« September 2007 | Main | November 2007 »
October 29, 2007
Clichê na sala escura
Há um truísmo a respeito do cinema que está fazendo uns cem anos, mas continua a fazer sucesso entre gerentes de R.H.: "Ah, mas o livro é muito melhor que o filme!"
Lógico. É um filme. É preciso que o livro seja muito ruim para que o filme o supere. Mas aí também não há sentido: quem produziria, dirigiria, estrelaria um filme baseado em um livro muito, muito ruim? E quem assistiria a esse filme? (Hummm, temos o Tarantino, é claro, mas as exceções, vocês sabem, ...)
Poderíamos deixar estabelecido de uma vez: livros são melhores que filmes — o que não torna os filmes necessariamente ruins. Por isso mesmo é que os cineastas têm procurado a literatura como fonte; nunca se viu o contrário.
André Bazin costumava dizer que as adaptações para o cinema — se não forem boas em si mesmas — têm pelo menos a vantagem de divulgar para o grande público um autor de qualidade. Com mais alguns leitores, a literatura só teria a ganhar (ou perder, se a conta for qualitativa).
Posted by Bruno Rabin at 03:53 PM | Comments (1)
October 27, 2007
Já se tentou modificar muito o marxismo; trata-se de interpretá-lo

Dos relativismos contemporâneos, o mais curioso é aquele que pretende reduzir ideologias, sistemas filosóficos e políticas ao discurso da professora "antenada": "Olha, na verdade, é claro que a esquerda tem coisas boas, assim como a direita tem lá sua razão; o importante é não exagerar", diz, enquanto lambe os dedos do chocolate derretido que sempre carrega na bolsa. Ensina ela que é da boa educação discordar só um pouquinho, como quem pede desculpa pela grosseria.
O radicalismo se tornou, para muita gente, o contrário do que é (ou deveria ser): irracionalismo, ao invés de inteligência na raiz. Por isso, nos 40 anos da morte de Che Guevara e 90 da Revolução Russa, fala-se muito em revisão histórica dos mitos e no retorno de conversas do tipo não-é-porque-esse-modelo-de-socialismo-não-deu-certo-que-a-idéia-em-si-morreu. Parece difícil, para essas pessoas, perceber que a teoria não é uma menina de cabelo arrumadinho, sempre pronta a ajeitar um fio solto, antes de sair e que, por isso mesmo, nunca sai. Ou sai, e o vento lhe bagunça tudo. "Mas eu juro que ela é bonita. Foi o vento que desarrumou."
Também não se percebe que é difícil aceitar certas verdades pela metade. Às vezes, dá pra partir a coisa em pedaços, pegar uma parte boazinha e jogar o resto fora; na maioria dos casos, porém, sobretudo em posições políticas e (custa dizer) ideológicas, não se pode ficar com um pedaço sem aceitar sua premissa. É um problema de lógica.
Por outro lado, fica-se espantado com a persistência de tanta gente em esquerdismos, socialismos, marxismos e afins - apesar de tudo: evidências e premissas. Posso estar errado, mas acho que é só uma questão de marketing, muito melhor na esquerda do que na defesa da economia de mercado, por paradoxal que pareça. O vermelho é a cor das cores; a foice-e-o-martelo, fortíssimos; o herói é mais charmoso; as citações, mais românticas; e até o hino é mais bonito. A propaganda faz a gente esquecer muita coisa do produto. E sempre que ela atenta contra a razão, pensamos: "Mas, que diabo, não vou deixar de querer esse chocolate só por causa das calorias". E, no fundo, não deixa de ser irônico que justamente a publicidade seja a força que faz da esquerda uma mosca que não larga esta sopinha. Nisso, a esquerda se rende; e a direita também. No que ganham os marrons. Aleluia.
Posted by Bruno Rabin at 03:48 PM | Comments (11)
October 24, 2007
Literatura e mau-humor (III)
Se eu fosse o chefe do Bartleby, demitia o cara logo na primeira vez. E fim de papo.
Posted by Bruno Rabin at 01:44 PM | Comments (1)
October 23, 2007
Arrrrnaldo Jaborrrr
Arnaldo Jabor é o Galvão Bueno da política e da cultura: Faz lá o dele, gritando como pode e se indignando bastante, inclusive a favor. Aliás, coisa bem interessante essa de se indignar a favor. Chega a ser uma revolução na arte da polêmica: concordar com tudo, mas balançando a cabeça de um lado para o outro, dizendo "tsc-tsc-tsc".
Jabor se faz de analista da pós-modernidade, muito embora pareça que a pós-modernidade seja uma invenção dele para justificar, como sintoma, a própria verborragia, quase sempre chamuscada de erudição. E riso vulgar a contento. E cinismo também. E um terno desalinhado às vezes. E bastante cuspe enquanto fala.
Volta e meia, ele fala de "novidades" como a desreferencialização do real, o fim das fronteiras, a falência de utopias e ideologias. Repete o mantra (agora a gente tem que usar essa palavra, "mantra", quando fala de alguma repetição, já viram?) da inexistência de esquerda e direita, da necessidade de ultrapassar o maniqueísmo. Engraçado. Se não me falha a memória, em 82,6% de seus artigos, Jabor faz reduções do tipo "Antigamente" x "Hoje", inclusive no texto de hoje, nO Globo.
E justamente sua melhor qualidade - a de ser ex-cineasta brasileiro, num país em que todo mundo é cineasta-wannabe - também está indo pro brejo: ele está rodando outro filme. Sugeriram como título "Eu te odeio", mas ele achou que era elogio.
Posted by Bruno Rabin at 06:23 PM | Comments (3)
October 20, 2007
Um Bach-zinho sábado à noite
Posted by Bruno Rabin at 07:42 PM | Comments (0)
October 18, 2007
O dia em que quebrei as mãos de Nelson Freire
Troquei os pés pelas mãos. Literalmente. Tinha prometido ir ao primeiro concerto do Nelson Freire que aparecesse pela cidade. Pois ele apareceu justamente no dia em que a seleção brasileira fazia sua partida contra o Equador. Não tive escolha; e acho até que não faria outra.
***
A platéia já vai preparada para aplaudir. Ninguém nota a entrada lenta em duas ou três notas de um scherzo notabile. Nem eu, para falar a verdade. Aplaudo também.
E aproveito o concerto para pensar em como gostaria de ser vizinho de um pianista, mas um bem fracote, que eu pudesse ameaçar quando desejasse ficar em paz.
Depois do concerto, espero o pianista sair para cumprimentá-lo. Ele me olha assustado, mas não consegue escapar: estendo a mão e ele a aperta querendo ir embora. Não deixo. E fico com a mão dele apertada pela minha, cada vez com mais força. Ele se contorce, puxa a mão com a outra, tenta a todo custo se livrar de mim. Vai ficando vermelho quase roxo e começa a suar. Aumento a força e faço um leve entorce, até sentir um pedaço de osso se deslocar com o barulho desejado. Só então, sua mão quebrada, ele consegue se libertar. Deixou-o ali, incrédulo, enquanto termina o último movimento antes de mais aplausos. Aplaudo-o também.
Posted by Bruno Rabin at 07:47 PM | Comments (1)
October 17, 2007
Desabafo sobre um outro (e sobre mim mesmo, como há de ser)
Romances sobre desajustados agradam a muitas pessoas. Elas gostam de se identificar com o outsider, o marginal, o incompreendido - um pouco porque se sentem assim no mundo (e quem não se sente no meio dessa gente toda tão feliz, dessa gente toda reclamando feliz da vida?), um pouco porque há o charme da humildade inofensiva. Tudo muito moderadamente, como convém. Quem é sórdido, quem vil, quem dissimulado? Quem passa a perna? Quantos de nós Iagos?
Posted by Bruno Rabin at 08:47 AM | Comments (1)
October 14, 2007
Uma esperança recorrente
O querer assistir ao jogo no Maracanã ou a um show imperdível não supera o querer que os ingressos acabem antes que eu possa comprá-los - da mesma forma que às vezes damos um telefonema esperando que, do outro lado, ninguém atenda.
Posted by Bruno Rabin at 10:36 PM | Comments (0)
October 09, 2007
Tropa de Elite, osso duro de roer
Vi Tropa de Elite, afinal. Pensei em não ver e dizer que não fazia mesmo questão de ver por causa das pessoas que insistem em fazer elogios do tipo “O filme é sensacional mesmo.” (Vocês precisam ver quem são essas pessoas...)
Mas assisti ao filme. E o filme não é sensacional. Tem narrador em off dando “sentido” às imagens; tem Wagner Moura fazendo piada com a boca de lado (sempre engraçado, até quase torturando); tem direção de fotografia à Nigella. Uma inovação (bocejo). O “soco no estômago” ficou por conta do almoço indigesto mesmo.
Mas é preciso, acho, falar sobre o filme, menos pela pirataria (que não chega a ser falta de caráter, o que seria sofisticado demais em muitos casos) do que pela catarse pró-BOPE, com direito a agressão a consumidores.
A figura do capitão Nascimento (até nome simbólico o filme tem, meu povo) - incorruptível e torturador - suscita três reações: o cinismo, a projeção e o horror. Fico com uma quarta: o "pé atrás" diante de quem não percebe a contradição em termos que é torturar e ser incorruptível, o "pé atrás" quanto à indiferença de quem sai do filme fazendo piada e o "pé muito atrás" com a indignação horrorizada.
A desconfiança se explica: Tropa de Elite é só um filme bem feito (não é pouco, claro, mas também não é muito); o BOPE é um sintoma, não é causa de nada (atingir sintomas não resolve o problema, claro, mas isso não significa que não se deva diminui-los); e a classe média é média mesmo.
E há também a quinta reação, do Jabor, que é a de dizer que Tropa de Elite nem chega a ser um filme.
Posted by Bruno Rabin at 02:52 PM | Comments (2)
October 07, 2007
(IV)
Quem procura lugares indevassáveis geralmente está atrás de coisas muito devassas.
Posted by Bruno Rabin at 09:58 PM | Comments (0)
October 02, 2007
isto não é um post
(Eu avisei.)
Posted by Bruno Rabin at 10:17 PM | Comments (4)