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July 25, 2006

As palavras e as coisas: estudo de um personagem

Há palavras que, se a gente pensar bem, não consegue dizer. Ou consegue, mas precisaria ter outro nome na identidade. João Paulo, por exemplo, não dá um bom apreciador de drinks. Ninguém aprecia drinks impunemente; sobretudo, ninguém pronuncia a palavra drink impunemente. É questão de caráter. Talvez fosse o caso de se chamar Augusto. "Prazer, Augusto. Você aceita um drink?" Quem oferece drink costuma ligar a TV para ver o "repórter". Não é questão de idade. Pode-se ter dezessete anos e aristocracia suficiente, ou nenhuma, para ver o repórter à noite. Quem assiste ao repórter apreciando um drink deveria se chamar Augusto. Talvez Adolfo. E Adolfo, ou Augusto, quando precisa destratar alguém, apela logo para o único adjetivo que lhe cabe: "cretino". Aliás, quem aprecia drinks e vê o repórter nem mesmo usa adjetivos; ao xingar, por exemplo, dá o defeito inteiro: "Cretinice". "Estupidez". "Insubordinação". Palavras ditas em voz baixa, quase sussurada, ao cão de guarda sentado à frente. Mas quem toma drink e vê o repórter não tem cão de guarda, ou não se chama Augusto. Deixa pra lá.

Posted by Bruno Rabin at July 25, 2006 08:20 PM

Comments

a parte de 'fala o defeito inteiro' foi a melhor haha, realmente!

Posted by: Mayra Chequer at July 26, 2006 12:28 PM

Acho que nem Foucault achampagneado escreveria algo assim.
Por que os substantivos são os defeitos inteiros? É tudo uma questão de classe, adjetivos até combinam melhor com drinks, eles precisam estar sempre acompanhados, e drinks ficam melhor acompanhados (ou com comida, para não passar mal - ou com alguém mesmo).

Posted by: Jonathan at August 24, 2006 10:13 PM

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