July 06, 2006
O lixo, metafórico ou não
O lixo é o acúmulo de sujeira. É quando a sujeira chega ao máximo de indiferenciação. Por isso, todo lixo tem o mesmo cheiro. Por isso, todo perfume tem sua singularidade.
Isso vale para muitas metáforas (não todas) a respeito do que pode resultar de misturas excessivas que não cheguem a uma nova identidade. Na indústria de perfumes, o cheiro singular deve surgir depois de muito erro, depois de muito lixo. Quantos não-perfumes são necessários para a "invenção" de um perfume novo singular?
Pode-se fazer uma teoria do lixo nas artes ou na política como o resultado da falta de critérios para saber quando uma mistura cria algum valor e quando seu resultado é a indiferenciação.
Acontece assim quando as coisas são vistas superficialmente: um evento excepcional vira regra. O raciocínio, por simplista, é simples: "Este sujeito aqui fez uma nova arte pela mistura disso com aquilo. Genial! Então, basta misturar as coisas para ser sublime também. E como o valor está na mistura, quanto mais se misturar, tanto mais valioso será o resultado." Que injustiça. Os outros pensam errado e nós é que "temos" que ir às Bienais.
Na política, é a metáfora que dá sentido à realidade. Como nada cheira bem em Brasília, no sentido metafórico, da mesma forma os bons perfumes e a limpeza são contaminados pelo sentido figurativo. O terno impecável, o carro novíssimo, o prédio iluminado, a grama aparada, o perfume francês - tudo que representa beleza pura e limpa (também no sentido figurado, se quisermos falar do capitalismo, por exemplo), enfim, todo perfume tende ao lixo. A sujeira figurativa do caráter faz cheirar mal o aroma perfumado do corpo.
E antes que se antecipe a resposta intuitiva da necessidade de limpeza, convém desanimar com a pergunta incômoda: há limpeza possível para a mistura de caráter? Na arte, a mesma coisa. O consolo, se houvesse algum, é que ainda nos restaria o faro. Mas, em meio ao lixo, isso é alguma vantagem?
Posted by Bruno Rabin at 10:39 AM | Comments (1)
May 31, 2006
Armando Nogueira: o gol contra
Não sei se vocês sabem, mas as coisas funcionam assim: temas aristocráticos pedem literatura que os desmonte; assuntos plebeus demandam, ao contrário, alguma espécie de mitificação. Quando não há contraste, trata-se de má literatura. E quando a má literatura é péssima - não por falta de técnica, que isso é besteira, mas talvez pelo excesso -, cria-se um tal constrangimento, que o encontro entre assunto e palavra fica para sempre comprometido, como o namoro após um pum ruidoso no primeiro encontro ou, pior, após um beijo meloso demais.
Parece que aconteceu assim com o futebol. Aristocrático por natureza, o esporte merecia umas bolachas, para ver o que é bom. Para cada golaço, uma história interrompida; para cada balão, uma frase rasteira. Quanto mais se fizesse no futebol, tanto menos se faria na literatura.
Mas entre o futebol e a arte, surgiu Armando Nogueira. E com Armando Nogueira, perderam ambos: o jogo e o texto. Senão, vejamos:
Sobre a bola, disse o "mestre das tintas lançadas com sofreguidão ao papel impávido":
"Num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quiçá no meio-fio, pára de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho."
Após a final de 70, Armando Nogueira - o "artesão do lance, craque da frase" - nos deu este presente:
"Os campeões mundiais em volta olímpica, a beijar a tacinha, filha adotiva de todos nós, brasileiros? Ternamente, o capitão Carlos Alberto cola o corpinho dela no seu rosto fatigado: conquistou-a para sempre, conquistou-a por ti, adorável peladeiro do Aterro do Flamengo. A tacinha, agora, é tua, amiguinho, que mataste tantas aulas de junho para baixar, em espírito, no Jalisco de Guadalajara. Sorve nela, amiguinho, a glória de Pelé, que tem a fragrância da nossa infância."
Ao descrever Heleno de Freitas, o "artilheiro da linguagem" alcançou o sublime:
"Só tinha afagos pra conquistar a bola, em cuja convivência realizava sua face de anjo. (...) Dormia abraçado com a bola delirante do jogo de ontem, de hoje, de amanhã, de sempre. Quando acordava, bola murcha, Heleno tornava ao delírio. Heleno de Freitas, o craque das mais belas expressões corporais que conheci nos estádios, morreu, sem gestos, de paralisia progressiva, e descansa, hoje, no Cemitério de São João Nepomuceno, onde nasceu um dia, para jogar a própria vida num match sem intervalo entre a glória e a desgraça."
Por muito tempo, ninguém com talento teve coragem de escrever sobre futebol, menos por admiração a Armando Nogueira do que por vergonha - é bom deixar claro, porque há todo tipo de leitor por aqui e, neste caso, a ambigüidade precisa ser evitada, sob o risco de se perderem alguns amigos. Acredito até que, também por muito tempo, o próprio futebol se envergonhou na mesma medida.
Aos poucos, tudo parece voltar ao normal. E o futebol, novamente aristocrata, bem que merece umas pancadas para continuar altivo. Sorte a nossa - apreciadores de futebol e literatura - que ninguém mais ouve o que o "zagueiro do jogo entre as palavras" tem a dizer. Com a televisão ligada, mas no volume mudo, é possível imaginar o significado daqueles gestos, mas o silêncio se impõe. E o silêncio, nem Armando Nogueira consegue estragar.
Posted by Bruno Rabin at 11:08 AM | Comments (20)
April 28, 2006
Jonatan, a postos
Agressivo era o Jonatan, que gostava de dar pescotapa numa tia mais velha. Envergava o braço esquerdo e largava a mão na dona Dirce. A repreensão risonha da mãe não chegava a intimidar: a velha merecia a pedalada. Agressivo, o Jonatan. Agressivo e muito estúpido. Deixou de fazer uns sete ou oito aniversários, por causa das velinhas não sopradas. Entendia “velhinhas” e soprava as avós.
Depois ainda tentou correr na frente do prejuízo, fazendo duas festas de aniversário por ano. Mas perdeu as contas e foi além do que devia. Aos 21 anos, já tinha uns 29. A essa altura, mandaram que parasse de brincar com o tempo. Burrice não tem idade: Jonatan entendeu errado e continuou fazendo chuva quando bem entendesse. Dia de festa, então, era chuva e trovoada. Teve vez que nevou.
Com a morte da tia e das velhas para soprar, Jonatan achou por bem fazer festa surpresa. Deve ter confundido as coisas, porque a surpresa da festa era a data, que nunca coincidia com o aniversário. Vendo tudo ir errado durante cinco anos, mudou de tática: convidava todos para a festa em sua casa e não ia. Perdeu dois aniversários e chegou a ter 32. Isso aos 26.
A trapalhada deu certo. A morte programada para os 28 anos chegou para buscar o Jonatan quando ele já tinha 33. E chegou justo no dia do aniversário, a tempo de levar um pescotapa estalado. E bolo na cara. Porque o Joanatan adorava fazer cerimônia com o primeiro pedaço, mas era só pra esconder a safadeza. O convidado de primeira viagem, quando ia pegando o pratinho, levava o bolo da fuça. E outro pescotapa. Safado, esse Jonatan.
Safado e feliz. Ninguém aproveitou tanto o aniversário quanto o Jonatan. Festa na repartição, barzinho com os amigos, comemoração a dois com Eneidinha - não houve ocasião em que alguém não levasse bolo ou coisa qualquer. Fazia questão de deixar a cerveja fora do gelo e arrumar um som com caixa estourada. Jonatan se antecipava aos problemas, e ai de quem reclamasse: era bolo de novo na cara. E de repente um pescotapa.
Ainda esses dias o Jonatan me ligou, chamando para um aniversário. Coisa de um portal, uns blogs, se bem entendi. Não fui, mas fiquei sabendo que safadeza agressiva tem dono: parece que na hora do bolo, mão armada, riso contido, foi o Jonatan quem levou a pior. Eram uns dez, com mulheres no meio, dando tapas de um jeito esquisito - palavras na cara, com posts e links. E o Jonatan, estupidez em pessoa, ainda riu quando o bolo chegou. Bem idiota esse Jonatan.
Posted by Bruno Rabin at 07:25 PM | Comments (2)
March 30, 2006
Não podendo dizer do amor, diga-o quem melhor o disse, se a alguém ainda aprouver ouvi-lo
(...) no Mundo e entre os homens, isto que vulgarmente se chama amor, não é amor, é ignorância. Pintaram os Antigos ao amor menino; e a razão, dizia eu o ano passado, que era porque nenhum amor dura tanto que chegue a ser velho. Mas esta interpretação tem contra si o exemplo de Jacob com Raquel, o de Jonatas com David, e outros grandes, ainda que poucos. Pois se há também amor que dure muitos anos, porque no-lo pintam os sábios sempre menino? Desta vez cuido que hei-de acertar a causa. Pinta-se o amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacob, nunca chega à idade de uso da razão. Usar de razão e amar, são duas cousas que não se juntam. A alma de um menino que vem a ser? Uma vontade com afetos e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos pintores do amor lhe vendaram os olhos. E como o primeiro efeito ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem que isto que vulgarmente se chama amor tem mais partes de ignorância; e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama porque conhece, é amante; quem ama porque ignora é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem, ignorando, ofendeu, em rigor não é delinquente; quem, ignorando, amou, em rigor não é amante.
(Vieira, A. Sermão do Mandato, 1645)
Posted by Bruno Rabin at 05:56 PM | Comments (2)
March 06, 2006
Linha 65.536 X Coluna IV
Um romance absoluto, um conto denso, um parágrafo inesquecível, uma frase perfeita - muitos adjetivos para pouca coisa. Minha fantasia passa longe da literatura; cada vez mais, ela tem a forma de uma planilha de Excel.
Teria que ser uma planilha completa, até a última célula, mapeando a tudo e a mim mesmo. Todos os dados e todas as fórmulas. Análise e síntese simultaneamente. O passado, o presente e o futuro. A obra de arte perfeita: visão cósmica e microscópica.
Pensei em mostrá-la numa Bienal de arte, sob a forma de instalação interativa. Mas a concorrência é forte, e de coisas assim me bastam as artes de amigos do colégio. Deixo-a aqui por escrito, com a completude do que (não) consigo imaginar. Enough is enough.
Posted by Bruno Rabin at 03:01 PM | Comments (2)
January 16, 2006
Obscuridade
Não é possível postar duas vezes no mesmo blog.
Posted by Bruno Rabin at 11:13 PM | Comments (0)
December 04, 2005
A gula mata qualquer preguiça
Escreveria sobre a preguiça. A preguiça é um pecado capital. A gula também. Tenho mais fome que inércia. Escrevo sobre a gula.
Gosto muito desses programas de culinária na TV. Estou longe de ser o único. São um sucesso aqui e em qualquer parte, daí ganharem tanto espaço e tantas versões. Mas por que eles são tão melhores que os programas de sempre, aqueles clássicos, inseridos nas manhãs femininas dos canais abertos?
Por um motivo simples: em vez de dar a receita antes, os chefs vão fazendo os pratos aos poucos. Anunciam algo tão genérico como uma “salada para a primavera”. Então, começam com folhas verdes, passam a figos fatiados, acrescentam sementes de que eu nunca ouvi falar, espremem um limão siciliano, levam ao forno por meio minuto, congelam em seguida, metem tudo dentro de um plástico, rodam duas vezes, jogam sobre um leito de cogumelos previamente temperados com o caldo de um frango ao mel... enfim, fazem o diabo com a comida, surpreendendo a cada instante, invertendo tudo, quando já pensávamos ter entendido o lance.
Não nos ensinam a fazer a receita, but who cares? Assistimos aos programas porque queremos história, suspense, clímax e um final feliz. Na literatura ou no cinema, é preciso escolher entre a novidade e o prazer fácil. Na gastronomia televisiva, eles estão sempre juntos.
Não estamos ali para aprender a fazer nada, queremos é a narrativa. Mas assim como leitores resolvem escrever e cinéfilos se decidem a fazer vídeo (toc, toc, toc), telespectadores se empolgam com as histórias de comida e partem para a cozinha. “É tudo tão simples...” Sem precisar submeter os outros àquele sanduíche de amendoim com cebola rocha e mostarda de dijon, os cozinheiros amadores parecem, pelo menos, mais inofensivos. Alguns chegam mesmo a apreciar o que fazem. (Tenho aqui uma receita de sorvete com mel e café granulado...)
Assim são as coisas. Ao meio-dia ou às sete da noite, pouco importa, refestelado no sofá, controle remoto na mão. Basta meia hora de Oliver: eis como a gula vence a preguiça.
Posted by Bruno Rabin at 10:15 PM | Comments (10)
October 24, 2005
R$ 16, e tá de bom tamanho
O cinema seria muito melhor se a gente não se preocupasse tanto com ele. Quinta à tarde, sábado à noite, um refrigerante, uma bala, uma pipoca, um filme. Nada de revolução na linguagem, soco no estômago, just a picture.
Mas não é assim. Fazer um filme dá um trabalhão — em qualquer tamanho de orçamento ou de ego. Cada um sabe a dor e a delícia do filme que faz, sobretudo a dor. Por isso, todo mundo envolvido em cinema fala do filme que acabou de fazer como uma maravilha, uma inteligência, uma sutileza, uma sensibilidade, uma beleza que nem te conto. Estão aí os programas e entrevistas com cineastas e atores que não me deixam mentir: a cada palavra, cria-se a sensação de um filme como nenhum outro. Visto, nada mais que o já-visto.
E não é só um problema de expectativa. Um filme dura uma hora e meia, duas horas — talvez três, se o cara não tiver mãe. Nada que possa ser tão bom, nem que possa ser tão ruim. Há dias, claro, em que tudo conspira a favor, e o bom filme vira uma experiência incomparável. Mas não se trata do filme em si; trata-se apenas de um bom dia, com um bom filme. Prova disso é que, repetida depois, a experiência jamais será a mesma. Nos livros — joguem as pedras! —, nos bons livros, cada releitura melhora a anterior. Nunca um filme é assim; no máximo, no caso de filmes vistos há muito tempo e já esquecidos de todo, fica aquele sabor de memória recuperada.
Cinema é a maior diversão, e a maior diversão pode ser uma tristeza muito honesta ou uma beleza muito feia. Há lugar para tudo. E em tudo cabe uma pipoca, uma bala, um refrigerante aguado — de preferência a pé, no cinema da esquina.
Posted by Bruno Rabin at 11:34 PM | Comments (2)
September 19, 2005
Liberd...
Preso ao tema da nova aposta, ia dizer que a escravidão tem suas vantagens, sobretudo a de opor o sujeito escravo aos tarados por liberdade — espécie reativa à gramática e a outros valores supremos. Ia dizer também que a escravidão à liberdade tem sido um problema pra muita gente, da literatura à economia. Escravo do trabalho, eu ficaria livre para dizer que não falaria de nada disso, não. Mas isso soaria libertário, e ser libertário é uma condição que viola princípios os mais valiosos. Fiquemos assim: deixo dito o que falaria, e não falo.
Posted by Bruno Rabin at 06:15 AM | Comments (4)
August 08, 2005
De touradas e vozes femininas
Durante muito tempo, eu quis gostar de touradas. Influência de uma voz feminina. Ela falava umas frases compridas, com palavras inúteis e, principalmente, fazia muitas comparações. Mulheres gostam muito de fazer comparações, mulheres artistas sobretudo, mulheres que aspiram a ser artistas mais do que todas. E ela aspirava a ser artista. Por isso, havia ido para a Espanha; por isso, falava tanto de touradas. Comecei a querer gostar de touradas, ouvindo aquela voz falando do da “vida em duas cores”.
Mas não deu certo. Invertendo a lógica da pena — que recomenda defender os mais fracos —, sempre fiquei do lado dos bichos, gostando pouquíssimo de vê-los à morte. Nem a beleza da imagem do touro estocado por aquela meia dúzia de bandarillas foi suficiente. “Uma pintura”, disse-me a voz feminina. Não era pintura: era ao vivo. Se pintura fosse, teria gostado (mais por ser pintura, menos por ser tourada). Não houve salvação. As touradas desapareceram da minha vida, e com elas a voz feminina — ou se deu justamente o contrário, mas isso já não importa.
Apesar de tudo, defendo a tourada até o fim dos tempos. Só não quero assistir a uma, e o motivo é personalíssimo. Não me parece razoável querer estender aos outros um defeito de sensibilidade individual. Se um sujeito tem pena de touros ou galos, o problema é dele, e a solução é simples: basta não assistir aos embates. Na opinião os defensores dos animais submetidos a barbaridades desumanas — suprema ironia —, uma boa estratégia é transformar essas práticas em crimes ambientais. Convém incomodar: não seria crime ambiental de verdade impedir galos-de-briga de brigar?
Realmente, tanto faz. Ainda hoje, porém, posso escutar aquela voz feminina, misturando espanhol e português, rindo da confusão, mas rindo bem depressa, para continuar umas frases compridas, umas frases cheias de comparações e palavras que não diziam nada. Ainda hoje ouço aquela voz e continuo achando que deveria ter insistido nas touradas.
[Este post integra a aposta #1 do Apostos, que agora conta com os ótimos Passa o Sal, Rinoceronte e Porco Capitalista, além do blog coletivo Todos a Postos repaginado. Fiquem à vontade para visitar e comentar.]
Posted by Bruno Rabin at 11:53 PM | Comments (5)