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October 24, 2005
R$ 16, e tá de bom tamanho
O cinema seria muito melhor se a gente não se preocupasse tanto com ele. Quinta à tarde, sábado à noite, um refrigerante, uma bala, uma pipoca, um filme. Nada de revolução na linguagem, soco no estômago, just a picture.
Mas não é assim. Fazer um filme dá um trabalhão — em qualquer tamanho de orçamento ou de ego. Cada um sabe a dor e a delícia do filme que faz, sobretudo a dor. Por isso, todo mundo envolvido em cinema fala do filme que acabou de fazer como uma maravilha, uma inteligência, uma sutileza, uma sensibilidade, uma beleza que nem te conto. Estão aí os programas e entrevistas com cineastas e atores que não me deixam mentir: a cada palavra, cria-se a sensação de um filme como nenhum outro. Visto, nada mais que o já-visto.
E não é só um problema de expectativa. Um filme dura uma hora e meia, duas horas — talvez três, se o cara não tiver mãe. Nada que possa ser tão bom, nem que possa ser tão ruim. Há dias, claro, em que tudo conspira a favor, e o bom filme vira uma experiência incomparável. Mas não se trata do filme em si; trata-se apenas de um bom dia, com um bom filme. Prova disso é que, repetida depois, a experiência jamais será a mesma. Nos livros — joguem as pedras! —, nos bons livros, cada releitura melhora a anterior. Nunca um filme é assim; no máximo, no caso de filmes vistos há muito tempo e já esquecidos de todo, fica aquele sabor de memória recuperada.
Cinema é a maior diversão, e a maior diversão pode ser uma tristeza muito honesta ou uma beleza muito feia. Há lugar para tudo. E em tudo cabe uma pipoca, uma bala, um refrigerante aguado — de preferência a pé, no cinema da esquina.
Posted by Bruno Rabin at 11:34 PM | Comments (2)
October 09, 2005
Offline
A areia movediça do filme do Flash Gordon foi, durante muito tempo, meu pesadelo pessoal. Todo cuidado era pouco ao andar por lugares pantanosos, e havia muitos deles na minha infância. Acho que foi por isso que gostei tanto de ter me mudado para a cidade grande. Com o tempo e a distância, o medo foi desaparecendo.
Hoje, não sonho mais com areia movediça — o que não significa que o pesadelo tenha me abandonado; apenas mudou de lado. Passou para a vigília e ganhou a forma cínica de metáfora.
Posted by Bruno Rabin at 09:08 PM | Comments (7)