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November 04, 2005

O dia em que aquele escritor deixou de ser assunto

Era uma terça-feira chuvosa. Fosse um sábado e ninguém acreditaria na história. Literatura de esquerda sempre defende os marginalizados, inclusive os dias da semana. Bem, era uma terça-feira chuvosa.

O homem de chapéu atravessou a rua apressado para fugir da água fina, a mão direita segurando a aba levemente entortada, os ombros encolhidos como se protegessem o corpo, os sapatos gastos pulando as poças, e não se mais quantas coisas fazendo sei lá o quê, como manda o figurino da descrição charmosa — o leitor que se vire, que descrição depende dele mesmo: se tiver imaginação, verá coisas mais interessantes; se não tiver, não merece ver nada mesmo.

Pouco importa. Chegando ao outro lado da rua, o homem de chapéu — cujo nome hesitei em atribuir, ficando entre dois clichês: o nome-que-diz-alguma-coisa e o sem-nome-que-significa-qualquer-coisa (vence sempre o mais fácil na literatura blogueira) — fez sinal para o táxi. Ninguém pergunte por que ele teve que atravessar a rua para pegar o carro, posto que poderia ter começado sua história já do outro lado, mas é que nessa literatura modernete, tem que haver alguma coisa sem muito sentido narrativo, algo que pareça um indício do que vem depois e que, no entanto, evapore no meio da história.

No táxi, pediu que o motorista fosse para o Centro. Sobre o Centro, nada a declarar, e não declarar nada vem bem ao caso dessa tentativa de falar muito e dizer pouco, como convém ao talentoso e chato homenageado do post, que menos se assemelharia em estilo a este fraseado, tão menor fosse o período ou tão mais direta fosse sua ordem sintática, que na maneira lusitana de contar as coisas, melhor é que se faça logo a explicação de tudo muito direitinho, amarrando o fio das coisas às coisas que já se vão enlaçar adiante, prendendo o leitor pelo fôlego, porque embora muita gente desista da frase comprida e entortada, há sempre os que não conseguem deixar de ler uma coisa até o fim e, quando percebem, não podem mais deitar o livro sobre a mesinha de cabeceira, mas vamos deixando essa conversa de lado, porque nem de livro se trata.

No meio do caminho, o homem decidiu fazer uma ligação, para economizar o tempo de adiante. “Dona Marlene”, falou, “a senhora me faça um favor. Estou a caminho da reunião e não terei tempo de comprar o presente do sobrinho que faz aniversário hoje.” “Pois não, doutor”, prontificou-se a secretária. “O menino gosta de ler, pensei em dar de presente esse último livro do..., do..., meu Deus, do...” “Sim, doutor, pode falar.” Mas o homem de chapéu não conseguia falar o nome do tal autor. “Olhe, dona Marlene, é aquele que escreveu o livro da cegueira, um em que de repente todos vão ficando cegos.” “Sim, acho que sei...” respondeu pausadamente a secretária, tentando se lembrar também do nome do autor. “Ele agora acabou de lançar um outro,” acrescentou o homem, “é a história duma cidade onde as pessoas param de morrer.” “Eu sei, eu sei,” responde num ímpeto a moça, retornando logo em seguida à hesitação de antes, “é o..., o...” E nada. Ficaram o caminho todo a puxar da memória o nome do tal escritor, prêmio Nobel, orgulho do país, e nada. Nenhuma letra, nem o som, nada surgiu para lhes dar um alento que fosse.

Esse pequeno episódio logo deu ares de mudança geral — e aqui começaria a parte enorme que distingue um conto ou romance de um post: a parte em que essa pequena dificuldade de lembrar o nome do escritor vai aparecendo em todos os lugares, seu nome vai sumindo das capas dos livros, das páginas de jornais, os livreiros espantados, sem saber por quê, também não conseguem se lembrar dele. E isso acontece de tal maneira, que em pouco tempo ninguém se lembra do nome do escritor na cidade. Tudo isso deveria estar em detalhes se não se tratasse de um post, mas a Internet nos torna muito preguiçosos, e pulamos tudo quase tudo que seja o caminho da idéia mesma.

Enfim, de tanto tentar lembrar o nome do autor, todos foram deixando o esforço de lado. Aos poucos, as desistências acumuladas já não incomodavam ninguém. Em pouco tempo, o escritor tinha sido esquecido. Ninguém se lembrava dele, e isso não fazia diferença, porque ninguém queria se lembrar dele mesmo.

Estivesse morto, o escritor esquecido seria apenas um escritor esquecido, como tantos que há por aí, coitados — embora nenhum tão importante, prêmio isso, prêmio aquilo, comentador de política e de humanidade. Mas o escritor estava vivíssimo. No intervalo em que passou ao esquecimento em sua cidade, ele estava de viagem ao país-irmão, onde costumava ir se meter, fazendo charme com o jeito ranzinza de dar um pitaco sobre qualquer coisa.

De volta a seu país, estranhou a ausência de assédio das gentes no aeroporto, assim como estranhou a indiferença do taxista, e o silêncio do guarda, e o do porteiro. Chegado à casa, não foi reconhecido pela empregada de tantos anos, que insistiu em chamar a polícia, não vendo como afastar aquele senhor inoportuno. Como pensasse estar ela em meio a uma espécie de alucinação, o escritor esquecido desistiu. E se encaminhou à livraria do outro quarteirão, onde talvez pudesse comprar um livro seu para mostrar à empregada, qualquer coisa que recuperasse a memória da infeliz.

Mas ali a nova surpresa: nenhum livro, nenhum exemplar sequer de qualquer uma de suas obras. Tentou perguntar ao vendedor se havida algum livro seu. O rapaz se riu, perguntando quem era, que livro havia escrito. Mas o escritor esquecido não conseguiu lembrar o próprio nome. “Eu sou o..., o...,” gaguejou. Puxou a carteira, a identidade e... nada. Nenhum nome, nenhuma letra sequer.

Atordoado, o autor desconhecido saiu correndo da livraria, diante do olhar quase interessado do vendedor — e o “quase” aqui é o charme, repararam? —, parou numa esquina, sem conseguir atinar o que sucedia. Não achou nenhuma pista, nenhum indício do que fosse. Uma brincadeira dos amigos não iria tão longe, uma alucinação pessoal não daria tanta certeza da lucidez.

Resolveu voltar ao que havia sido seu lar, tentar uma segunda vez. Tocou a campainha, mas nenhum sinal se fez. Bateu à porta, mas nenhum barulho se ouviu. Insistiu, e nada. Desistiu e voltou à rua. Foi quando teve a pior surpresa: passando em frente a uma vitrine que refletia as pessoas passando, não viu a própria imagem. Ainda tentou se aproximar, passar ao lado, mudando de ângulo, mas continuava sem se ver. Quis pedir ajuda a um passante, mas ninguém o ouvia, pois de sua boca não saía som algum.

Muitas tentativas depois, o escritor esquecido desistiu. Logo ele, que tanto falava, que tanto tinha opinião a dar sobre tudo e sobre todos, tão cheio de coisas a dizer, não era mais visto ou ouvido por ninguém. Ficou ali parado, sentado no chão, à espera de alguma coisa. Talvez Deus, mas ele era ateu, e isso seria pior que o esquecimento. Algum tempo se passou, não muito, e o problema cessou de existir. Não que as pessoas tivessem se lembrado de quem ele era; é que ele próprio acabou por esquecer-se.

Posted by Bruno Rabin at November 4, 2005 06:25 AM

Comments

O texto mais bacano do blogueiro mais porreiro do Apostos!

Um abraço;
Márcio Guilherme.

Posted by: Márcio Guilherme at November 4, 2005 01:56 PM

Bruno, só um comentário: sensacional!

Posted by: Mariana Fraga at November 4, 2005 02:49 PM

Texto cooooomprido. Acho que só vocês vão ler.

Posted by: Bruno at November 5, 2005 04:45 PM


sua grande falta é esquecer que sempre tem uma coluna-camarada na Carta Capital para gente engajada.

e, ah!, já que vc optou pelo texto quase kafkaniano podia dar um final tipo " O processo"( subtraindo a morte, porque sou cristão),concedendo ao Joseph S. uma paralisia cerebral.

Mas ê ingenuidade. menos e menos só dá mais no colégio.

Posted by: Alan at November 5, 2005 06:55 PM

Cheguei até o fim. Valeu cada linha.

abs

Posted by: david at November 6, 2005 05:29 PM

"Os nossos javaneses são melhores que os dos outros"

(William Butter Yeast)

Posted by: Marmite at November 7, 2005 08:41 AM

Hmmm... belo texto...
O escritor virando um grande vazio....

Posted by: béze at November 7, 2005 08:54 PM

Se inspirou, hein?
Adorei.
Beijo!

Posted by: Ton Ton at November 8, 2005 12:24 PM

Excelente.

Posted by: Márcio Coelho at November 12, 2005 08:02 PM

Dando iníncio ao panelaço:

Post, Post, Post!

(por favor, me ajudem)

Posted by: Márcio Guilherme at November 17, 2005 12:33 AM

Marmite já!

Queremos Vegemite! Queremos Vegemite! Queremos Vegemite! Queremos Vegemite! Queremos Vegemite!

Não deixe o samba morrer!

Posted by: Marmite at November 17, 2005 08:15 AM

Deixou de ter assunto outra vez?
Posta alguma coisa pra gente ler!
Beijo.

Posted by: Ton Ton at November 17, 2005 11:04 AM

Agora que não sou mais oficialmente aluna, me sinto mais a vontade pra postar não-anonimamente. Andei sentindo falta dos posts mais freqüentes... você deve andar ocupado.

Posted by: Caroline at November 17, 2005 10:19 PM

Impossível vc não ter nenhum texto de apoio só pra acalmar nossos ânimos!! Tá certo.. Sempre que vc demora a postar vem um texto 'excelente' (queria usar A palavra, mas não posso! arghh nenhum sinônimo é tão perfeito qto f...!)
bjooo profff

Posted by: Juju at November 18, 2005 05:18 PM

Post!, Post!, Post!

(o panelaço continua na rua)

Posted by: Márcio Guilherme at November 21, 2005 02:58 AM

Genial!
Saudade dos posts... Vê se não fica tanto tempo sem atualizar, né!

Abraços.

Posted by: Pedro Vinces at November 25, 2005 06:29 PM

Hehe, muito bom. Bem que podia ser verdade.

Posted by: Olivia at December 1, 2005 12:34 PM

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