a culpa diluída. Das coisas mais brancas, só o açúcar é impureza. Essa cor imprópria, e o perfume doce: quase pornográficos. X-rated food. Esse açúcar dito assim inteiro era pra ser metáfora de alguma coisa — ele próprio metonímia da doçura impura. Mas o dia não amanheceu para a imaginação. Talvez da próxima vez.
Posted by Bruno Rabin at 11:22 AM | Comments (6)
July 25, 2006
Uma câmera na mão, muita idiotice na cabeça
Deleuze escreveu um tomo para falar da imagem-tempo. Confirmou que devíamos gostar mesmo de Marienbad. Hoje, basta ter uma câmera digital à disposição. O genial e o idiota se sentam lado a lado. Isso não é pouco.
Posted by Bruno Rabin at 11:53 PM | Comments (3)
As palavras e as coisas: estudo de um personagem
Há palavras que, se a gente pensar bem, não consegue dizer. Ou consegue, mas precisaria ter outro nome na identidade. João Paulo, por exemplo, não dá um bom apreciador de drinks. Ninguém aprecia drinks impunemente; sobretudo, ninguém pronuncia a palavra drink impunemente. É questão de caráter. Talvez fosse o caso de se chamar Augusto. "Prazer, Augusto. Você aceita um drink?" Quem oferece drink costuma ligar a TV para ver o "repórter". Não é questão de idade. Pode-se ter dezessete anos e aristocracia suficiente, ou nenhuma, para ver o repórter à noite. Quem assiste ao repórter apreciando um drink deveria se chamar Augusto. Talvez Adolfo. E Adolfo, ou Augusto, quando precisa destratar alguém, apela logo para o único adjetivo que lhe cabe: "cretino". Aliás, quem aprecia drinks e vê o repórter nem mesmo usa adjetivos; ao xingar, por exemplo, dá o defeito inteiro: "Cretinice". "Estupidez". "Insubordinação". Palavras ditas em voz baixa, quase sussurada, ao cão de guarda sentado à frente. Mas quem toma drink e vê o repórter não tem cão de guarda, ou não se chama Augusto. Deixa pra lá.
Posted by Bruno Rabin at 08:20 PM | Comments (2)
Soberba
Os pequenos defeitos dão as melhores pequenas histórias. Não é mesmo interessante o ar superior com que passam os que acabam de sair da sessão de cinema olhando aqueles pobres coitados que ainda estão à espera do filme? Estar um filme à frente dos outros, eis a raiz dessa humilhação. Depois reclamam das guerras.
Posted by Bruno Rabin at 12:21 AM | Comments (1)
June 15, 2006
Futebol Arte [repost]
Não são poucas as partidas de futebol que terminam sem um placar justo. Mas é lógico: tempo de posse de bola não conta, os juízes têm uma vaga percepção do que está acontecendo e os gols são raros — se comparados à pontuação de qualquer esporte coletivo. Ou seja, não se trata de competição de verdade.
Isso posto, podemos esclarecer um mistério antigo: como um país com resultados tão medíocres em quase todos os esportes pode ser tão brilhante no futebol? Ora, quem disse que futebol é esporte? Romário por acaso é atleta?
Nas últimas Olimpíadas, onze da noite em Atenas, um americano garantiu a medalha de ouro ao superar 5m95 no salto com vara. Vitória olímpica, recorde idem. O público já estava saindo quando o tal atleta resolveu continuar a competição contra ele mesmo. As regras permitem, e ele teve três chances para alcançar os seis metros, aumentando seu recorde. Não conseguiu, estava cansado e só havia superado a marca anterior na última tentativa, mas ele insistiu mesmo assim. Exagerado, é verdade, mas cá pra nós: seria sequer concebíbel um “atleta” brasileiro fazendo o mesmo? E um jogador de futebol?
Isso posto, considere-se a hipótese de mudar um pouco as coisas, a começar pelo status do futebol. Por que não inseri-lo na categoria dos saltos ornamentais ou da ginástica artística? Notas por coreografia — no caso, dribles e outras jogadas —, avaliação da originalidade, adequação à trilha sonora, o que seja, desde que outros critérios, além do gol, sirvam para um resultado mais justo.
“Mas isso pode produzir ainda mais injustiça”, dirão os céticos. Tudo bem, pelo menos poderemos culpar os juízes com um mínimo de decência. De mais a mais, quem se importa?
Posted by Bruno Rabin at 03:59 PM | Comments (3)
April 27, 2006
Dalai Lá e eu cá
A matéria do Jornal da Globo fala do Dalai Lama e de como o Budismo está se tornando a segunda religião de muita gente. Duas coisas curiosas: as trapalhadas da vocação antropológica do jornalismo e o mérito da questão, se é que há algum.
Quanto ao jornalismo, ninguém supera a revista Época. “Os cariocas estão andando mais de bicicleta.” “Surfe sobre árvores é a nova tendência do esporte.” “Mulheres querem voltar à cozinha.” Depois que a realidade superou a ficção, o noticiário mais banal vale algumas vezes a reportagem de fôlego. No vácuo dos assuntos que rendem e com a economia da apuração por telefone, vale qualquer besteira.
E, afinal, o que dizer da visita do Dalai Lama a São Paulo? Se não foi paradoxo proposital — e por isso irônico —, a escolha da cidade é coisa que intriga. Mas deve haver algum nexo com a presença simultânea de Hugo Chávez por lá. Talvez a mensagem de que o gasoduto defendido por ele seja coisa do além. Não se sabe.
Melhor pensar que o Dalai Lama — igualzinho ao ator que o representou na Armação Ilimitada, faz um tempinho — esteja em campanha pelo segundo lugar mesmo. Uma espécie de SBT das religiões. E num país que elege Lula pela simpatia, faz sentido adotar o Budismo como crença: o cara é gordinho, usa umas roupas legais e ajuda mais na conquista amorosa do que o horóscopo (“Os signos são muito impositivos, sabe? Minha espiritualidade é mais livre e desprendida...”).
Mas não vai dar certo. O melhor para um culto assim é a distância: a Índia lá e a gente aqui. A visita ao Brasil dá imagens de mais para os jornalistas. Não vão faltar matérias, interpretações, crônicas e posts patetas. Nada melhor para um país iconoclasta e politicamente incorreto — no sentido incorreto da política e incorreto da incorreção (mas isso é assunto para outro post).
Posted by Bruno Rabin at 12:05 AM | Comments (6)
February 14, 2006
Da gentileza
Minha avó era cantora lírica em um coral. Fazia o papel de contralto, embora fosse mezzo soprano, como costuma suceder a muitos corais mundo afora. Costumava acompanhá-la nos concertos, menos por gosto ou compreensão musical que por adesão à causa clássica — e aristocrática, pois se tratava de ir ao Municipal durante a semana. Acho que eu fui o único neto a se interessar por esse lado musical dela, mas não o suficiente para aprender alguma coisa.
De tudo, ficou pelo menos uma observação arguta acerca da gentileza alheia, quando ela se ria dos amigos que iam cumprimentá-la após uma apresentação: “Sua voz estava linda!”, diziam sempre, desconhecedores que eram da natureza do canto coral.
Esse episódio me veio à memória estes dias, a propósito da piada contada por Lula numa roda de autoridades africanas. Algo sobre o quanto o homem piora as coisas em seu ímpeto de modificar tudo, até mesmo o que já seja perfeito. Seria apenas uma idéia, não fosse a imagem usada para ilustrá-la: um cavalo transformado em camelo.
Nenhuma sensilibilidade é melhor que alguma sensibilidade. Em tempo de deseducação, um pouco de delicadeza pode parecer bem-vinda em qualquer circunstância. Não é. Sem manuais, acabamos por elogiar a voz de pessoas em um coral. Ou espinafrar camelos em plena África.
E, antes que alguém faça a analogia imprópria, nada disso se aproxima do episódio das charges na Dinamarca. Lá, havia a inteligência a serviço do politicamente incorreto; nada que se assemelhe à grosseria involuntária de quem, ao contrário, quer parecer gentil.
Posted by Bruno Rabin at 07:00 AM | Comments (3)
January 29, 2006
Pornografia
Entre as coisas menos agradáveis: ouvir poesia lida em voz alta. A leitura de um poema é coisa íntima, personalíssima. Daí o constrangimento de ouvir alguém recitando; é como escutar seus sussuros e gemidos sexuais, com a diferença da libido ausente.
Talvez seja bom ler poemas para os outros. Algo comparável a atuar em uma peça de teatro ou tocar um blues: prazer de quem faz, pé no saco de quem escuta. Que tipo de pessoa gosta de uma coisa dessas: fazer do próprio prazer o desprazer alheio?
Posted by Bruno Rabin at 11:57 AM | Comments (10)
January 22, 2006
Tattoo caminha dentro?
Porque são tatuadores, tatuadores desconhecem a ironia. Felicidade de quem coloca “palavras” em japonês: tem certeza de que ali se inscreve Vida, Amor ou Trovão do Norte, e não Yakisoba de Camarão.
***
Dá pra conhecer muito de uma pessoa que faz uma tatuagem. Sabe que vai ter uma marca “eterna” no corpo; por isso, reflete muito, estuda possibilidades e finamente faz sua escolha: uma águia segurando um pote de geléia sobre um livro de química.
***
Um conhecido, preocupado com a tal eternidade, decidiu que só mesmo a imagem de seu ídolo — Che Guevara ou Bob Marley, não lembro, mas acho que dá na mesma — seria digna de ficar marcada na parte interna do braço para sempre. Olhei bem a cara do sujeito. Será que ele não pensou se o coitado do homenageado gostaria de ficar para sempre ali perto daquele sovaco nojento? Nem Che merecia uma coisa assim. Ou merecia?
***
Eu, se fosse fazer uma tatuagem — bem, não seria eu —, mas se fosse fazer uma tatuagem, pensaria numa coisa útil, como os canais da Net; ou então a palavra “coisa” (“Eu tenho uma coisa tatuada, você quer ver?”). Mas acho que acabaria chegando a uma síntese borgiana e tatuaria “tatuagem”.
Posted by Bruno Rabin at 03:29 PM | Comments (25)
October 09, 2005
Offline
A areia movediça do filme do Flash Gordon foi, durante muito tempo, meu pesadelo pessoal. Todo cuidado era pouco ao andar por lugares pantanosos, e havia muitos deles na minha infância. Acho que foi por isso que gostei tanto de ter me mudado para a cidade grande. Com o tempo e a distância, o medo foi desaparecendo.
Hoje, não sonho mais com areia movediça — o que não significa que o pesadelo tenha me abandonado; apenas mudou de lado. Passou para a vigília e ganhou a forma cínica de metáfora.
Posted by Bruno Rabin at 09:08 PM | Comments (7)
September 24, 2005
Lado A, Lado B
Segundo um amigo, existem coisas Lado A e coisas Lado B. Do Lado A, Atari, Coca-cola, Flamengo, Caloi, Beatles; do Lado B, Odissey, Pepsi, Fluminense, Monark, Rolling Stones. Conhecer essa distinção implica escolher um lado; e escolher um lado implica pré-determinar todas as proximas escolhas.
Percebê-lo tirou um peso da minha consciência. Afeito a listas, hierarquias e toda espécie de injustiça, tinha dificuldade em me decidir entre Drummond e Bandeira — A e B, respectivamente — quando me perguntavam sobre o melhor verso destas bandas. Não tenho mais.
Posted by Bruno Rabin at 10:22 PM | Comments (4)
September 12, 2005
Diante do álbum antigo
Quando vejo essas “pessoas que se vendem para o sistema”, fico com muita inveja. Não cobrei nada; nem mesmo insinuei um valor simbólico. E achei que era esperto não me filiar à causa estudantil ou a alguma comissão democrática em favor das vítimas de uma tragédia qualquer. Antes tivesse valorizado meu passe, embora não me pareça razoável que o sistema quisesse me pagar alguma coisa.
Agora que descobri o valor do dinheiro, sinto a nostalgia da febre ingênua, quase agradável, da noite virada com os companheiros que nunca tive. O cinismo — ninguém me avisou — já era a forma menos lucrativa de viver. A ironia, a fonte menos fecunda das fotos mais bonitas, aquelas que vão desbotando aos poucos, num descolorido que costumo chamar de tempo.
Posted by Bruno Rabin at 10:05 PM | Comments (1)
September 01, 2005
Nunca elogiei ninguém; começo por um político e me arrisco a ser expulso do Apostos, mas vá lá
Ser moralista tem suas desvantagens. Perde-se o Gabeira, por exemplo — porque seqüestro é seqüestro, e só mesmo um argumento comprometido com a “causa” pode servir de pretexto. Como o que se quer aqui é ganhar o Gabeira, deixemos o seqüestro de lado.
Há em mim um certo desconcerto em dizer que ele é o cara, mas vá lá: o Gabeira é o cara. Antes de todo mundo, veio com o papo da nova agenda, começou a falar do verde, sempre percebendo que a discussão ideológica era uma furada e uma perda de tempo. Lembro-me da campanha de 86, aqui no Rio, quando ele puxou o abraço à Lagoa; era uma novidade e era contagiante — pasmem os mais novos. Depois passou a falar sobre legalização da maconha, discussão menos interessante pelo conteúdo do que pela impopularidade. Gabeira sempre preferiu dizer o que pensa; poderia ser pouco, mas tem sido raro.
Na política partidária, a mesma coisa. Enquanto a esquerda transformava neoliberalismo em palavrão, votou a favor da quebra do monopólio da Petrobras e chegou a entender as privatizações. Quando o Partido Verde começou a virar circo, foi para o PT. Quando o PT virou o que sempre foi, saiu fora. E saiu sem dizer adeus para as câmeras, de mansinho, percebendo, sempre antes da manada — e sempre contra a manada —, que aquilo ali estava para descer a ladeira. Não que tivesse visto a corrupção da grana; viu mais: a corrupção do poder na mão de quem pela primeira vez encontrava o pote de mel.
Gabeira é sensível, dizem os severinos às gargalhadas, sem perceber que essa é justamente sua maior qualidade. E sem perceber que se trata de uma sensibilidade com poquíssima afetação. Ao contrário, muito mais afetados parecem seus desafetos, gesticulando com raiva recalcada; raiva da serenidade meio fanha do deputado.
Nós nos enganamos com muita gente de Brasília, mas o Gabeira não parece muito opaco. Não está lá por grana ou poder. Fica constrangido com a demagogia dos discursos panfletários. Quase não se agrupa em artimanhas e conchavos. Fica quieto quando não tem o que dizer; grita firme na hora certa. E, principalmente, submete as vantagens da circunstância à sensatez do mandato. Por isso nem chega a liderar movimentos, como querem que faça por esses dias.
Nem parece político o Gabeira, e isso é bem desconcertante. Mas certas coisas teimam em não ficar de lado. E o moralismo tem suas vantagens: seqüestro não vale.
Posted by Bruno Rabin at 10:31 PM | Comments (4)
August 23, 2005
That's why the lady is a tramp
Há quem ache casamento uma cerimônia chata. São pessoas que preferem uma coisa assim mais informal, sabe — a noiva num vestido colorido, o padre fazendo piadinha, o noivo entrando ao som de Tati Quebra-barraco, enfim, tudo que não lembre um casamento. E nenhum lugar é melhor para essa iconoclastia GNT do que o Brasil; e no Brasil o Rio de Janeiro.
Tudo se passa como se a tradição não fizesse sentido. E essa é maior ironia, porque essas pessoas são justamente as que mais se orgulham de cultivar outras tradições. Funciona mais ou menos assim: troca-se música nupcial por um sambinha das antigas, muito mais verdadeiro, autêntico, uma coisa de raiz, sabe? Saem de cena a roupa de gala, os canapés e o champagne, entram as havaianas, a feijoada e a cachaça. Sobram os noivos, se tanto. Claro, a mera formalidade não faz sentido mesmo. Mas em vez de suprimir o adjetivo, elimina-se o substantivo. E sem o substantivo, qual a substância?
A filosofia do século XX conseguiu estragar quase tudo, e o casamento também precisava passar por uma desconstruçãozinha. Pensar sob esse prisma ainda pode nos encher de esperança: já que o legal é fazer tudo às avessas, talvez alguém invente uma festa de divórcio ao som de Sinatra ou Ella. Não há de faltar felicidade. Não pelo divorciado, mas pela música, sem dúvida.
Posted by Bruno Rabin at 09:52 PM | Comments (10)
August 10, 2005
Animais
Como vocês leram na nova entrada do Apostos (não leram? É aqui, ó!), nossa primeira aposta temática consistia em falar sobre animais. Já tinha um post requentado: fiquei preguiçoso. Pena. Deixei de lado um bom zoológico e cheguei a dar um murro na mesa quando li a notícia na Folha. Como não tive essa idéia?! Fica aqui o registro:
(...) [Roberto Jefferson] foi convidado para uma palestra pelo Centro Acadêmico 11 de Agosto da Faculdade de Direito da USP, comandado pela chapa auto-intitulada Escória. Simultaneamente, a faculdade promovia uma outra palestra, esta sobre ética, com o jurista Fábio Konder Comparato. O deputado, que é advogado criminalista, foi recebido na sala dos estudantes sob o coro: "Ei, Jefferson, vai tomar no c...". Ele manteve o sorriso no rosto e se voltou aos repórteres para dar entrevista. "Ei, jornalista, vai tomar no c..." foi o bordão seguinte da platéia. O clima hostil seguiu, até mesmo quando o parlamentar começou a falar. (...) "Ele [Jefferson] vir aqui é uma ironia. Existem alienados que o tratam como herói. Me deram o ovo e eu joguei. Se pudesse, jogava na cara", disse o estudante Julio César Pereira, 23.
(Folha de S. Paulo, 09/08/05)
Posted by Bruno Rabin at 02:01 PM | Comments (3)
July 28, 2005
Ilusão de ótica
Há várias maneiras de descobrir que se é escritor; nenhuma delas nos extremos.
Os que sentem prazer escrevendo não deveriam publicar. Estão na companhia de atores de teatro e músicos de blues: adoram fazer o que fazem, mas o tédio impede o público de dizer o que se sente diante de suas obras. Os que dizem sofrer com a escrita devem despertar uma espécie de pena e me lembram a primeira vez que ouvi, ainda universitário (que Deus o tenha!), um escritor falar de sua “escrita dolorosa”: pensei que se tratasse de tendinite ou coisa que o valha.
Para um sujeito descobrir que é escritor de verdade deve examinar o que faz quando não escreve. Alguns ficam ansiosos, culpando-se diante do papel em branco. Outros escrevem sobre não ter sobre o que escrever, ficando a um passo da crônica mineira, na originalidade mais democrática dos jornais. O verdadeiro escritor, ao contrário, fica lendo o que escreveu e se dedica a uma tarefa muito mais radical — desescrever sua obra. Sim! O verdadeiro escritor é aquele que desfaz tudo, até o limite da perfeição: a coisa não-escrita.
Escrever é colocar tudo a perder, tratar mentira como ficção. Nenhuma história vale mais que uma mentira bem tramada, aquela que adia o castigo, garante a vantagem, dispensa o sofrimento. Todo escritor de verdade é um mentiroso compulsivo, mas perde sua mentira ao colocá-la no papel... ou na tela. Nenhuma história vale tanto.
Ainda agora, por exemplo, perguntaram-me por que estava há tantos dias sem escrever. Respondi a cada um de um jeito: o computador andou quebrado; a Internet foi interrompida por falta de pagamento; o trabalho exigiu de mim mais do que de costume; estava querendo ver o que diziam os leitores do blog...
Como alguns pareceram incrédulos, fui adiante: o cachorro comeu as folhas com os rascunhos dos últimos textos; tive que levar minha vó a um campeonato de jiu-jitsu em que ela competiu; fiquei desacordado duas semanas depois de um acidente de bonde em Macaé...
Com as risadas, ri também, arrematando: escrevi sim, mas configurei as letras para ficarem invisíveis, daí sua impressão equivocada; publiquei artigos com datas antigas, para ficarem todos nos arquivos, veja lá; acho que esqueci de apertar o botão do publish, deve ter sido isso...
Nada feito. As mentiras nem como mentiras serviram, de modo que explico agora o que aconteceu de verdade. Tudo não passa de um grande engano. A rigor, como eu nunca escreveria sobre não ter o que escrever — que faria de mim um não-escritor que não sou —, acabo tendo de contar a verdade: nunca escrevi nada, nunca tive um blog e este post que você está lendo nem escrito foi. Limpe os óculos e esfregue os olhos: coisas estranhas acontecem na Internet. Mas isso há-de passar.
Posted by Bruno Rabin at 01:50 PM | Comments (14)
July 20, 2005
S.P.Q.R. (ou S.P.Q.P.)

Quando a professora de História nos doutrinava, ela falava muito de um tal “analfabeto político”. Na época, achei que era uma coisa. Agora sei que é outra.
Posted by Bruno Rabin at 02:54 PM | Comments (4)
July 18, 2005
Profissionais e Amadores
O amadorismo é muito melhor que o profissionalismo, e por uma razão simples: amadores não se levam a sério. Qualquer profissional, ao contrário, por mais bem-humorado que seja, não brinca com sua fonte de renda — mesmo que seja renda escassa. A vida não deixa, e a auto-crítica tem um limite. O cara é o piadista da turma, o engraçadinho-mor, o típico iconoclasta, mas defende a mãe e a análise de sistemas como coisas sérias. Diante de um comentário alheio, faz aquele ar de banda de rock dos anos 80.
Há inclusive uma proporcionalidade inversa: quanto mais risível a atividade, maior a seriedade em defendê-la. Administradores e consultores, por exemplo, levam a sério os valores institucionais, a missão, a visão e a análise de pontos fortes e fracos da empresa. Será que não conseguem enxergar que fazem exatamente a mesma coisa que os super-heróis? Criam empresas como se estivessem no Palácio da Justiça e chamam a isso de gestão científica. Chego a pensar que essa talvez seja sua maior piada, mas desisto da idéia ao ver aquelas caras de contracapa de autobiografia.
Jornalistas também são gente assim. Falam de tudo e se permitem ser os primeiros a dizer que a Folha é infantil e que O Globo é chapa-branca; mas só na frente dos coleguinhas de barba. Numa roda variada, fazem cara de “estou por dentro” e ajeitam os óculos em silêncio investigador. Pior que isso: escrevem aquelas coisas todos os dias. Na política e na economia, sisudez; na cultura e no esporte, a brincadeira combinada, o trocadilho infame. Tudo ao contrário.
E não adianta, que essas coisas não mudam. Toda profissão nasce leve para crescer pesada. Vejam-se os blogueiros, por exemplo: já estão querendo fazer denúncia, virar capa da Times, ficar ricos. Que coisa estúpida. Eu, se ganhasse dinheiro com isso aqui, folhearia o blog a ouro, colocaria um fundo com notas de cem dólares e contrataria um ghostwriter para me dar menos trabalho. Até que seria uma boa idéia, não?
Não, acho que não. Vou resistir aos apelos. Prefiro insistir nesse blog-moleque, no post-arte, sem compromisso com o resultado. No compêndio da história dos blogs, lá estará o capítulo dedicado ao Farsante, com fotos dos primeiros encontros do A Postos, movidos a muito refrigerante e suco de laranja, sempre com hora marcada para acabar. Sei que posso parecer um romântico, mas o futuro dirá muito sobre esse amadorismo.
Posted by Bruno Rabin at 06:46 PM | Comments (6)
July 11, 2005
Reminiscências da infância diante da crise
Mulheres, iates e... cem mil dólares!

O valor é quase anacrônico; a cara-de-pau, a mesma.
Posted by Bruno Rabin at 10:40 PM | Comments (3)
July 09, 2005
Que pepino!
Seu Sebastião fez piada sem saber. Batizou um filho como Genoíno e o outro como Nobre. Um quer nos fazer acreditar que não lê o que assina (que belo guerrilheiro, hein!); o outro fica aliviado porque o assessor flagrado com a mala cheia não abre o bico e dá uma explicação como há muito não se ouvia.
Posted by Bruno Rabin at 11:17 AM | Comments (1)
June 28, 2005
“A batata vem mais”
Descobre-se muita coisa entre a fila do pedágio e a fila do McDonald's. Descobre-se uma forma eficiente de roubar, por exemplo. Aliás, pensar em formas eficientes de roubo deve ser uma das atividades mais utilizadas para exercitar a inteligência. Por isso é que todo romance policial deveria ser alçado à condição de jogo, à semelhança do xadrez — ainda que tenhamos em mente o aviso do Millôr, para quem o xadrez desenvolve a inteligência para... jogar xadrez.
Pouco importa, as filas continuam ensinando coisas. Hoje, por exemplo, descobri que existe uma lei econômica que passou despercebida aos grandes pensadores. Fala-se muito sobre o mercado e sua mão invisível dirigindo as moedas. Funciona assim: quando você acumula moedas no cinzeiro do carro e resolve utilizá-las num pedágio (também nos livramos das moedas e da culpa ajudando pedintes, embora a ajuda, nesse caso, venha deles, nos livrando do peso), enfim, quando usamos metade daquelas moedas para pagar o pedágio, não há qualquer dúvida de que, na próxima compra feita com nota inteira, virão tantas moedas de troco quantas tivermos usado antes. Trata-se do “princípio de equlíbrio do acúmulo de moedas.” Funciona assim e funciona sempre.
Mas não é só isso. Aprende-se muito mais coisa útil entre as filas. Aprende-se, por exemplo, que o Brasil é um bom lugar para testar modelos de administração. Se derem certo aqui, funcionarão em qualquer lugar. Basta prestar atenção às pessoas que os colocam em prática: “Você faz o seu, que eu faço o meu”, diz o gerente ao caixa. Belo exemplo de colaboração vertical. “Olha, a coca light vai demorar um pouco, porque o rapaz da manutenção tá no horário de almoço,” adianta o mesmo caixa, sugerindo o suco de uva: “Docinho, docinho.” Tudo isso antes de arrematar: “Ih, essa salada é mais ou menos. A batata vem mais.”
Bem, talvez a transparência conste entre os valores institucionais do McDonald's. Não tenho certeza, mas é possível. Tomara que sim. Caso contrário, corre-se o risco de algum antropólogo ler isto aqui e escrever um ensaio — antigo nome usado para posts impressos — sobre a grandeza da brasilidade. Já antevejo o título: “O caixa-moleque e a globalização slow-food.” Nessas horas sou muito religioso e rezo bastante, embora ouça, bem baixinho, a advertência divina: “Quem mandou ir ao McDonald's.”
Posted by Bruno Rabin at 08:17 PM | Comments (6)
June 16, 2005
Se correr, o bicho pega...
Eu dizia a mesma coisa para poder almoçar logo.

Posted by Bruno Rabin at 11:59 PM | Comments (1)
Outro filme para as sessões do Planalto
Apud o Alto Volta aqui ao lado:

Posted by Bruno Rabin at 11:57 PM | Comments (1)
June 06, 2005
O lobo-guará, à falta de leopardos
A beleza da aristocracia é maior na decadência. Como nem à monarquia temos direito, fiquemos com a nostalgia dessa forma menor da aristocracia decadente, que são os restaurantes tradicionais. Vencidos, de um lado, pela concorrência da comida aquilo e, de outro, pelas redes de restaurantes únicos, os velhos recantos da comida honesta — aquela dispensada por quem faz cirurgia de redução do estômago... —, esses lugares começam a decair. Fregueses antigos, daquele tipo idiossincrático de almanaque, reclamam bastante das mudanças. Não percebem a beleza daquela área para não-fumantes desrepeitada por todo mundo, daquele brownie sabor nescau com sorvete aguado que nem o garçom recomenda e, sobretudo, daquela TV ligada em volume acima do mínimo durante a novela. O dono, olhando melancólico as mudanças necessárias, lembra Dom Fabrizio Salina, ainda que seu sobrinho não tenha a Claudia Cardinale como futuro.
Posted by Bruno Rabin at 11:23 PM | Comments (4)
June 03, 2005
Este post foi feito especialmente para você
Uma banco aí da praça, cujo nome é piada pronta para humor de segunda, está chegando ao limite com essa história de atendimento personalizado. Agora, cada novo cliente recebe um telegrama do próprio presidente da instituição, assim que faz o primeiro depósito. Como se não bastasse o constrangimento de supor que esse público seleto acredite na amizade pessoal impressa, ainda é engraçado pensar que um erro de digitação pode estragar a melhor intenção: doutor Vladimir vira Valdir e não perdoa falha tão grave.
Além de tudo, essa estratégia pode dar galho. Dia desses, dona Sônia viu um telegrama para o marido assim que chegou do salão. Como estava atrasada para a aula de ginástica do Marcão, deixou por isso mesmo. Quando voltou, perguntou sobre a mensagem. “Ah, joguei fora. Era um telegrama do presidente do banco,” respondeu o doutor Rogério, antes de ser atingido por uma sandália Gucci e perder de vez a esposa. Situação dificílima, mas que nesse caso, pelo menos, acabou sendo uma belo pretexto: doutor Rogério está disponível e de posse de uma senhora conta, a única desconhecida do advogado da ex-mulher.
Posted by Bruno Rabin at 05:29 PM | Comments (6)
May 29, 2005
Meninos, eu vi
Dizem a toda hora que é preciso viver, cometer umas loucuras, fazer o momento valer a pena, mergulhar na insensatez que leva à felicidade. Acordem-me quando acabar a conversa, que eu já vi esse filme e achei bem chato.
O presente é meio ridículo se vivido intensamente; basta olhar para o passado. Ainda hoje, escondo-me constrangido daquela foto em que apareço de luvas brancas e boné de lado.
Viver o presente bem devagarzinho, tomando todos os cuidados, eis o que me interessa cada vez mais. Além de cansar menos, ainda tem a vantagem do respeito aos netos. Afinal, para que “viver a vida intensamente”, se eu posso só ficar olhando e rindo?
Posted by Bruno Rabin at 10:59 PM | Comments (2)
May 25, 2005
Gutemberg, Giuseppe e uma idéia idiota
Publicar na Internet tem uma grande vantagem sobre a forma convencional: preservam-se árvores. Pensando bem, também tem uma desvantagem: agrada-se aos ecologistas.
Pensando melhor, talvez seja o caso de publicar livros mesmo: ganha-se o prazer de chatear os chatos. Imaginem o verdinho verdíssimo de raiva diante de um livro absolutamente dispensável, com páginas e páginas impressas. Melhor: com páginas e páginas em branco, às vezes uma palavrinha aqui, uma ilustraçãozinha acolá (este teclado digita cada coisa; “acolá”, vejam só). Perturbar quem nos perturba acaba sendo sempre uma boa estratégia.
Pensando melhor ainda, esse livro em branco pode não ser boa coisa. Atira-se nos ecochatos, ganha-se a simpatia dos Giuseppes. Nenhum prazer vale um desprazer tão grande.
Posted by Bruno Rabin at 06:48 PM | Comments (4)
May 20, 2005
O que se diz, o que se dizia
Deve ter sido bom ser antigo. (Os céticos se lembrarão sempre do ar-condicionado, e isso basta para querer ficar por aqui mesmo, mas não se deve dar crédito aos céticos, que são os chatos mais chatos, naquela chatice tão bem definida pelo lorde). Deve ter sido bom ser antigo, principalmente por causa do que não havia. E não havia muita coisa: telefone, tv, jornal, elevador, bienal do livro, cinema brasileiro. Nem orkut havia, dizem.
Mas, principalmente, muita coisa não havia sido dita, de modo que se podia dizer quase tudo sem a sensação de repetir e se repetir. Que beleza deve ter sido a primeira metáfora! E a segunda, a terceira, enfim dezenas de metáforas voando dos pombais! Você é uma flor, disse o cara para a pretendida, e ela, entre rir e corar, sem saber se ele se referia à beleza ou à maquiagem — maquiagem havia! —, esperava o beijo que desfaria o mistério.
Também não havia estilo, de modo que tudo o que se dissesse já era um modo novo de dizer. Deve ter sido bom ser antigo e poder inventar o polissíndeto, e o paradoxo, e a frase nominal (e a piadinha metalingüística). Não havia quase nada, nem lógica havia, de maneira que nada era ilógico. E, se nada era ilógico, nenhum crítico literário — ou lingüista, ou professor, ou blogueiro paulista —, ninguém mesmo haveria de estragar a beleza da ordenação sem sentido. E se Borges houvesse (parece que não havia), haveria de rir um bocado de quem não o entendia.
Deve ter sido ótimo ser antigo por causa do que não havia. Coisa, palavra, o que fosse. Mas, de tudo o que não havia, que inveja do cara que criou a ironia!
Posted by Bruno Rabin at 07:35 PM | Comments (11)
May 03, 2005
Irrelevância e anacronismo, no barato
O que mais incomoda na cartilha de expressões politicamente corretas publicada pelo Governo Federal é o vencimento do prazo de validade. Ou alguém considera essa discussão atual?
Posted by Bruno Rabin at 05:38 AM | Comments (1)
May 01, 2005
Torcicolo
Troca-se de partido político, de culto religioso, de mulher ou marido — troca-se até de sexo. Só não se pode trocar de time de futebol. Eis a ética que nos une; eis o caráter da nação. Há quem seja nacionalista; há quem não seja. Ambos terão seu clube de preferência, e não há como imaginar-se na camisa do adversário.
O problema é que existem diferentes graus de aderência a essa lógica, o que acaba resultando em certo complexo de inferioridade. O sujeito que gosta de futebol apenas de passagem nunca é bem visto numa roda de brasileiros. Parece não ter caráter. Torce por um time, mas mal sabe sua escalação atual. Iria a um estádio em dia de disputa, mas prefere o conforto da poltrona. Os torcedores adversários aproveitam para desancar o clube: “Só podia ser tricolor.” Os do próprio time se calam envergonhados.
Mas isso não faz sentido. Como respeitar um cara que sabe os detalhes sobre o Flamengo e Palmeiras de 1980 e tal? É como dar ouvidos a fãs de Guerra nas Estrelas, colecionadores de revistinhas da Mônica ou discípulos de filósofos brasileiros. Não há razão para complexo de inferioridade quanto ao futebol quando se vê a companhia dessa gente.
De mais a mais, se vierem de risos porque você ignora o resultado de um jogo qualquer, peça-lhes que citem cinco escritores húngaros contemporâneos e suas obras mais recentes. Como gostam de torcer, que torçam seus pescoços.
Posted by Bruno Rabin at 06:37 PM | Comments (7)
April 29, 2005
Literatura e temperatura
Por que Crime e Castigo é melhor que Vidas Secas? Tá bom, exagerei. Mudo o exemplo: por que Crime e Castigo é melhor que O Estrangeiro?
Essa pergunta sempre esteve à espreita, mas nunca se encorajou a aparecer de frente, até que a resposta a antecedeu. Foi a Sílvia quem me explicou: a questão é o clima. Nada de enredo, discussão de fundo, problema transcendental — apenas a temperatura. Quem vive no Rio e odeia o verão sabe que nada pode superar um romance com personagens encasacados.
Um alívio, essa descoberta, que nos despe de toda culpa.
Posted by Bruno Rabin at 05:31 PM | Comments (8)
April 23, 2005
Sinfonia, barbárie, Murphy
As pessoas não sabem como funcionam os engarrafamentos: ficam pulando de uma fila para outra, tentando caminhos alternativos, empurrando os outros carros. Incivilidade pura. O trânsito é uma belíssima sinfonia, motivo de orgulho metropolitano.
Em todo caso, devo admitir que acabo desafinando aqui e ali, para fugir de um caminho que me pareça mais lento. Invariavelmente, danço. Lei de Murphy, dizem.
Faz pouco, descobri como a coisa toda funciona. Resignado a esperar, busquei uns papéis para ler. Mal terminei a primeira linha, os carros começaram a andar. Não muito, o que me permitiu a volta ao texto, agora com mais sede. Em menos de meia linha, mais um movimento. Nova parada, nova tentativa de leitura, novo movimento, nova parada: tão maior era minha vontade de continuar lendo, mais o trânsito melhorava.
Sem querer, acabei descobrindo a solução do problema do trânsito — e de quantas sejam as situações semelhantes. Contra Murphy, Murphy. Inverte-se a lógica da desvantagem, com uma desvantagem maior. Agora é assim: ou leio no carro ou chego cedo para ler em casa.
Dói compartilhar essas coisas assim, sem cobrar nada. Mas estou num bom dia. Aproveitem, é raro.
(Claro, continuo preferindo a idéia da sinfonia da metrópole, mas há dias em que a poesia é um pé no saco.)
Posted by Bruno Rabin at 12:40 AM | Comments (5)
April 15, 2005
Quem tudo quer tudo quer
Li, num sonho à Borges — ah, beber antes de dormir... —, este adesivo colado no vidro de um carro laranja: “A velocidade da tua força é o sucesso da minha inveja.”
Como faz sentido, fica demonstrada a estupidez da frase original. Aliás, difícil decidir o que é pior: se esses substantivos abstratos arrumados numa ordem coerente qualquer, ou se as parábolas de significado idêntico: “Um passarinho, quando voa, sabe a asa que tem.”
Continuo gostando apenas do que não tem lógica, e nisso minha vó é insuperável: “Bate com a mão na cabeça antes que o pé não chegue.” Eu sempre entendi a reprimenda: sentido é apenas a metade de tudo.
Posted by Bruno Rabin at 06:41 PM | Comments (8)
April 08, 2005
Palavras, palavras, palavras
Aqui no Rio, criaram um movimento contra a violência chamado “Basta!” — logo parodiado como “Bosta!” (obviamente muito melhor) —, cujo objetivo é dar um “grito contra o atual estado de coisas”. Exige muita capacidade bolar uma idéia assim: uma palavra, um verbo tornado interjeição e... pronto. Depois, o grupo percebeu que as faixas estendidas nas varandas mais valorizadas da cidade não chegaram a desanimar os bandidos. Resolveu fazer alguma coisa concreta — só não me perguntem o quê, porque, a essa altura, eu já estava mais entretido com o obituário e os quadrinhos.
Mudando de rumo e buscando “soluções reais e factíveis”, o grupo perdeu sua maior virtude: ser o primeiro movimento inteiramente abstrato, teórico, sintetizado no minimalismo de uma palavra e um ponto de interrogação. Até mesmo o design seguia essa perspectiva: letras em vermelho sobre fundo branco. Apenas isso... e Basta! Que pena. Tivessem me consultado e eu daria uma opinião decisiva: sejam originais e não façam nada. Protesto verbal é o que há. E faz muito sucesso.
Vejam o caso dos colunistas que escrevem nos grandes jornais. Ainda esta semana, li um artigo a respeito do Papa e da Igreja Católica. Levo as mãos ao rosto em sinal de constrangimento e quase não me atrevo a contar o que li, mas... vá lá, façamos o sacrifício: num arroubo crítico contra as instituições, o cara me escreve “igreja católica” assim, com letra minúscula. Ainda dei uma chance a ele, imaginando que fosse erro de digitação, mas o protesto se repetiu quatro vezes. Isso é que é indignação! Como ninguém tinha pensado em algo tão genial antes?!
Fico tentando imaginar o que vai na cabeça de pessoas assim. Deve ser alguma coisa parecida com o que pensam os criadores do Basta!. Se ainda assumissem o discurso vazio, sem fundamento e sem ação, contribuiriam mais com a causa do que qualquer ong (assim, com minúscula mesmo) jamais fez.
O problema, penso, é a falta de leitura. Basta uma horinha em frente ao Bartleby, de Herman Melville, para verificar o que pode a inércia humana. Se bem que o “Prefiro não fazer” (“I would prefer not to”, no original) do escrivão não combina com pontos de exclamação, mas isso é pedir demais dessa gente. Prefiro não fazer.
Posted by Bruno Rabin at 08:47 PM | Comments (1)
March 26, 2005
Traz um chopp e some!
O Naun tem razão: uma das piores pragas em voga é a síndrome dos garçons universitários. Contratados por bares e restaurantes da moda, eles transmitem uma mensagem curiosa sobre estes tempos, embora eu não saiba qual é. Pensei em dizer que eles estão ali para dar status ao lugar, mas isso seria piada: universitário brasileiro dando status a alguma coisa.
A qualidade do trabalho de um garçom é quase inversamente proporcional ao seu nível de escolaridade, e não há preconceito nisso. Vou ao bar e quero uma figura invisível, que me sirva chopp, de preferência sem que eu peça. Que idéia idiota achar que o cliente quer um amigo que o sirva: “Oi, meu nome é Fabrício (acho que todos se chamam Fabrício) e eu vou estar atendendo vocês”, diz, sentando-se à mesa. “Oi, Fabrício, levanta já!”
Pensando bem, até onde a experiência permitiu verificar, esses garçons universitários estão no emprego certo. São lugares em que não se encontram chopp, filé e fritas, mas apenas chopp perfumado com rosas, filé sobre leito de folhas verdes e “nossas incríveis fries com delicioso molho de queijo e pedaços de alguma coisa”. Com tanta enrolação, merecem atendentes enroladores. Nisso devem ser bons: afinal de contas, estão na universidade.
O pior talvez seja a ironia — e a pior ironia é a do idiota, que acha estar sendo irônico, quando está apenas sendo babaca —, o pior é o sorrisinho irônico diante de um prato pedido para dividir: “Olha, nossos pratos são individuais”, diz o Fabrício, com leve sotaque paulista (Fabrícios vêm de São Paulo, eu acho). O Naun sugere a resposta: “Eu sei, Fabrício, mas vou pedir para dividir porque, ao contrário de você, que é milionário e trabalha de garçom aqui, eu quero economizar e me poupar de comer um prato inteiro dessa comidinha fresca de merda.” Podem testar; funciona.
Posted by Bruno Rabin at 04:04 PM | Comments (2)
March 25, 2005
Quer comer limpo vá comer em casa!
Desde pequeno, sempre gostei de competições. Chegava a jogar Banco Imobiliário contra mim mesmo, roubando para o azul, é claro. Em 1982, ainda moleque, acompanhei cada lance das eleições estaduais, atualizando os resultados para a família. Torcia para o Brizola, o que dava mais emoção à coisa toda.
Esse espírito competitivo acabou me atrapalhando algumas vezes. Não estudei piano, porque percebi que não conseguiria sequer começar a me comparar a qualquer um. Também desisti — sofrendo — da Ana Cláudia, a menina mais bonita do colégio.
Mas o tempo passou, e as coisas mudaram. Não que eu tenha deixado a competição de lado. Nada disso. Apenas mudei de foco.
Hoje, o que me empolga mesmo são as colunas de reclamações de leitores de jornal. Ah, nada como uma briguinha de comadres impressa em páginas “oficiais”. Gosto, especialmente, de quando reclamam de restaurantes. “O filé veio quase cru!” “Aquela barata passou perto da mesa e o gerente disse ela tinha vindo da rua.” “Um absurdo combrarem tanto por uma entrada tão pequena.” Pelo teor da coisa, já se vê quem fala.
E como, apesar de tudo, sou brasileiro, torço sempre pela parte mais fraca. Por isso, vibro cada vez que um maître dá um fora bem dado num cliente reclamão. Com tanta coragem e firmeza, o restaurante há-de ser bom.
Posted by Bruno Rabin at 12:48 PM | Comments (0)
March 19, 2005
A prisão da Gramática
Durante muito tempo, cultivei o desejo de escrever um post que começasse por um pronome oblíquo átono, mas não conseguia. Pensava que deveria tentar, exigir de mim a força necessária para fazê-lo. Cheguei até a completar um texto, mas não conseguia publicá-lo. Por certo tempo, deixei-o ali nos drafts, imaginando que sua hora chegaria. E chegou: hoje eu o apaguei para sempre.
Próclise em início de período é o cacete. Não escrevo, e pronto. Razões não faltam.
A primeira delas é a companhia. Diga-me aí, você que manja de literatura, o que é melhor: ficar ao lado de Machado e Graciliano ou de Mário de Andrade e os moderninhos? Elegância é só uma parte da coisa, mas é a melhor parte.
A segunda é o background teórico. Você já viu um lingüista? É um tipo triste, muito triste, que se obriga a ser natural e alegre, que vibra com os dentes trincados quando encontra uma concordância desviante. Essa história de amor ao desvio, não sei, não, mas me parece coisa de idiota.
A terceira razão é o fundamento das duas primeiras: gosto de prisões e tradições. Eu nada seria sem os meus limites; minha busca interior tem sido no sentido de encontrá-los, criar orgulho de todos, dar carinho a cada impossibilidade.
Por isso, cada vez que leio o LLL e sua série sobre as prisões, fico pensando que este blog deveria se chamar “Conservador, Conservante, Conservado”, o que, além de tudo, daria uma bela sigla.
Posted by Bruno Rabin at 02:32 PM | Comments (0)
March 18, 2005
Farsante
Posted by Bruno Rabin at 09:23 PM | Comments (0)
March 11, 2005
O que Lobão e Ed Motta (não) têm em comum
Bem no comecinho de Manhattan, há aquela cena inesquecível em que os personagens de Diane Keaton e Michael Murphy conversam sobre artistas “overestimated”, sob o protesto frenético do Isaac de Woody Allen. Quando chegam a Bergman, ele quase tem um infarto.
A cena é engraçada e me veio à cabeça a propósito de duas entrevistas ouvidas recentemente. Uma com Ed Motta; outra com Lobão. Quem os ouve falar — e tem a sorte de não ouvi-los cantar — deve ter a impressão de que se trata de gênios da música, talentos cuja qualidade justifica qualquer arrogância. Um fala de suas incursões pelo jazz; outro, de seu “diálogo” com a MPB. Eles devem estar de sacanagem. É um descompasso tão grande entre auto-imagem e obra, que a piada se torna peça de mau gosto. Levar-se a sério tem dessas coisas.
Posted by Bruno Rabin at 01:00 AM | Comments (0)
March 05, 2005
Sobre a minha miopia neurótica descoberta há pouco, por sugestão de um amigo mais esperto
Hoje eu ia contar a história do Gilmar, um cara que só se preocupa com miudezas. Em casa, ele traça algoritmos mentais para tudo. Acorda e, antes de se levantar, imagina a ordem das tarefas que tem a fazer: humm, colocar o pão na torradeira, beber um copo d'água
