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June 20, 2008
Na mesa
Quando o terceiro vinho chegou e todos se distraíram um pouco, ele olhou uma outra vez para ela, agora mais detidamente. Ela oferecia um sorriso aberto à mesa, enquanto rodava a taça entre os dedos, como se fizesse carícias em alguém que ele não conseguia identificar. Continuou olhando em sua direção, sem perceber que lhe faziam uma pergunta sobre a safra do vinho, à qual respondeu com um “sim”, prontamente diluído na embriaguez do amigo curioso, que já não ouvia nada.
Ela era estúpida (ele sabia) mas ninguém na mesa conseguia perceber que o silêncio enigmático era um disfarce para a falta do que dizer. Ela se aproveitava (ele sabia) de ter olhos escuros; de ter, com esses olhos, um olhar demorado, não pelo que enxergasse profundamente, mas pela imensidão do vazio, pois a falta é ainda mais eloqüente que o excesso; de ter um cabelo muito fino, que mesmo preso se desprendia aos poucos e deixava uns fios escondendo-mostrando a nuca do pescoço comprido; de ter quase um tique no jeito como passava o polegar no canto inferior do lábio, repuxando-o com suavidade e firmeza, como se quisesse abrir a boca só para deixá-la entreaberta, sem dizer nada, mas expirando um ar quente que (ele sabia) aumentaria de intensidade quando ela já estivesse seminua. Mas ele não sabia com quem.
E quando voltou a beber do vinho, fechando os olhos no final do movimento com a taça, ela estava renovando as carícias que ninguém deveria querer ter, porque ela, afinal, teria pouco a dar em troca. A única coisa que tinha, e inconsciente, era essa habilidade em dizer-se para os outros de um modo que (ele sabia) ela não era, essa competência com o corpo que a fazia controlar os gestos à mesa e molhar o pedaço de pão no azeite sem olhar o próprio movimento, mas percorrendo cada ponto do espaço que deveria percorreria se visasse à perfeição. Ela era distraída em ser.
Só ele percebia que ela era uma impureza – e um vazio. Por isso a decisão de detê-la.
Primeiro, teve a idéia de um ataque. Ensaiou uma gargalhada sonora, à qual se seguiria o deboche do controle que (ele sabia) ela não tinha de verdade. Seria uma agressão indireta, uma maneira de ridicularizá-la na frente de todos, exigindo que ela saísse desse lugar de falsa segurança em que depositara sua habilidade em parecer o que (ele sabia) ela não era. Mas foi só uma idéia. Talvez a bebida o ajudasse a colocá-la em prática. Talvez. Ele duvidou; menos do deboche do que da capacidade de rir à vontade que sua intenção exigia, um riso de superioridade como são os risos de pessoas que se sentem melhores que as outras; e ele não se sentia.
Então, pensou em ser igual a ela. Se pudesse esboçar um olhar de mistério e fazer convergir a atenção dos amigos, daria certo. Mas não podia; e precisava detê-la. Ele ainda tentou imitá-la no gesto generoso, levando sua própria taça à boca em um movimento controlado, mas teve a impressão de que a cada ponto do espaço correspondia um riso sarcástico, um comentário, uma reprovação – o barulho da mesa. Desistiu no meio do caminho, com a taça trêmula voltando rápido para o lugar de onde partira e fazendo um som agudo ao bater na borda do prato. Do barulho, fez-se o silêncio, e todos olharam para ele – inclusive ela. Tinha pena, ele sabia.
Com mais um gesto suave, ela partiu outro pão, levou o pedaço menor ao azeite e de lá à boca, onde o mastigou demoradamente, limpando os lábios com o polegar, como se fosse perfeita – e o torturasse, ele sabia.
Posted by Bruno Rabin at June 20, 2008 12:52 PM