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January 29, 2006

Pornografia

Entre as coisas menos agradáveis: ouvir poesia lida em voz alta. A leitura de um poema é coisa íntima, personalíssima. Daí o constrangimento de ouvir alguém recitando; é como escutar seus sussuros e gemidos sexuais, com a diferença da libido ausente.

Talvez seja bom ler poemas para os outros. Algo comparável a atuar em uma peça de teatro ou tocar um blues: prazer de quem faz, pé no saco de quem escuta. Que tipo de pessoa gosta de uma coisa dessas: fazer do próprio prazer o desprazer alheio?

Posted by Bruno Rabin at 11:57 AM | Comments (10)

January 22, 2006

Tattoo caminha dentro?

Porque são tatuadores, tatuadores desconhecem a ironia. Felicidade de quem coloca “palavras” em japonês: tem certeza de que ali se inscreve Vida, Amor ou Trovão do Norte, e não Yakisoba de Camarão.

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Dá pra conhecer muito de uma pessoa que faz uma tatuagem. Sabe que vai ter uma marca “eterna” no corpo; por isso, reflete muito, estuda possibilidades e finamente faz sua escolha: uma águia segurando um pote de geléia sobre um livro de química.

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Um conhecido, preocupado com a tal eternidade, decidiu que só mesmo a imagem de seu ídolo — Che Guevara ou Bob Marley, não lembro, mas acho que dá na mesma — seria digna de ficar marcada na parte interna do braço para sempre. Olhei bem a cara do sujeito. Será que ele não pensou se o coitado do homenageado gostaria de ficar para sempre ali perto daquele sovaco nojento? Nem Che merecia uma coisa assim. Ou merecia?

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Eu, se fosse fazer uma tatuagem — bem, não seria eu —, mas se fosse fazer uma tatuagem, pensaria numa coisa útil, como os canais da Net; ou então a palavra “coisa” (“Eu tenho uma coisa tatuada, você quer ver?”). Mas acho que acabaria chegando a uma síntese borgiana e tatuaria “tatuagem”.

Posted by Bruno Rabin at 03:29 PM | Comments (25)

January 19, 2006

Quando eu gostava de ler

Quando eu gostava de ler, faz uns dez ou onze anos, costumava perder muito tempo arrumando a posição perfeita para segurar o livro do jeito mais confortável. Tinha que ser algo entre o relaxamento completo e a rigidez absoluta do braço, num equilíbrio dificílimo. Uma espécie de não sentir. Ainda não me doíam tanto as costas, donde se infere que a leitura era possível. Hoje, nem pensar.

Foi nessa época que eu desenvolvi uma crença em minha capacidade intelectual-sensorial: comecei a perceber que poderia intuir o todo pela parte - sem teoria, puro empirismo.

Da primeira vez, após ter chegado à metade de um longo romance colombiano e sem conseguir ir adiante - menos pela qualidade do livro e mais pela crise lombar -, percebi que tinha entendido tudo. Aquele amor melancólico, aquela demora, aquela incompletude bastante: tudo. Não precisava gastar o antiinflamatório; eu tinha intuído o livro.

A descoberta desse poder foi uma libertação. Passei a exercitá-lo com animação. A cada semana, um meio livro. Cheguei a cursar uma faculdade inteira com livros lidos pela metade. Minto. Nem mesmo pela metade; de muitos livros me bastava a introdução ou a orelha. Os trabalhos acadêmicos, ao contrário do meu temor inicial, tinham notas tanto maiores quanto menos eu tivesse lido da bibliografia. Apenas intuindo o que os autores queriam dizer, eu poderia reinventar as idéias, caminhar em outra direção, fazer diferente. E agradar aos professores.

Com o tempo, essa minha capacidade chegou à sua mais perfeita forma: a intuição pelo título. Um trabalho inteiro sobre "Diferença e repetição" foi a chave dessa singeleza. A partir de então, o prazer da adivinhação pela não-leitura substituiu com sobra o tempo perdido no virar de cada página.

Passei a perceber que muitos livros lidos antes dessa descoberta ganhavam outro sentido quando intuídos apenas por seu título. Tive raiva de mim, do tempo perdido com tanta leitura, da incompreensão de tantos romances e contos, da impossibilidade de desler.

Aos poucos, a excitação deu lugar ao tédio. Com poucos minutos diante da vitrine de uma livraria, eu tinha material suficiente para horas sentado num café ou andando pela cidade. As conversas nas festas e reuniões de amigos deixaram de representar qualquer desafio. Alguém citava um livro, eu pensava uns instantes e sugeria uma teoria a respeito. Uma ou duas meninas ainda ficavam a me ouvir, encantadas; outros, de inveja, deixavam-me a falar quase sozinho.

Sozinho eu me bastava, mesmo entediado, mas resolvi tentar algo novo. Certo dia, após ler um título de um conto num caderno literário, resolvi me arriscar a escrever um texto. Não um texto sobre o conto, mas o próprio conto, à minha maneira. Gostei tanto do resultado, que resolvi publicá-lo. A vontade durou pouco: que editor manteria o nome homônimo do meu conto? Mudá-lo não faria sentido.

Foi quando me veio a idéia de usar um blog para a experiência. Criei-o com um nome apropriado ao meu projeto; afinal, era de farsa que se tratava. Publiquei o conto e esperei. Poucos dias depois, a surpresa: dois elogios na caixa de comentários. Eram outros blogueiros, que tinham descoberto minha página por acaso e resolveram deixar um recado. Que prazer naquilo: novamente eu tinha motivação para exercitar meu dom.

Do primeiro ao centésimo post, passaram-se apenas uns poucos meses. Links para outros blogs aumentaram o número de leitores e de comentários. Eu mesmo passei a visitar os novos amigos virtuais, deixando recados que disfarçavam um convite para minha própria página. As visitas aumentavam em uma velocidade espantosa. Cada conto continuava sendo a intuição do texto de alguém. E quanto mais leitores eu tinha, mais eu queria escrever.

Tudo andou bem até o mês passado. Motivado pelo lançamento de uma coletânea de posts de um "vizinho", fui à livraria no centro da cidade para conhecer aquelas pessoas, escondendo-me como um passante. Ouvi muitas conversas, entre uma taça de vinho e um canapé, até ser surpreendido pela citação de um nome - meu nome virtual. Entre gargalhadas, o rapaz contava sobre sua estratégia de nunca ler meus textos até o final, escrever um comentário e receber minha resposta empolgada. Ria de como me enganava.

Desde então, suspendi os posts. Pensei em escrever sobre tudo: um conto, uma crônica, uma frase. Mas não havia título a copiar. Tive então a idéia desta confissão, imaginando que a originalidade biográfica talvez me salvasse. Nem isso.

Durante algum tempo, a escrita ainda era possível. Hoje, nem pensar.

Posted by Bruno Rabin at 08:37 AM | Comments (5)

January 16, 2006

Obscuridade

Não é possível postar duas vezes no mesmo blog.

Posted by Bruno Rabin at 11:13 PM | Comments (0)

January 01, 2006

Uma palavra sobre o Réveillon

Achei os fogos muito artificiais.

Posted by Bruno Rabin at 12:59 PM | Comments (7)