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July 28, 2008
Que pena?
Há quem veja na prisão de um criminoso um objetivo apenas reabilitador. O sujeito fica lá uns dias, uns meses, uns anos para pensar direitinho, se arrepender e ver se volta a ser gente. Nesse caso, se, antes da prisão, o acusado já tiver tomado tenência, se tiver mudado de vida completamente, se já for até mesmo um pregador de bons valores - e nem se fale do arrependimento, que isso ninguém consegue enxergar -, então nem precisa condenar o sujeito, certo?
Posted by Bruno Rabin at 03:15 PM | Comments (1)
July 22, 2008
Tratamento de canal é o freak show da civilização ocidental

Quando alguém fala em sadomasoquismo você pensa em duas pessoas, não é? Um sádico e um masoquista, que se completam na busca de um prazer borderline, tão pervertido como ridículo, certo? Nada disso. O verdadeiro sadomasoquismo, cumpre esclarecer, só acontece quando uma pessoa encarna as duas dimensões simultaneamente, e esse alguém é o dentista. Senão, espiemos:
Só mesmo o masoquismo mais pervertido explica a escolha por uma rotina de enfrentamento da halitose da pessoa não amada, em meio àquele zunido incessante e à necessidade hiper-humana de um detalhismo que ninguém nota - ou nota, quando dá errado, e processa. Só por uma abnegação religiosa alguém pode se prestar ficar duas horas em frente a uma boca aberta cheia de dentes, equilibrando um sugador, um espelhinho e meia dúzia de equipamentos operados metade pelo pé, metade pela mão.
Ao mesmo tempo, só o sadismo mais cruel explica o ímpeto dos dentistas em perguntar se está doendo, pergunta a que só se pode responder com um grunhido indistinguível que eles interpretam como lhes convier - ou fingem interpretar, embora isso faça pouca diferença. E quando perguntam se está doendo, na verdade eles querem é impor a tortura; mas uma tortura muito sofisticada, que é a ameaça iminente da dor aguda, justo naquele ponto em que a anestesia acaba e você experimenta o insuportável. É como aquele sonho erótico agitado interrompido pela queda no chão frio, com a desvantagem da ausência de erotismo e da certeza da queda num chão gelado, só não se sabe quando.
É pior quando o dentista é mais experiente e nem pergunta sobre a dor; apenas responde ao seu quase-gemido, dizendo "Tá doendo, né? Mas já, já, passa." E continua a fazer o que fazia, sem muita pressa. Alguns chegam a ensaiar uma conversa sobre a reexibição de "Pantanal", ou o caso Daniel Dantas, ou o preço das consultas médicas, e pedem sua opinião sobre esses assuntos, na forma suprema do sadismo, que é o sarcasmo. Isso, a odontologia. E há quem a escolha.
Posted by Bruno Rabin at 10:20 PM | Comments (1)
July 07, 2008
War in Rio
Soube que existe um War versão Império Romano. Boa idéia. Além da distribuição geo-política do planeta, aprende-se história. Não fosse a concorrência desleal dos videogames ou da TV a cabo, teríamos uma geração esperta sendo formada. Com o original, muita gente aprendeu geografia. Afinal, de que outra maneira um moleque dos anos 80 conheceria Vladvostok, Aral ou aprenderia que Venezuela e Colômbia são a mesma coisa?
Como se não bastasse a função educacional, War é fonte de várias dessas metáforas que correm o risco de se perder (juntamente com o "caiu a ficha" dos orelhões), sendo a "conquista de 18 territórios" metáfora muito mais simpática do que as que se usam na adminstração científica (e, só para comentar, "administração científica" é um bom exemplo da denegação freudiana, semelhante a bares que precisam se chamar "informal" ou "Conversa fiada").
Como o Banco imobiliário, War tem a vantagem de ser politicamente incorreto, uma espécie de oásis intelectual em tempos de discurso pacifista e preocupação social. O nome (bem) brasileiro é um "plus a mais": o original se chama Risk. Só mesmo a tradição explica que essa gente que adora vetar videogames não tenha tentado colocar um "protect the rain forest" entre os objetivos ou proposto uma redefinição da quantidade de exércitos que deveria caber ao continente africano.
War é um jogo de estratégia. Mas se joga com dados. Precisamente como as coisas funcionam no mundo real: organização, objetivo e planejamento sempre esbarram no acaso. O Osama, por exemplo, deve ter jogado War II, aquele com aviõezinhos, antes de ter a idéia do ataque. A Al-Quaeda, aliás, poderia inspirar algumas variações do jogo, mas nada que se compare a esta aqui:
Posted by Bruno Rabin at 11:55 PM | Comments (1)
July 03, 2008
A (sua) tristeza
Há quem não conheça a ética do futebol. Na derrota regular, o perdedor sofre duplamente, e sua irritação procede: amigos e inimigos se aproveitam da situação; podem e devem fazê-lo. Na eliminação, o sofrimento cresce na medida das brincadeiras, com a ressalva da intimidade - já não é de bom tom o desconhecido se aproveitar da dor alheia. Agora, na perda do título - e sobretudo na perda honrada do título -, muita coisa não se aplica.
Não se trata de ser flamenguista, pois há os que conhecem o código de conduta. Mas como a torcida rubro-negra é grande, cresce na mesma proporção a quantidade de sujeitos de má-fé. A zoação, como se não bastasse a inaplicabilidade em caso de luto, se torna ainda mais desprezível vinda de quem vem. Não há atenuante. E talvez haja agravantes: cara de paspalho, babando na risada que não se contém, vendo o jogo dos outros como um grande filme (final infeliz, as many); mas um filme dos outros, nunca seu.
Posted by Bruno Rabin at 10:43 AM | Comments (1)
