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May 13, 2008
O terno amassadinho do Saramago
Lendo este post do AFB, lembrei que, na literatura, às vezes, a "contaminação ideológica" é uma qualidade vibrante, daquelas que, ao ler, você olha pro lado, apontando a página e dizendo para o abajur: "Tá vendo, né?" Outras vezes, atrapalha a ponto de não se conseguir levar a leitura adiante. Em parte, claro, isso deve ter relação com a empatia do leitor, mas é pouco.
No caso de Saramago, é bem possível que a qualidade dos romances esteja na proporção inversa do esquerdismo, explícito ou não. O que faz de O ano da morte de Ricardo Reis um bom romance é um silêncio que falta ao Ensaio sobre a cegueira, talvez, e sobretudo à Jangada de pedra. Isso para não falar naquilo em que se transforma a fórmula, a que já prestei "homenagem" por aqui.
De qualquer maneira, suspeito que o problema do Saramago, como de tanta gente - à esquerda, à direita ou pela meiuca -, é comparecer demais. Isso no sentido de comparecimento que um amigo usa para descrever o Gatorade de tangerina, que ele dispensa por achar que a fruta comparece em excesso, estragando a gatorabilidez do dito cujo. No romance, esse comparecimento excessivo é uma mistura de tudo que há de ruim na arte conceitual (ter conceito) com o que há de pior no academicismo. É como se auto-consciência de uma qualidade nublasse a qualidade ela mesma - problema para o qual muito contribui o estudo de literatura, sem dúvida.
(Coisa semelhante me fez perceber o embuste que era o Höderlin do pantanal, por exemplo - muito sabido sobre o que deveria escrever, coisa ainda pior na poesia. Ninguém se torna referência para ator da Globo à toa, afinal.)
Tudo isso seria perdoável (quem não quiser que não leia, cada um faz o que quiser com seu talento, inclusive estragá-lo), não fosse a mitificação de que fala o AFB. E não fosse também e acima de tudo o compromisso com o terno amassadinho na hora de receber um prêmio.
Posted by Bruno Rabin at May 13, 2008 04:04 PM
Comments
Concordo quanto à qualidade do Ensaio sobre a Cegueira, e não li Ricardo Reis, mas achei as Intermitências dos livros mais divertidos que já li, e pra o Homem Duplicado, o Memorial do Convento e a Caverna.
Sobre contaminação ideológica, acho que ninguém imaginaria que Saramago é um idiota - fato - só por ler seus livros. Está mais no interesse que as pessoas desenvolvem pelo autor que nos livros em si, e isso não é culpa do Saramago. E acho que ele está longe de ser um "mito esquerdista" na literatura, e também que o esquerdismo nunca se evidenciouem sua obra.
Estúpido, sim, é que alguém considere que, porque bom escritor, ele sabe algo de política. Quando começam com isso dói, dói.
Posted by: Gustavo at May 13, 2008 04:40 PM
Taí o Vargas Llosa a comprovar e reforçar: romancista de mão cheia e pífio analista político, vide a atabalhoada carreira política do moço. No outro extremo do espectro, logo ao alcance da mão do MVL, tá o García Marquez, tão florido quanto Jorge Amado, só que enquanto o baiano formou sólida parceria com ACM, o colombiano preferiu os rapapés habaneros.
Posted by: Pimentel at May 13, 2008 08:37 PM