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March 30, 2006

Não podendo dizer do amor, diga-o quem melhor o disse, se a alguém ainda aprouver ouvi-lo

(...) no Mundo e entre os homens, isto que vulgarmente se chama amor, não é amor, é ignorância. Pintaram os Antigos ao amor menino; e a razão, dizia eu o ano passado, que era porque nenhum amor dura tanto que chegue a ser velho. Mas esta interpretação tem contra si o exemplo de Jacob com Raquel, o de Jonatas com David, e outros grandes, ainda que poucos. Pois se há também amor que dure muitos anos, porque no-lo pintam os sábios sempre menino? Desta vez cuido que hei-de acertar a causa. Pinta-se o amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacob, nunca chega à idade de uso da razão. Usar de razão e amar, são duas cousas que não se juntam. A alma de um menino que vem a ser? Uma vontade com afetos e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos pintores do amor lhe vendaram os olhos. E como o primeiro efeito ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem que isto que vulgarmente se chama amor tem mais partes de ignorância; e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama porque conhece, é amante; quem ama porque ignora é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem, ignorando, ofendeu, em rigor não é delinquente; quem, ignorando, amou, em rigor não é amante.
(Vieira, A. Sermão do Mandato, 1645)

Posted by Bruno Rabin at 05:56 PM | Comments (2)

March 06, 2006

Linha 65.536 X Coluna IV

Um romance absoluto, um conto denso, um parágrafo inesquecível, uma frase perfeita - muitos adjetivos para pouca coisa. Minha fantasia passa longe da literatura; cada vez mais, ela tem a forma de uma planilha de Excel.

Teria que ser uma planilha completa, até a última célula, mapeando a tudo e a mim mesmo. Todos os dados e todas as fórmulas. Análise e síntese simultaneamente. O passado, o presente e o futuro. A obra de arte perfeita: visão cósmica e microscópica.

Pensei em mostrá-la numa Bienal de arte, sob a forma de instalação interativa. Mas a concorrência é forte, e de coisas assim me bastam as artes de amigos do colégio. Deixo-a aqui por escrito, com a completude do que (não) consigo imaginar. Enough is enough.

Posted by Bruno Rabin at 03:01 PM | Comments (2)