« Desabafo sobre um outro (e sobre mim mesmo, como há de ser) | Main | Um Bach-zinho sábado à noite »

October 18, 2007

O dia em que quebrei as mãos de Nelson Freire

Troquei os pés pelas mãos. Literalmente. Tinha prometido ir ao primeiro concerto do Nelson Freire que aparecesse pela cidade. Pois ele apareceu justamente no dia em que a seleção brasileira fazia sua partida contra o Equador. Não tive escolha; e acho até que não faria outra.

***

A platéia já vai preparada para aplaudir. Ninguém nota a entrada lenta em duas ou três notas de um scherzo notabile. Nem eu, para falar a verdade. Aplaudo também.

E aproveito o concerto para pensar em como gostaria de ser vizinho de um pianista, mas um bem fracote, que eu pudesse ameaçar quando desejasse ficar em paz.

Depois do concerto, espero o pianista sair para cumprimentá-lo. Ele me olha assustado, mas não consegue escapar: estendo a mão e ele a aperta querendo ir embora. Não deixo. E fico com a mão dele apertada pela minha, cada vez com mais força. Ele se contorce, puxa a mão com a outra, tenta a todo custo se livrar de mim. Vai ficando vermelho quase roxo e começa a suar. Aumento a força e faço um leve entorce, até sentir um pedaço de osso se deslocar com o barulho desejado. Só então, sua mão quebrada, ele consegue se libertar. Deixou-o ali, incrédulo, enquanto termina o último movimento antes de mais aplausos. Aplaudo-o também.

Posted by Bruno Rabin at October 18, 2007 07:47 PM

Comments

Puxa, até hoje ninguém comentou nada aqui?
Tô me dobrando de rir!!!
João Moreira Salles tava lá prá documentar?
Se não tava perdeu grande oportunidade.
Sensacional!
P.S.: Adoro Nelson Freire!
beijos

Posted by: Graça at January 25, 2008 12:26 PM

Post a comment




Remember Me?

(you may use HTML tags for style)