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February 15, 2008
O cineasta
Cineastas estão para a classe média "informada" como modelos estão para o resto. Todos querem dirigir um filme. Melhor: querem ser diretores. Reconhecimento intelectual, publicidade, poder - está tudo lá na figura do "gênio". Enquanto adiam o sonho, vão enchendo nossa paciência com documentários. Interessante notar que a ambição do "gênio" não passa pela leitura, por algum estudo, ou por qualquer outra coisa que exija um pouco mais dos neurônios. Este, o cinema brasileiro renascido: quantidade cada vez maior, qualidade bosta de sempre. E como o predador natural dessa espécie - o mercado - não pode entrar na jaula dos incentivos públicos, há cada vez mais deles à solta por aí.
Posted by Bruno Rabin at 11:24 AM | Comments (2)
February 13, 2008
Perdi alguma coisa
Não existe mais essa história de correção gramatical, né? Tudo depende da adequação, não é mesmo? As normas não podem ser prisões, certo? E também não podem servir à exclusão e ao preconceito, ok? Então, numa carta formal ou em um texto acadêmico, deve-se usar uma linguagem adequada, isto é, que siga os preceitos da norma culta vigente, não é? E essa norma culta corresponde ao que poderíamos chamar também de correção gramatical, tá me acompanhando? Mas... por quê? Ora, nessas situações, a linguagem adequada é a correta, certo? E isso não acontece apenas porque essa linguagem é mais clara ou mais precisa, não é mesmo? Isso também tem alguma relação com a impressão que queremos causar nos leitores, né? E, provavelmente, essa boa impressão tem como pressuposto o fato de que a norma culta parece constituir uma linguagem melhor, não é mesmo? Ah, então quer dizer que existe uma hierarquia de qualidade, certo? Do contrário, eu poderia usar gírias e traços de oralidade numa tese de doutorado, desde que a considerasse "adequada", é isso? Mas ninguém usaria, não é mesmo? Então, quer dizer que existe essa história de correção gramatical?
Posted by Bruno Rabin at 08:38 AM | Comments (0)
February 10, 2008
Being Humberto Martins

Interessante ser o Humberto Martins por uns tempos, participar daquela consciência se olhando no espelho e dizendo: "Como é possível alguém me considerar um ator? E essa minha voz, meu Deus do céu, o que é isso?!" Porque ainda se pode acreditar que, à noite, em pleno silêncio, as pessoas tenham alguma noção.
Posted by Bruno Rabin at 10:41 PM | Comments (3)
February 06, 2008
Se plágio não tivesse a premissa cronológica, eu o processaria:
Ver cinema sem ver trailer é o mesmo que ler livro sem ler orelhas. Pois ninguém vai negar: toda a indústria livreira, a própria literatura, pra não falar da cultura em geral, estariam perdidas se os livros não tivessem orelhas. O mesmo digo do Cinema, com relação ao trailer. ele é de tal importância que certos filmes, depois do happy-end e do cavaleiro solitário trotando em dirção ao pôr-do-sol, deveriam ter um letreiro final: "Agor que você viu o filme, não perca o maravilhoso trailer, breve nos cinemas tais e tais." Estranho que os revolucionários do Cinema, buscando novas formas , montagens mais libertas, cortes diretos com passagem de tempo, fotos mais "sujas", tremidas, desfocadas, não tenham percebido que a revolução já foi feita e assimilada - é o trailer. O trailer é a libertação da técnica e a superação da lógica discursiva. A coerência explode, a cronologia enlouquece, a seqüência se nega, a música pode ser cinicamente ensurdecedora, as cenas truncadas, perguntas ficam para sempre sem resposta, respostas dramaticíssimas surgem sem perguntas que as justifiquem, telas se partem, caras se fragmentam, cenas redemoinham em gigantescos carrosséis de letras desavergonhadas: Colossal! Único! Inesquecível!, cobrindo cenas de amor e sexo e tornando-as mais eróticas do que quando vistas por inteiro. Mas, acima de tudo, o trailer também liberta o espectador da ditadura crítica. Graças a Deus nenhum jornal inventou, até hoje, um crítico de trailers. Resumo: só um cego, ou um cineasta, não vê que o longa-metragem está pelo meno scom vinte anos de atraso em relação ao trailer. Pois o trailer é a consumação de uma utopia artística; não há trailer ruim. Ninguém sai no meio de um trailer.
(FERNANDES, Millôr. Millôr Definitivo: a bíblia do caos. Porto Alegre: L&PM, 1995.)
Posted by Bruno Rabin at 11:27 PM | Comments (0)
February 03, 2008
Preguiça e arte
Metade da qualidade de certos livros ou filmes está em seu tamanho. Crime e castigo, Guerra e paz, O poderoso chefão e Camille Claudel são exemplos óbvios; como o são, pelo avesso, Bartleby, qualquer Borges, La Jetée.
Hollywood costuma premiar o fôlego. Concursos, de maneira geral, não conseguem funcionar sem o fetiche do virtuosismo. Faz sentido. Nesse mundão de gente preguiçosa, como não dar o Oscar a um cara que emagrece cem quilos ou a uma cena de quarenta minutos ensaiada duzentas vezes?
Várias outras coisas pra dizer; quando der, ok?
Posted by Bruno Rabin at 06:58 PM | Comments (1)