October 09, 2007

Tropa de Elite, osso duro de roer

Vi Tropa de Elite, afinal. Pensei em não ver e dizer que não fazia mesmo questão de ver por causa das pessoas que insistem em fazer elogios do tipo “O filme é sensacional mesmo.” (Vocês precisam ver quem são essas pessoas...)

Mas assisti ao filme. E o filme não é sensacional. Tem narrador em off dando “sentido” às imagens; tem Wagner Moura fazendo piada com a boca de lado (sempre engraçado, até quase torturando); tem direção de fotografia à Nigella. Uma inovação (bocejo). O “soco no estômago” ficou por conta do almoço indigesto mesmo.

Mas é preciso, acho, falar sobre o filme, menos pela pirataria (que não chega a ser falta de caráter, o que seria sofisticado demais em muitos casos) do que pela catarse pró-BOPE, com direito a agressão a consumidores.

A figura do capitão Nascimento (até nome simbólico o filme tem, meu povo) - incorruptível e torturador - suscita três reações: o cinismo, a projeção e o horror. Fico com uma quarta: o "pé atrás" diante de quem não percebe a contradição em termos que é torturar e ser incorruptível, o "pé atrás" quanto à indiferença de quem sai do filme fazendo piada e o "pé muito atrás" com a indignação horrorizada.

A desconfiança se explica: Tropa de Elite é só um filme bem feito (não é pouco, claro, mas também não é muito); o BOPE é um sintoma, não é causa de nada (atingir sintomas não resolve o problema, claro, mas isso não significa que não se deva diminui-los); e a classe média é média mesmo.

E há também a quinta reação, do Jabor, que é a de dizer que Tropa de Elite nem chega a ser um filme.

Posted by Bruno Rabin at 02:52 PM | Comments (2)

August 09, 2007

Esse aquecimento global é coisa da CIA

Você que mora no Rio me diga: tem visto isso aqui em toda parte, ou sou apenas eu?

Posted by Bruno Rabin at 10:19 PM | Comments (1)

August 05, 2005

As beautiful as boring

Beleza excessiva, tédio idem. Nem chega a ser coisa rara. As mulheres e as canções mais lindas costumam prová-lo: quanto mais próximas da perfeição, mais acabadas; quanto mais acabadas, maiores os bocejos.

Sin City é isso. E quem quiser falar da simbologia crítica que fale sozinho. Pois se justamente a gratuidade faz sentido, como fazer da intenção um mérito? Cá pra nós: quer coisa pior que história em quadrinhos engajada?

Posted by Bruno Rabin at 05:47 AM | Comments (5)

January 31, 2005

Edukators é Os sonhadores piorado

Edukators (Die fetten Jahre sind vorbei) e Os sonhadores (The dreamers) têm algo em comum: um triângulo amoroso — e isso, dito assim, há-de ser lido com ressalva, já o sabe quem assistiu aos filmes — à Jules e Jim. Mas isso que aproxima os filmes também é o que mais os afasta. Explica-se: enquanto no filme de Bertolucci o triângulo está no cerne do que ele tem a dizer, no filme alemão (mais austríaco que alemão, a bem da verdade), o triângulo é o detalhe do enredo — detalhe muito significativo, e que serve a um paralelo curioso.

Os sonhadores dá uma cacetada com luva de pelica na imagem da juventude parisiense nos idos de 68. Mas a porrada não atinge ninguém, pois Bertolucci não conseguiria ser tão iconoclasta. Por isso, ao mesmo tempo em que o filme desconstrói a politização farsesca de dois irmãos franceses e o novo amigo americano, ele acaba repondo outra idealização — saborosíssima nostalgia do não-vivido — de uma certa procura por liberdade, beleza, amor, coisa e tal. Em outras palavras, Os sonhadores dormem até a pedra que lhes quebra a janela, quando acordam para seu engajamento de circunstância. Tudo ali é beleza: a menina, os meninos, a casa e até a rua, ao som de Piaf em câmera lenta. Tudo ali era beleza, beleza pura. A questão do filme é estética, jamais política; a questão daquela juventude idem. Por isso, o “soco no estômago” — como costuma dizer o populacho — também ganha a velocidade da câmera lenta. Fica bonito e não atinge ninguém, nem poderia; faz tempo que tudo isso se foi.

Edukators faz o inverso e lembra o que o Diogo Mainardi disse há pouco a respeito das críticas que recebe. Admitindo ser mesmo um Paulo Francis piorado, ele reconheceu nisso um sinal dos tempos, já que tudo está piorando. Edukators é Os sonhadores piorado. Há ali jovens num contexto político conturbado e que se vêem diante da procura por uma utopia. Na Europa quase-capitalista de hoje, a rapaziada se engaja em movimentos anti-globalização. Panfletos de dia, terrorismo “bem-humorado” (as if) à noite. Ao contrário dos personagens de Bertolucci, os alemães do filme falam as coisas que querem dizer; nenhuma sutileza, nenhuma sugestão: está lá tudo explicadinho. São irracionais esclarecidos, com argumentos para a guerra de informações (“esse seu tênis é fruto da exploração de não-sei-quantas crianças no raio-que-o-parta”), e toda a simbologia de aparato. Nem a trilha sonora de Leornard Cohen melhora o saldo, porque concorre com The Doors, Jimi Hendrix e Janis Joplin.

Mas tudo isso é acessório. Há algo em Edukators que comove sem intenção de fazê-lo, a julgar pela grosseria geral do filme. Numa cena, do meio para o final, o magnata coroa que está com os jovens — ponte entre 68 e hoje — sugere o amor livre do triângulo supostamente formado pela menina e os rapazes. O mal-estar se instala. Não há triângulo consentido, não há liberdade de verdade, é tudo da boca pra fora. Eis o ponto nevrálgico: enquanto num filme a experiência subjetiva romantizada seduz, inspira e excita, no outro, o palavreado político dá sono. Visto à luz de Edukators, Os sonhadores se torna melhor e serve de lição a quem não leu Nelson Rodriges.

A idiotia juvenil — que muitos preferem chamar de ingenuidade, à falta de eufemismo melhor — pode levar a duas experiências: os limites do mundo e os limites do corpo. Para a primeira, faltam a vivência e a serenidade de quem não chegou aos trinta; para a segunda, bastam os sentidos abundantes e os hormônios à disposição. Ainda assim, à revelia de todas as evidências oferecidas pela natureza, prefere-se empunhar a bandeira vermelha e ir ao Fórum. A certeza de quem não viu nada vale muito menos que o silêncio de que não está nem aí. Quando Os sonhadores termina, está começando Edukators; vai-se do sonho ao pesadelo. Numa realidade piorada, até que faz sentido.

Posted by Bruno Rabin at 11:05 PM | Comments (2)