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December 04, 2005
A gula mata qualquer preguiça
Escreveria sobre a preguiça. A preguiça é um pecado capital. A gula também. Tenho mais fome que inércia. Escrevo sobre a gula.
Gosto muito desses programas de culinária na TV. Estou longe de ser o único. São um sucesso aqui e em qualquer parte, daí ganharem tanto espaço e tantas versões. Mas por que eles são tão melhores que os programas de sempre, aqueles clássicos, inseridos nas manhãs femininas dos canais abertos?
Por um motivo simples: em vez de dar a receita antes, os chefs vão fazendo os pratos aos poucos. Anunciam algo tão genérico como uma “salada para a primavera”. Então, começam com folhas verdes, passam a figos fatiados, acrescentam sementes de que eu nunca ouvi falar, espremem um limão siciliano, levam ao forno por meio minuto, congelam em seguida, metem tudo dentro de um plástico, rodam duas vezes, jogam sobre um leito de cogumelos previamente temperados com o caldo de um frango ao mel... enfim, fazem o diabo com a comida, surpreendendo a cada instante, invertendo tudo, quando já pensávamos ter entendido o lance.
Não nos ensinam a fazer a receita, but who cares? Assistimos aos programas porque queremos história, suspense, clímax e um final feliz. Na literatura ou no cinema, é preciso escolher entre a novidade e o prazer fácil. Na gastronomia televisiva, eles estão sempre juntos.
Não estamos ali para aprender a fazer nada, queremos é a narrativa. Mas assim como leitores resolvem escrever e cinéfilos se decidem a fazer vídeo (toc, toc, toc), telespectadores se empolgam com as histórias de comida e partem para a cozinha. “É tudo tão simples...” Sem precisar submeter os outros àquele sanduíche de amendoim com cebola rocha e mostarda de dijon, os cozinheiros amadores parecem, pelo menos, mais inofensivos. Alguns chegam mesmo a apreciar o que fazem. (Tenho aqui uma receita de sorvete com mel e café granulado...)
Assim são as coisas. Ao meio-dia ou às sete da noite, pouco importa, refestelado no sofá, controle remoto na mão. Basta meia hora de Oliver: eis como a gula vence a preguiça.
Posted by Bruno Rabin at 10:15 PM | Comments (10)