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May 23, 2008
Rômulo e a mãe judia
Rômulo era de uma família católica típica: muita missa, pouca missão. No Natal, tudo como mandava a liturgia: ceia farta, árvore iluminada, aquela coisa. Mas Rômulo queria ser judeu. Ficou com idéia fixa desde que viu uns garotos de solidéu num filme antigo. Depois, aprendeu a palavra “iídiche” e, mesmo sem saber bem o que significava, gostou da sonoridade. Sua intuição se confirmou quando ganhou de presente um livro de piadas hebraicas e descobriu a mãe judia. Resultado: quis ter uma também.
A cada Natal, quando visitava sua família, tentava alguma coisa. Primeiro, deixou de levar um presente para a Dona Mirtes, apenas o dela. A mãe, a princípio, estranhou o esquecimento; depois, acabou ficando satisfeita com o pensamento de que o filho estava tomando juízo e deixando de gastar dinheiro com besteira. Desolado, Rômulo foi adiante. No Natal seguinte, resolveu criticar sem piedade a camisa que sua mãe lhe dera de presente. Disse que era melhor não ter recebido nada. Dona Mirtes chegou a ficar engasgada, mas se resignou: o filho estava nervoso, essa coisa de colocar dinheiro na Bolsa, ela bem que avisou. E se calou sem esboçar reclamação. Desiludido e insistente, Rômulo deu sua cartada final. Disse à mãe que não iria para o Natal porque ficaria com a família de sua nova namorada. Desta vez — animou-se — conseguiria: rejeição e troca por outra mulher, nada pode ser mais eficaz para despertar o instinto maternal judaico de toda mãe... Para desespero de Rômulo, Dona Mirtes não só entendeu a escolha, como ainda sugeriu viajar para confraternizar com a família da moça - claro, se não fosse atrapalhá-lo.
Desde então, Rômulo nunca mais foi visto. Uns dizem que enlouqueceu com a fixação e se tornou o famoso mendigo erudito da Praça Andrade Neves, que fica lendo a Torá com uma pronúncia muito própria enquanto mexe a cabeça de um lado para o outro, achando-se muito parecido com um rabino. Outros afirmam que, na verdade, ele se casou com uma menina judia abrasileirada, que, contra a vontade de Rômulo, aceitou emprego como gerente de R.H. e abandonou o ritual religioso, escolhendo uma coisa assim mais espiritualizada, meio budista, meio mandala, mas muito verdadeira, sabe?, uma coisa que faz a gente repensar a vida - inclusive as receitas de gefilte fish e beigale, as festas de Pessach e o jeito de cuidar dos filhos e do marido, tudo muito ultrapassado, entende?
Ninguém sabe; pouco importa. O fato é que Dona Mirtes nunca mais teve notícia do Rômulo. Para compensar a perda do filho único, adotou um menino. Dizem que o garoto usa óculos, estuda violino e vai ser médico. E quando pede à mãe para brincar na pracinha, recebe sempre a mesma resposta: mas pra quê, meu filho?
Posted by Bruno Rabin at May 23, 2008 02:40 PM