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January 19, 2006
Quando eu gostava de ler
Quando eu gostava de ler, faz uns dez ou onze anos, costumava perder muito tempo arrumando a posição perfeita para segurar o livro do jeito mais confortável. Tinha que ser algo entre o relaxamento completo e a rigidez absoluta do braço, num equilíbrio dificílimo. Uma espécie de não sentir. Ainda não me doíam tanto as costas, donde se infere que a leitura era possível. Hoje, nem pensar.
Foi nessa época que eu desenvolvi uma crença em minha capacidade intelectual-sensorial: comecei a perceber que poderia intuir o todo pela parte - sem teoria, puro empirismo.
Da primeira vez, após ter chegado à metade de um longo romance colombiano e sem conseguir ir adiante - menos pela qualidade do livro e mais pela crise lombar -, percebi que tinha entendido tudo. Aquele amor melancólico, aquela demora, aquela incompletude bastante: tudo. Não precisava gastar o antiinflamatório; eu tinha intuído o livro.
A descoberta desse poder foi uma libertação. Passei a exercitá-lo com animação. A cada semana, um meio livro. Cheguei a cursar uma faculdade inteira com livros lidos pela metade. Minto. Nem mesmo pela metade; de muitos livros me bastava a introdução ou a orelha. Os trabalhos acadêmicos, ao contrário do meu temor inicial, tinham notas tanto maiores quanto menos eu tivesse lido da bibliografia. Apenas intuindo o que os autores queriam dizer, eu poderia reinventar as idéias, caminhar em outra direção, fazer diferente. E agradar aos professores.
Com o tempo, essa minha capacidade chegou à sua mais perfeita forma: a intuição pelo título. Um trabalho inteiro sobre "Diferença e repetição" foi a chave dessa singeleza. A partir de então, o prazer da adivinhação pela não-leitura substituiu com sobra o tempo perdido no virar de cada página.
Passei a perceber que muitos livros lidos antes dessa descoberta ganhavam outro sentido quando intuídos apenas por seu título. Tive raiva de mim, do tempo perdido com tanta leitura, da incompreensão de tantos romances e contos, da impossibilidade de desler.
Aos poucos, a excitação deu lugar ao tédio. Com poucos minutos diante da vitrine de uma livraria, eu tinha material suficiente para horas sentado num café ou andando pela cidade. As conversas nas festas e reuniões de amigos deixaram de representar qualquer desafio. Alguém citava um livro, eu pensava uns instantes e sugeria uma teoria a respeito. Uma ou duas meninas ainda ficavam a me ouvir, encantadas; outros, de inveja, deixavam-me a falar quase sozinho.
Sozinho eu me bastava, mesmo entediado, mas resolvi tentar algo novo. Certo dia, após ler um título de um conto num caderno literário, resolvi me arriscar a escrever um texto. Não um texto sobre o conto, mas o próprio conto, à minha maneira. Gostei tanto do resultado, que resolvi publicá-lo. A vontade durou pouco: que editor manteria o nome homônimo do meu conto? Mudá-lo não faria sentido.
Foi quando me veio a idéia de usar um blog para a experiência. Criei-o com um nome apropriado ao meu projeto; afinal, era de farsa que se tratava. Publiquei o conto e esperei. Poucos dias depois, a surpresa: dois elogios na caixa de comentários. Eram outros blogueiros, que tinham descoberto minha página por acaso e resolveram deixar um recado. Que prazer naquilo: novamente eu tinha motivação para exercitar meu dom.
Do primeiro ao centésimo post, passaram-se apenas uns poucos meses. Links para outros blogs aumentaram o número de leitores e de comentários. Eu mesmo passei a visitar os novos amigos virtuais, deixando recados que disfarçavam um convite para minha própria página. As visitas aumentavam em uma velocidade espantosa. Cada conto continuava sendo a intuição do texto de alguém. E quanto mais leitores eu tinha, mais eu queria escrever.
Tudo andou bem até o mês passado. Motivado pelo lançamento de uma coletânea de posts de um "vizinho", fui à livraria no centro da cidade para conhecer aquelas pessoas, escondendo-me como um passante. Ouvi muitas conversas, entre uma taça de vinho e um canapé, até ser surpreendido pela citação de um nome - meu nome virtual. Entre gargalhadas, o rapaz contava sobre sua estratégia de nunca ler meus textos até o final, escrever um comentário e receber minha resposta empolgada. Ria de como me enganava.
Desde então, suspendi os posts. Pensei em escrever sobre tudo: um conto, uma crônica, uma frase. Mas não havia título a copiar. Tive então a idéia desta confissão, imaginando que a originalidade biográfica talvez me salvasse. Nem isso.
Durante algum tempo, a escrita ainda era possível. Hoje, nem pensar.
Posted by Bruno Rabin at January 19, 2006 08:37 AM
Comments
Incrível, Bruno!
É um conto admirável; aliás, é um dos melhores que já li por aqui.
Adorei, parabéns.
Posted by: Mariana Fraga at January 19, 2006 02:06 PM
Muito bom, Bruno.
E juro que li até a última linha. ;-)
Posted by: Nariz Gelado at January 21, 2006 12:47 PM
És craniúdo, Bruno.
Posted by: Igor at January 26, 2006 08:19 AM
faço o contrário do rapaz: sempre leio até a última linha embora nem semrpe comente!
adoreiiiiiiiiiii
Posted by: Renata Wrobel at January 27, 2006 11:12 PM
Vi parar aqui após ler um comentário do Pedro Doria no nominimo.
Gostei do que li.
Prepare-se, Bruno, para ser a nova Bruna Surfistinha da mídia!!!!
Posted by: cabeçadehomem at February 10, 2006 02:31 PM