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February 06, 2008

Se plágio não tivesse a premissa cronológica, eu o processaria:

Ver cinema sem ver trailer é o mesmo que ler livro sem ler orelhas. Pois ninguém vai negar: toda a indústria livreira, a própria literatura, pra não falar da cultura em geral, estariam perdidas se os livros não tivessem orelhas. O mesmo digo do Cinema, com relação ao trailer. ele é de tal importância que certos filmes, depois do happy-end e do cavaleiro solitário trotando em dirção ao pôr-do-sol, deveriam ter um letreiro final: "Agor que você viu o filme, não perca o maravilhoso trailer, breve nos cinemas tais e tais." Estranho que os revolucionários do Cinema, buscando novas formas , montagens mais libertas, cortes diretos com passagem de tempo, fotos mais "sujas", tremidas, desfocadas, não tenham percebido que a revolução já foi feita e assimilada - é o trailer. O trailer é a libertação da técnica e a superação da lógica discursiva. A coerência explode, a cronologia enlouquece, a seqüência se nega, a música pode ser cinicamente ensurdecedora, as cenas truncadas, perguntas ficam para sempre sem resposta, respostas dramaticíssimas surgem sem perguntas que as justifiquem, telas se partem, caras se fragmentam, cenas redemoinham em gigantescos carrosséis de letras desavergonhadas: Colossal! Único! Inesquecível!, cobrindo cenas de amor e sexo e tornando-as mais eróticas do que quando vistas por inteiro. Mas, acima de tudo, o trailer também liberta o espectador da ditadura crítica. Graças a Deus nenhum jornal inventou, até hoje, um crítico de trailers. Resumo: só um cego, ou um cineasta, não vê que o longa-metragem está pelo meno scom vinte anos de atraso em relação ao trailer. Pois o trailer é a consumação de uma utopia artística; não há trailer ruim. Ninguém sai no meio de um trailer.

(FERNANDES, Millôr. Millôr Definitivo: a bíblia do caos. Porto Alegre: L&PM, 1995.)

Posted by Bruno Rabin at February 6, 2008 11:27 PM

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