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May 31, 2006
Armando Nogueira: o gol contra
Não sei se vocês sabem, mas as coisas funcionam assim: temas aristocráticos pedem literatura que os desmonte; assuntos plebeus demandam, ao contrário, alguma espécie de mitificação. Quando não há contraste, trata-se de má literatura. E quando a má literatura é péssima - não por falta de técnica, que isso é besteira, mas talvez pelo excesso -, cria-se um tal constrangimento, que o encontro entre assunto e palavra fica para sempre comprometido, como o namoro após um pum ruidoso no primeiro encontro ou, pior, após um beijo meloso demais.
Parece que aconteceu assim com o futebol. Aristocrático por natureza, o esporte merecia umas bolachas, para ver o que é bom. Para cada golaço, uma história interrompida; para cada balão, uma frase rasteira. Quanto mais se fizesse no futebol, tanto menos se faria na literatura.
Mas entre o futebol e a arte, surgiu Armando Nogueira. E com Armando Nogueira, perderam ambos: o jogo e o texto. Senão, vejamos:
Sobre a bola, disse o "mestre das tintas lançadas com sofreguidão ao papel impávido":
"Num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quiçá no meio-fio, pára de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho."
Após a final de 70, Armando Nogueira - o "artesão do lance, craque da frase" - nos deu este presente:
"Os campeões mundiais em volta olímpica, a beijar a tacinha, filha adotiva de todos nós, brasileiros? Ternamente, o capitão Carlos Alberto cola o corpinho dela no seu rosto fatigado: conquistou-a para sempre, conquistou-a por ti, adorável peladeiro do Aterro do Flamengo. A tacinha, agora, é tua, amiguinho, que mataste tantas aulas de junho para baixar, em espírito, no Jalisco de Guadalajara. Sorve nela, amiguinho, a glória de Pelé, que tem a fragrância da nossa infância."
Ao descrever Heleno de Freitas, o "artilheiro da linguagem" alcançou o sublime:
"Só tinha afagos pra conquistar a bola, em cuja convivência realizava sua face de anjo. (...) Dormia abraçado com a bola delirante do jogo de ontem, de hoje, de amanhã, de sempre. Quando acordava, bola murcha, Heleno tornava ao delírio. Heleno de Freitas, o craque das mais belas expressões corporais que conheci nos estádios, morreu, sem gestos, de paralisia progressiva, e descansa, hoje, no Cemitério de São João Nepomuceno, onde nasceu um dia, para jogar a própria vida num match sem intervalo entre a glória e a desgraça."
Por muito tempo, ninguém com talento teve coragem de escrever sobre futebol, menos por admiração a Armando Nogueira do que por vergonha - é bom deixar claro, porque há todo tipo de leitor por aqui e, neste caso, a ambigüidade precisa ser evitada, sob o risco de se perderem alguns amigos. Acredito até que, também por muito tempo, o próprio futebol se envergonhou na mesma medida.
Aos poucos, tudo parece voltar ao normal. E o futebol, novamente aristocrata, bem que merece umas pancadas para continuar altivo. Sorte a nossa - apreciadores de futebol e literatura - que ninguém mais ouve o que o "zagueiro do jogo entre as palavras" tem a dizer. Com a televisão ligada, mas no volume mudo, é possível imaginar o significado daqueles gestos, mas o silêncio se impõe. E o silêncio, nem Armando Nogueira consegue estragar.
Posted by Bruno Rabin at 11:08 AM | Comments (20)