« March 2006 | Main | May 2006 »
April 28, 2006
Jonatan, a postos
Agressivo era o Jonatan, que gostava de dar pescotapa numa tia mais velha. Envergava o braço esquerdo e largava a mão na dona Dirce. A repreensão risonha da mãe não chegava a intimidar: a velha merecia a pedalada. Agressivo, o Jonatan. Agressivo e muito estúpido. Deixou de fazer uns sete ou oito aniversários, por causa das velinhas não sopradas. Entendia “velhinhas” e soprava as avós.
Depois ainda tentou correr na frente do prejuízo, fazendo duas festas de aniversário por ano. Mas perdeu as contas e foi além do que devia. Aos 21 anos, já tinha uns 29. A essa altura, mandaram que parasse de brincar com o tempo. Burrice não tem idade: Jonatan entendeu errado e continuou fazendo chuva quando bem entendesse. Dia de festa, então, era chuva e trovoada. Teve vez que nevou.
Com a morte da tia e das velhas para soprar, Jonatan achou por bem fazer festa surpresa. Deve ter confundido as coisas, porque a surpresa da festa era a data, que nunca coincidia com o aniversário. Vendo tudo ir errado durante cinco anos, mudou de tática: convidava todos para a festa em sua casa e não ia. Perdeu dois aniversários e chegou a ter 32. Isso aos 26.
A trapalhada deu certo. A morte programada para os 28 anos chegou para buscar o Jonatan quando ele já tinha 33. E chegou justo no dia do aniversário, a tempo de levar um pescotapa estalado. E bolo na cara. Porque o Joanatan adorava fazer cerimônia com o primeiro pedaço, mas era só pra esconder a safadeza. O convidado de primeira viagem, quando ia pegando o pratinho, levava o bolo da fuça. E outro pescotapa. Safado, esse Jonatan.
Safado e feliz. Ninguém aproveitou tanto o aniversário quanto o Jonatan. Festa na repartição, barzinho com os amigos, comemoração a dois com Eneidinha - não houve ocasião em que alguém não levasse bolo ou coisa qualquer. Fazia questão de deixar a cerveja fora do gelo e arrumar um som com caixa estourada. Jonatan se antecipava aos problemas, e ai de quem reclamasse: era bolo de novo na cara. E de repente um pescotapa.
Ainda esses dias o Jonatan me ligou, chamando para um aniversário. Coisa de um portal, uns blogs, se bem entendi. Não fui, mas fiquei sabendo que safadeza agressiva tem dono: parece que na hora do bolo, mão armada, riso contido, foi o Jonatan quem levou a pior. Eram uns dez, com mulheres no meio, dando tapas de um jeito esquisito - palavras na cara, com posts e links. E o Jonatan, estupidez em pessoa, ainda riu quando o bolo chegou. Bem idiota esse Jonatan.
Posted by Bruno Rabin at 07:25 PM | Comments (2)
April 27, 2006
Dalai Lá e eu cá
A matéria do Jornal da Globo fala do Dalai Lama e de como o Budismo está se tornando a segunda religião de muita gente. Duas coisas curiosas: as trapalhadas da vocação antropológica do jornalismo e o mérito da questão, se é que há algum.
Quanto ao jornalismo, ninguém supera a revista Época. “Os cariocas estão andando mais de bicicleta.” “Surfe sobre árvores é a nova tendência do esporte.” “Mulheres querem voltar à cozinha.” Depois que a realidade superou a ficção, o noticiário mais banal vale algumas vezes a reportagem de fôlego. No vácuo dos assuntos que rendem e com a economia da apuração por telefone, vale qualquer besteira.
E, afinal, o que dizer da visita do Dalai Lama a São Paulo? Se não foi paradoxo proposital — e por isso irônico —, a escolha da cidade é coisa que intriga. Mas deve haver algum nexo com a presença simultânea de Hugo Chávez por lá. Talvez a mensagem de que o gasoduto defendido por ele seja coisa do além. Não se sabe.
Melhor pensar que o Dalai Lama — igualzinho ao ator que o representou na Armação Ilimitada, faz um tempinho — esteja em campanha pelo segundo lugar mesmo. Uma espécie de SBT das religiões. E num país que elege Lula pela simpatia, faz sentido adotar o Budismo como crença: o cara é gordinho, usa umas roupas legais e ajuda mais na conquista amorosa do que o horóscopo (“Os signos são muito impositivos, sabe? Minha espiritualidade é mais livre e desprendida...”).
Mas não vai dar certo. O melhor para um culto assim é a distância: a Índia lá e a gente aqui. A visita ao Brasil dá imagens de mais para os jornalistas. Não vão faltar matérias, interpretações, crônicas e posts patetas. Nada melhor para um país iconoclasta e politicamente incorreto — no sentido incorreto da política e incorreto da incorreção (mas isso é assunto para outro post).
Posted by Bruno Rabin at 12:05 AM | Comments (6)
April 19, 2006
Como se tornar um filósofo
Heráclito, coitado, mal sabia que era pré-socrático. Em certo sentido, é uma esperança.
Posted by Bruno Rabin at 08:21 PM | Comments (2)
Vox Populi
Prefiro o chocolate amargo, porque - você sabe - de doce já basta a vida.
Posted by Bruno Rabin at 08:15 PM | Comments (0)