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June 27, 2008

Conto Sensorial (V)

O olhar perdido de Juan sugeria apenas uma estupidez inocente, muito ao gosto da imagem de adolescente despenteado com um par de fones metidos nas orelhas, com música alta saindo de lado. O que não se sabia é que ele estava assim havia um dia e meio, desde que, pela centésima vez, havia se esforçado inultimente em tirar os fones do ouvido. Um mau jeito, um mau olhado, um azar tremendo, não se sabe, mas os fones estavam presos ao ouvido sem ter força que dali os tirasse.

O desespero levou Juan a hipóteses estranhas: devia ser castigo divino pela música pirateada; ou então aquele romance nunca lido em que era especialista; talvez não ter escovado sempre os dentes - qualquer coisa assim absurda servia. Mas nem a promessa de refazer tudo às avessas dava certo.

Quem mandou comprar essa bateria importada? Essa, que dura pelo menos 50 horas sem parar, pensou o garoto. E por que o fone sem fio? Seria tão simples cortá-lo. Mas nada disso seria tão desesperador. Quando terminou a música que tocava foi que ele se deu conta do problema em que estava metido: apertara o botão do "repeat" para ouvir de novo aquela canção, e ficou fadado a só escutá-la.

Mas por que Juan chorava tanto? É que ter renegado os pais sessentões se voltava finalmente contra ele. Depois de desgostar do Fidel, de jogar fora a edição comemorativa do Manifesto, de prometer não beber cerveja, de raspar a barba crescida, Juan resolveu manter sua única ligação com a "hippiesse" do pai e da mãe e copiou "Volver a los 17", na gravação da Mercedes Sosa com a baianada. E essa era a música que Juan ouvia quando os fones se prenderam a seus ouvidos.

Pediu socorro, mas não se fazia entender. Tentou dormir, mas foi em vão. E agora está ali na frente, sentado no banquinho, olhar no infinito, adolescente típico, ouvindo aquela música repetir para sempre, "como el musguito em la piedra, ay si, si, si". A bateria vai acabar, bem sabemos, mas o Juan acaba antes.

(Este é o último dos contos sensoriais. Os outros estão na extended entry.)

Conto Sensorial (IV)

Desde muito novo, Augusto percebeu que era diferente: nasceu com um problema de paladar; uma espécie de persistência retiniana só que com o gosto das coisas, e muito mais duradoura. O pedaço de pão levado à boca, ainda quente, mantinha-se com igual intensidade quando um gole de leite era sorvido e incorporado ao paladar, já à espera de uma fatia de queijo, de outro pedaço de pão e de tudo que viesse. Sua mãe não entendia por que Augusto recusava o gomo de laranja no café-da-manhã ou a goiabada após o prato de feijão. Ele já sabia que os melhores sabores só se misturam como lixo e começou a ter aversão a comidas novas.

Com o tempo, Augusto parecia ter-se adaptado. Fazia longos intervalos entre as refeições, evitava misturas radicais e, definitivamente, recusava tudo que lembrasse cozinha contemporânea. Mas os cuidados mostraram-se inúteis. Semana após semana, a densidade gustativa aumentava, prolongando-se por horas e horas, até atingir um ponto sem retorno: acordar com a sensação do café-da-manhã do dia anterior.

Um alentou o consolou por alguns meses: Augusto passou a adorar resfriados. Quanto mais congestionado estivesse, menos gosto sentia. Chegou ao ponto de inverter as ordens maternas: ia para a rua sem agasalho, tomava sereno e andava descalço na cozinha. Nessas ocasiões, Augusto aproveitava para comer de tudo, misturar quente e frio, salgado e doce, deliciar-se com jiló e limonada suíça. Comia tanto e tão bem, que logo curava a gripe, voltando à insuportável saúde de sempre.

Todo esse sofrimento, porém, parecia ter acabado quando Augusto viveu seu primeiro amor e aprendeu a beijar. Antes de acabar o gosto do beijo anterior, vinha o próximo. E depois outros e tantos, num acúmulo de sensações que ninguém deve ter experimentado em lugar algum. Se já não gostava muito de comer, Augusto reduziu suas refeições ao indispensável, tão apaixonado que estava pela menina da turma.

E de tão apaixonado, decidiu contar à namorada sua história. Arrependeu-se como nunca: ela ficou assustada ao imaginar que cada beijo seu se misturava a um prato de salada ou a uma xícara de chá. Teve nojo e preferiu afastar-se dele. Antes de ir embora, prometeu-lhe um último beijo, contra a vontade, mas em respeito às lágrimas de Augusto. Foi um beijo delicioso, um último beijo, um beijo para Augusto guardar para sempre em seu paladar. Foi o que ele fez. Nunca mais colocou nada na boca e resistiu alguns dias. Nada mais.


Conto Sensorial (III)

A sensação do corpo sujo fazia Vladimir lavar suas mãos a cada meia hora. Banhos, meia dúzia por dia, cada um durando seus quarenta minutos. Havia alívio no contato com água, mas era pouco.

Convencido pelos amigos, Vladimir procurou um psicanalista. Fez algumas sessões, ponderou bastante e acabou abandonando a experiência. Havia chegado à conclusão inevitável: dois sabonetes por dia custavam menos que o atendimento.

No fundo, é sempre uma questão de saldo.


Conto Sensorial (II)

Havia um retrato na parede do quarto de Isabel. Era o retrato de uma velha — ela me contou —, uma fotografia esquecida pelo antigo morador da casa que acabara de alugar. Era o retrato de uma velha, uma imagem envelhecida também. No olhar da velha, sua velhice inteira, disse-me Isabel. Não que houvesse ali sabedoria ou experiência, “essas coisas que queremos ver nos velhos, porque queremos ver em nós mesmos”. Não, em seu olhar havia apenas velhice: nenhuma transparência, opacidade pura. Isso tudo me contou Isabel, porque eu já não podia ver.

E me contou também que aquela velha era um pouco ela própria. Como? — perguntei-lhe. Isabel ficou em silêncio. Insisti em tom mais alto, imaginando que ela não tivesse me ouvido. Novo silêncio. Isabel olhava-me fixamente. Isso eu não podia ver, mas sabia. Isabel tinha os olhos marejados. Isso eu não podia ver, mas sentia em minhas mãos, entendendo que me restava também o silêncio.

O retrato da velha na parede nos contemplava vazio. Isabel não chegou a chorar, porque não queria que as lágrimas limpassem seu olhar do silêncio mais fundo. Isabel queria o vazio também, um vazio que a aproximasse da velha na parede; um vazio que a aproximasse de mim.


Conto Sensorial (I)

Quando era pequeno, tinha muito medo de me viciar em cocaína. Achava que o vício vinha do cheiro: um perfume tão gostoso, mas tão gostoso, que, uma vez experimentado, produzia no sujeito a vontade incontrolável de senti-lo o tempo todo. Deve ter sido alguma associação com o canto da sereia, possivelmente uma mistura de trechos de conversas de adultos, mal ouvidos pelo sono, à mesa de um restaurante. Talvez sem sono, mas certamente à mesa de um restaurante, impaciente com os cafés antes da conta. Aquele medo persistiu em mim por muito tempo. Não o da cocaína, mas o do vício; não o de um vício qualquer, mas o de um perfume delicioso.

Como o associava à causa errada, custei a perceber que já estava viciado. E que nunca mais conseguiria esquecê-la.

Posted by Bruno Rabin at 08:04 PM | Comments (2)

Faz sentido

Neste caso, mais uma vez, a ironia é involuntária.

Posted by Bruno Rabin at 06:05 PM | Comments (0)

June 24, 2008

A cena que eu gostaria de ter feito se fosse cineasta


Posted by Bruno Rabin at 11:39 AM | Comments (0)

Bem de Alzheimer

Estava pensando que a avó, demenciada, lembrando nomes e gestos, mas não o dia anterior, talvez não precisasse tanto assim da dedicação da família no sentido de lhe proporcionar bons momentos, felicidades de que não se lembraria horas depois. Pensava que não ter a lembrança tirava o sentido da alegria, como se o depois valesse mais que o durante. Mas não. Talvez o contrário: como não tem mais a possibilidade de comparar o que está sentindo com o que já sentiu antes, a avó vive a intensidade mais plena, cada momento contendo a maior felicidade e a maior tristeza possíveis. Nenhum meio termo, nenhuma mediocridade. Consolou-se com sobra.

Posted by Bruno Rabin at 12:03 AM | Comments (2)

June 21, 2008

Ao contrário

As mulheres agora fazem contas, mas isso não diminui sua feminilidade; ao contrário. O teste é simples: a mulher vai a uma loja para comprar uma blusinha. Lá chegando, descobre que há uma promoção. A blusa custa 80 reais, mas se você levar três paga 200. Então, é óbvio que ela vai levar as três; afinal, cada blusa saiu por menos de 70 pratas. O gasto inicial de 80 foi acrescido de 120, fora a felicidade da compra bem feita. Essa, a lógica feminina. Mas não é nada de que não se goste; ao contrário.

Posted by Bruno Rabin at 10:36 AM | Comments (0)

Por que a medicina precisa de mim

Eu acertaria tudo no exame de vista se as letrinhas não fosse tão parecidas.

Posted by Bruno Rabin at 10:34 AM | Comments (0)

June 20, 2008

Na mesa

Quando o terceiro vinho chegou e todos se distraíram um pouco, ele olhou uma outra vez para ela, agora mais detidamente. Ela oferecia um sorriso aberto à mesa, enquanto rodava a taça entre os dedos, como se fizesse carícias em alguém que ele não conseguia identificar. Continuou olhando em sua direção, sem perceber que lhe faziam uma pergunta sobre a safra do vinho, à qual respondeu com um “sim”, prontamente diluído na embriaguez do amigo curioso, que já não ouvia nada.

Ela era estúpida (ele sabia) mas ninguém na mesa conseguia perceber que o silêncio enigmático era um disfarce para a falta do que dizer. Ela se aproveitava (ele sabia) de ter olhos escuros; de ter, com esses olhos, um olhar demorado, não pelo que enxergasse profundamente, mas pela imensidão do vazio, pois a falta é ainda mais eloqüente que o excesso; de ter um cabelo muito fino, que mesmo preso se desprendia aos poucos e deixava uns fios escondendo-mostrando a nuca do pescoço comprido; de ter quase um tique no jeito como passava o polegar no canto inferior do lábio, repuxando-o com suavidade e firmeza, como se quisesse abrir a boca só para deixá-la entreaberta, sem dizer nada, mas expirando um ar quente que (ele sabia) aumentaria de intensidade quando ela já estivesse seminua. Mas ele não sabia com quem.

E quando voltou a beber do vinho, fechando os olhos no final do movimento com a taça, ela estava renovando as carícias que ninguém deveria querer ter, porque ela, afinal, teria pouco a dar em troca. A única coisa que tinha, e inconsciente, era essa habilidade em dizer-se para os outros de um modo que (ele sabia) ela não era, essa competência com o corpo que a fazia controlar os gestos à mesa e molhar o pedaço de pão no azeite sem olhar o próprio movimento, mas percorrendo cada ponto do espaço que deveria percorreria se visasse à perfeição. Ela era distraída em ser.

Só ele percebia que ela era uma impureza – e um vazio. Por isso a decisão de detê-la.

Primeiro, teve a idéia de um ataque. Ensaiou uma gargalhada sonora, à qual se seguiria o deboche do controle que (ele sabia) ela não tinha de verdade. Seria uma agressão indireta, uma maneira de ridicularizá-la na frente de todos, exigindo que ela saísse desse lugar de falsa segurança em que depositara sua habilidade em parecer o que (ele sabia) ela não era. Mas foi só uma idéia. Talvez a bebida o ajudasse a colocá-la em prática. Talvez. Ele duvidou; menos do deboche do que da capacidade de rir à vontade que sua intenção exigia, um riso de superioridade como são os risos de pessoas que se sentem melhores que as outras; e ele não se sentia.

Então, pensou em ser igual a ela. Se pudesse esboçar um olhar de mistério e fazer convergir a atenção dos amigos, daria certo. Mas não podia; e precisava detê-la. Ele ainda tentou imitá-la no gesto generoso, levando sua própria taça à boca em um movimento controlado, mas teve a impressão de que a cada ponto do espaço correspondia um riso sarcástico, um comentário, uma reprovação – o barulho da mesa. Desistiu no meio do caminho, com a taça trêmula voltando rápido para o lugar de onde partira e fazendo um som agudo ao bater na borda do prato. Do barulho, fez-se o silêncio, e todos olharam para ele – inclusive ela. Tinha pena, ele sabia.

Com mais um gesto suave, ela partiu outro pão, levou o pedaço menor ao azeite e de lá à boca, onde o mastigou demoradamente, limpando os lábios com o polegar, como se fosse perfeita – e o torturasse, ele sabia.

Posted by Bruno Rabin at 12:52 PM | Comments (0)

June 12, 2008

Oposição, situação

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Dilma, Ideli, Zé Múcio, Romero Jucá e Franklin Martins

Quer dizer que é para dar aquela torcidinha pela inflação?

Posted by Bruno Rabin at 12:03 PM | Comments (0)

June 11, 2008

Curtura (ou: post em que quase firo a regra número oito do Blogma, no mais puro casuísmo, mas ao contrário)

A vantagem do dogma religioso sobre o, digamos, pagão, é que ele tem a força do mistério. Isso parece óvio, embora talvez não seja lógico - no sentido menor da palavra "lógica", ou seja, como silogismo aristotélico for dummies. De qualquer maneira, com ou sem a interdição do mistério, as pessoas precisam de dogmas, e tanto pior que eles não sejam plenamente dogmáticos. Explica-se: na educação familiar, aprende-se cada vez menos sobre valores humanos absolutos ou respeito a Deus, mas todo mundo sabe que é imprescindível separar o saco de arroz do detergente nas sacolas de supermercado e ninguém ousa escovar os dentes na pia da cozinha. E por quê? Porque não pode, oras.

Mas isso é só curioso, digo, é apenas engraçado que as pessoas questionem tão pouco alguns costumes e verdades domésticas, na mesma medida em que fazem redações escolares sobre o quanto a riqueza de uns poucos é fruto da exploração gananciosa e desumana da miséria alheia. Em qualquer dos casos, assume-se um raciocínio que parece bom como o fundamento daquilo que ele funda, sem se perceber a enrascada, humm, lógica da coisa toda.

Nada disso, porém, tem um efeito tão perverso quanto as etimologias e distinções que aquele tio coroa, sabido, cheio de tiradas, nos ensina na forma de rasteira. São como gerentes de R.H. familiares, com a desvantagem de ainda não sermos cínicos o suficiente para rirmos da insistência dessas frases ao longo dos anos ou da evidência curiosa de que essa sabedoria do tio não o levou a pagar dívidas ou conseguir um empreguinho de professor numa universidade pública. E assim, mal percebendo tudo isso, aceitamos do tio que educação seja mesmo "ex-ducere, levar para fora, extrair da pessoa o que ela tem de melhor" e criticamos a imposição de conteúdo de certos professores, justamente os que teriam algo a dizer numa época em que não temos nada para ser extraído de nós (ou temos, mas isso bem sabemos fazer quando ninguém está por perto).

Entre todos os dogmas do tio sabidão, nenhum é tão terrível quanto a distinção dita como resposta a uma crítica que fazemos a um apresentador de televisão estúpido ou ao vizinho que não lê: "Mas, meu filho, cultura não é sinônimo de inteligência", meaning: pouco importa a erudição, o que interessa é saber raciocinar, ter aquela espécie de mental sharpness, para a qual, muito sintomaticamente, não temos palavra em português. Resultado: a pobre criança começa a achar que os livros são tempo perdido e talvez até um prejuízo à sua inventividade. Lembra-me, a propósito, um poeta-revelação que entrevistei na época de escola para o jornal do grêmio, que dizia preferir não ler outros poetas para não se influenciar. No caso dele, que me lembre, deve ter sido uma vantagem de sobrevivência não ter feito comparações e, pensando bem, até que tem certa razão o sujeito que não descobre que não inventou nada: para ele, tudo é orginal.

Mas o poeta também sou eu, num certo sentido. E muito do que não li talvez tenha relação com essa sensação compensatória de que a observação inteligente poderia servir de resposta a qualquer citação. Por isso, durante boa parte da vida, uma certa fuga da "assimilação de cultura" se combinou à inércia da esperteza, produzindo uma catástrofe mais tarde, quando descobri que inteligente mesmo é o sujeito que resolve algumas equações e que, quase sempre, a referência cultural é um trampolim do brilho - a não ser no caso da estupidez, que é uma mistura de chatice com insensatez, e não o oposto de inteligência, como se costuma pensar. Enfim, nem tão sagaz, nem tão letrado - e mediano é bastante medíocre. Por isso, escrevo (e publico :-).

Daí, também, a recomendação deste jovem tio: nunca aceitar as dicas do tio sabichão.

Posted by Bruno Rabin at 11:31 AM | Comments (0)

June 06, 2008

Inversão

As pessoas sempre dizem que a melhor maneira de melhorar a escrita é praticar a leitura, sem se dar conta de que a boa leitura envergonha o escritor medíocre e de que o contrário procede muito mais: o escritor freqüente se tornar um leitor melhor.

Posted by Bruno Rabin at 06:26 PM | Comments (7)

June 05, 2008

Do futebol

Para o torcedor, o futebol é um jogo de azar pior que um jogo de azar. Porque, na roleta, se o vermelho 17 não sai, você bem pode recolher as fichas, ou apostar nos pares, não sei. No futebol, o investimento de alegria é viciado e não se pode fazer muita coisa para que tudo corra bem. Mas continuamos apostando, porque a alegria, quando vem, vem em dobro.

Posted by Bruno Rabin at 12:38 PM | Comments (2)