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March 24, 2007
Etimologia selvagem
Estou acabando de ler um dicionário etimológico e não fico satisfeito enquanto não decorar tudo. Mas é pouco. Preciso de mais palavras para realizar um sonho: levar ao limite da paciência meia dúzia de pessoas para quem etimologia e verdade são sinônimos.
Não bastasse ter que ouvir gerentes de R.H. falarem “pré-conceito”, assim como muita ênfase no prefixo (gerentes de R.H. adoram prefixos, mas adoram “ênfase” acima de tudo, palavra que pronunciam devagarinho, mexendo a cabeça pra cima e pra baixo, em sinal de profunda sabedoria). Tá bem, não tenho ouvido gerentes de R.H. dizerem isso; acho que nunca vi uma gerente de R.H. de verdade. Mas conheço muitas pessoas assim, pessoas que ainda não descobriram a vocação e já consideram o Jô uma pessoa muito inteligente, confessam gostar de novela, sim, e dizem ter “cometido” alguns poemas na vida.
Digressiono.
O fato é que essas pessoas presas à etimologia me irritam. Isso já seria o bastante para eu querer irritá-las. Com carinho (e eu tenho muito carinho por alguns animais), vocês não têm nada a ver com isso. Mas eu não escolho os leitores deste blog (chegarei lá, vou logo avisando), e o pessoal adora um fundamentozinho. Então é o seguinte: gente que fica falando a origem das palavras, apesar da qualidade do pedantismo (que me causa alguma inveja, devo confessar), geralmente acha que a etimologia é o fim de tudo, como se não fosse justamente o contrário. Como se “inveja”, de “invidere”, “lançar um olhar para dentro de algo” fosse então toda (a) inveja.
São as mesmas pessoas que fazem questão de dizer o tempo todo que “a língua é um organismo vivo, uma essência mutante”, me fazendo lembrar o cocô de agora há pouco. Falam, achando que pensam, e não pensam no que falam (essa frase, se essa gente ler, vai anotar no caderninho, pode escrever aí!). Não deixa de ser curioso: só mesmo um sujeito que desconheça o sentido de evolução pode achar que a palavra é o que era. (Até que faz sentido...)
Bem, mas o que queria contar é sobre essa minha idéia de sair disparando a origem de todas as palavras. Interromper o discurso nele mesmo, a cada instante, numa auto-referência ao infinito, que impossibilite qualquer conversa e qualquer resposta. E no meio disso todo, posso até recuperar uma de minhas maiores virtudes, abatida em pleno vôo pela professora da sexta série, que é a de fazer “etimologias selvagens”.
Tendo descoberto o sentido do prefixo “pro-” e o grego “polis” e querendo impressionar a professora novata de português (novata e muito charmosa, com uns olhos levemente vesgos e um sotaque do sul), enfim, para impressioná-la, disse que ela deveria tomar própolis para curar a dor de garganta. E expliquei: “própolis, sabe, professora? Aquilo que é anterior à cidade, o campo, a natureza.” Ela não conhecia Heidegger; nem eu. Mais um talento perdido.
Ou então eu desisto mesmo. Pouco importa.
Posted by Bruno Rabin at March 24, 2007 07:40 PM
Comments
Sim, sim... É como se, em última instância Deus falasse indo-europeu.
Posted by: Pedro Sette Câmara at March 24, 2007 09:08 PM
Mais vale um talento perdido que a falta de um.
Posted by: Ed at March 25, 2007 12:39 PM
Discordo.
Posted by: Bruno Rabin at March 27, 2007 10:12 PM
Muito bom!
Posted by: Moe at May 6, 2007 08:36 AM
Perdão mas “lançar um olhar para dentro de algo” não faz sentido para mim.
Prefiro invidere = "olhar com insistência para, lançar maus olhares para" (sent. etimológico), segundo António Gomes Pereira,Ed.Porto
Posted by: Milton at December 22, 2007 02:48 PM