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July 30, 2006

“Um suco de garagem”

Ir às compras pode ser educativo. O Nunes, por exemplo: vendedor profissional. Em sua triste vida, misturava as linguagens das tantas lojas e setores em que trabalhou. Da concessionária de automóveis, levou algumas frases para a loja de sucos:

— Olha, o senhor precisa provar esse suco de goiaba. Tá novinho, novinho. Ele nunca foi oferecido pra outra pessoa. A goiaba veio de frete de Petrópolis, chegou agorinha mesmo. O senhor deu sorte. Eu não tava nem querendo oferecer esse suco, pensei em ficar com ele pra mim, mas o senhor é gente boa e eu percebi que tava querendo um suco bom, de qualidade, um suco sem problema, um suco de garagem...

Coitado, às vezes escorregava e misturava tudo. Uma vez, logo após deixar aquela loja de roupas num shopping, foi parar numa Pet Shop:

— Esse gatinho tá lindo mesmo. Tá saindo muito. A senhora não quer experimentar um? Isso, coloque assim no colo.. Perfeito! Olha, ficou muito bem na senhora. Parece até que foi feito sob encomenda. Uma graça. A senhora fica realmente muito bem de gato.

Foi demitido, claro. Mais tarde, tendo passado um tempo numa churrascaria popular, arrumou um “bico” na livraria “cabeça” de um bairro nobre:

— Deixa comigo, patrão! Vou buscar essa Proust no original agorinha mesmo. Tô vendo que o senhor gosta de coisa boa. Mas se o senhor preferir, tem o novo do Dan Brown, que tá saindo muito. Não quer não? O pessoal tá gostando bastante. E tem uma edição colorida com desenho, hein! Uma beleza, chefia.

Mas o pior aconteceu em casa, com a esposa e os filhos. De tanto tratá-los como clientes, um dia, após uma tentativa frustrada de convencê-los a ficar em casa em vez de ir para o jantar de Natal na sogra, acabou ouvindo da mulher a seguinte resposta:

— Pode ser, vou pensar... Enquanto isso, eu vou dar uma voltinha, para pesquisar um pouco, mas já, já estou de volta...

Ela nunca mais apareceu.

Posted by Bruno Rabin at 07:34 PM | Comments (4)

July 25, 2006

Uma câmera na mão, muita idiotice na cabeça

Deleuze escreveu um tomo para falar da imagem-tempo. Confirmou que devíamos gostar mesmo de Marienbad. Hoje, basta ter uma câmera digital à disposição. O genial e o idiota se sentam lado a lado. Isso não é pouco.

Posted by Bruno Rabin at 11:53 PM | Comments (3)

As palavras e as coisas: estudo de um personagem

Há palavras que, se a gente pensar bem, não consegue dizer. Ou consegue, mas precisaria ter outro nome na identidade. João Paulo, por exemplo, não dá um bom apreciador de drinks. Ninguém aprecia drinks impunemente; sobretudo, ninguém pronuncia a palavra drink impunemente. É questão de caráter. Talvez fosse o caso de se chamar Augusto. "Prazer, Augusto. Você aceita um drink?" Quem oferece drink costuma ligar a TV para ver o "repórter". Não é questão de idade. Pode-se ter dezessete anos e aristocracia suficiente, ou nenhuma, para ver o repórter à noite. Quem assiste ao repórter apreciando um drink deveria se chamar Augusto. Talvez Adolfo. E Adolfo, ou Augusto, quando precisa destratar alguém, apela logo para o único adjetivo que lhe cabe: "cretino". Aliás, quem aprecia drinks e vê o repórter nem mesmo usa adjetivos; ao xingar, por exemplo, dá o defeito inteiro: "Cretinice". "Estupidez". "Insubordinação". Palavras ditas em voz baixa, quase sussurada, ao cão de guarda sentado à frente. Mas quem toma drink e vê o repórter não tem cão de guarda, ou não se chama Augusto. Deixa pra lá.

Posted by Bruno Rabin at 08:20 PM | Comments (2)

Soberba

Os pequenos defeitos dão as melhores pequenas histórias. Não é mesmo interessante o ar superior com que passam os que acabam de sair da sessão de cinema olhando aqueles pobres coitados que ainda estão à espera do filme? Estar um filme à frente dos outros, eis a raiz dessa humilhação. Depois reclamam das guerras.

Posted by Bruno Rabin at 12:21 AM | Comments (1)

July 12, 2006

A cabeçada do argelino

"Às vezes imagino o que dirão de nós os futuros historiadores. Uma só frase lhes bastará para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais."
(Albert Camus, A Queda)

Posted by Bruno Rabin at 03:11 PM | Comments (2)

July 06, 2006

O lixo, metafórico ou não

O lixo é o acúmulo de sujeira. É quando a sujeira chega ao máximo de indiferenciação. Por isso, todo lixo tem o mesmo cheiro. Por isso, todo perfume tem sua singularidade.

Isso vale para muitas metáforas (não todas) a respeito do que pode resultar de misturas excessivas que não cheguem a uma nova identidade. Na indústria de perfumes, o cheiro singular deve surgir depois de muito erro, depois de muito lixo. Quantos não-perfumes são necessários para a "invenção" de um perfume novo singular?

Pode-se fazer uma teoria do lixo nas artes ou na política como o resultado da falta de critérios para saber quando uma mistura cria algum valor e quando seu resultado é a indiferenciação.

Acontece assim quando as coisas são vistas superficialmente: um evento excepcional vira regra. O raciocínio, por simplista, é simples: "Este sujeito aqui fez uma nova arte pela mistura disso com aquilo. Genial! Então, basta misturar as coisas para ser sublime também. E como o valor está na mistura, quanto mais se misturar, tanto mais valioso será o resultado." Que injustiça. Os outros pensam errado e nós é que "temos" que ir às Bienais.

Na política, é a metáfora que dá sentido à realidade. Como nada cheira bem em Brasília, no sentido metafórico, da mesma forma os bons perfumes e a limpeza são contaminados pelo sentido figurativo. O terno impecável, o carro novíssimo, o prédio iluminado, a grama aparada, o perfume francês - tudo que representa beleza pura e limpa (também no sentido figurado, se quisermos falar do capitalismo, por exemplo), enfim, todo perfume tende ao lixo. A sujeira figurativa do caráter faz cheirar mal o aroma perfumado do corpo.

E antes que se antecipe a resposta intuitiva da necessidade de limpeza, convém desanimar com a pergunta incômoda: há limpeza possível para a mistura de caráter? Na arte, a mesma coisa. O consolo, se houvesse algum, é que ainda nos restaria o faro. Mas, em meio ao lixo, isso é alguma vantagem?

Posted by Bruno Rabin at 10:39 AM | Comments (1)