« Inversão | Main | Oposição, situação »
June 11, 2008
Curtura (ou: post em que quase firo a regra número oito do Blogma, no mais puro casuísmo, mas ao contrário)
A vantagem do dogma religioso sobre o, digamos, pagão, é que ele tem a força do mistério. Isso parece óvio, embora talvez não seja lógico - no sentido menor da palavra "lógica", ou seja, como silogismo aristotélico for dummies. De qualquer maneira, com ou sem a interdição do mistério, as pessoas precisam de dogmas, e tanto pior que eles não sejam plenamente dogmáticos. Explica-se: na educação familiar, aprende-se cada vez menos sobre valores humanos absolutos ou respeito a Deus, mas todo mundo sabe que é imprescindível separar o saco de arroz do detergente nas sacolas de supermercado e ninguém ousa escovar os dentes na pia da cozinha. E por quê? Porque não pode, oras.
Mas isso é só curioso, digo, é apenas engraçado que as pessoas questionem tão pouco alguns costumes e verdades domésticas, na mesma medida em que fazem redações escolares sobre o quanto a riqueza de uns poucos é fruto da exploração gananciosa e desumana da miséria alheia. Em qualquer dos casos, assume-se um raciocínio que parece bom como o fundamento daquilo que ele funda, sem se perceber a enrascada, humm, lógica da coisa toda.
Nada disso, porém, tem um efeito tão perverso quanto as etimologias e distinções que aquele tio coroa, sabido, cheio de tiradas, nos ensina na forma de rasteira. São como gerentes de R.H. familiares, com a desvantagem de ainda não sermos cínicos o suficiente para rirmos da insistência dessas frases ao longo dos anos ou da evidência curiosa de que essa sabedoria do tio não o levou a pagar dívidas ou conseguir um empreguinho de professor numa universidade pública. E assim, mal percebendo tudo isso, aceitamos do tio que educação seja mesmo "ex-ducere, levar para fora, extrair da pessoa o que ela tem de melhor" e criticamos a imposição de conteúdo de certos professores, justamente os que teriam algo a dizer numa época em que não temos nada para ser extraído de nós (ou temos, mas isso bem sabemos fazer quando ninguém está por perto).
Entre todos os dogmas do tio sabidão, nenhum é tão terrível quanto a distinção dita como resposta a uma crítica que fazemos a um apresentador de televisão estúpido ou ao vizinho que não lê: "Mas, meu filho, cultura não é sinônimo de inteligência", meaning: pouco importa a erudição, o que interessa é saber raciocinar, ter aquela espécie de mental sharpness, para a qual, muito sintomaticamente, não temos palavra em português. Resultado: a pobre criança começa a achar que os livros são tempo perdido e talvez até um prejuízo à sua inventividade. Lembra-me, a propósito, um poeta-revelação que entrevistei na época de escola para o jornal do grêmio, que dizia preferir não ler outros poetas para não se influenciar. No caso dele, que me lembre, deve ter sido uma vantagem de sobrevivência não ter feito comparações e, pensando bem, até que tem certa razão o sujeito que não descobre que não inventou nada: para ele, tudo é orginal.
Mas o poeta também sou eu, num certo sentido. E muito do que não li talvez tenha relação com essa sensação compensatória de que a observação inteligente poderia servir de resposta a qualquer citação. Por isso, durante boa parte da vida, uma certa fuga da "assimilação de cultura" se combinou à inércia da esperteza, produzindo uma catástrofe mais tarde, quando descobri que inteligente mesmo é o sujeito que resolve algumas equações e que, quase sempre, a referência cultural é um trampolim do brilho - a não ser no caso da estupidez, que é uma mistura de chatice com insensatez, e não o oposto de inteligência, como se costuma pensar. Enfim, nem tão sagaz, nem tão letrado - e mediano é bastante medíocre. Por isso, escrevo (e publico :-).
Daí, também, a recomendação deste jovem tio: nunca aceitar as dicas do tio sabichão.
Posted by Bruno Rabin at June 11, 2008 11:31 AM