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September 01, 2005
Nunca elogiei ninguém; começo por um político e me arrisco a ser expulso do Apostos, mas vá lá
Ser moralista tem suas desvantagens. Perde-se o Gabeira, por exemplo — porque seqüestro é seqüestro, e só mesmo um argumento comprometido com a “causa” pode servir de pretexto. Como o que se quer aqui é ganhar o Gabeira, deixemos o seqüestro de lado.
Há em mim um certo desconcerto em dizer que ele é o cara, mas vá lá: o Gabeira é o cara. Antes de todo mundo, veio com o papo da nova agenda, começou a falar do verde, sempre percebendo que a discussão ideológica era uma furada e uma perda de tempo. Lembro-me da campanha de 86, aqui no Rio, quando ele puxou o abraço à Lagoa; era uma novidade e era contagiante — pasmem os mais novos. Depois passou a falar sobre legalização da maconha, discussão menos interessante pelo conteúdo do que pela impopularidade. Gabeira sempre preferiu dizer o que pensa; poderia ser pouco, mas tem sido raro.
Na política partidária, a mesma coisa. Enquanto a esquerda transformava neoliberalismo em palavrão, votou a favor da quebra do monopólio da Petrobras e chegou a entender as privatizações. Quando o Partido Verde começou a virar circo, foi para o PT. Quando o PT virou o que sempre foi, saiu fora. E saiu sem dizer adeus para as câmeras, de mansinho, percebendo, sempre antes da manada — e sempre contra a manada —, que aquilo ali estava para descer a ladeira. Não que tivesse visto a corrupção da grana; viu mais: a corrupção do poder na mão de quem pela primeira vez encontrava o pote de mel.
Gabeira é sensível, dizem os severinos às gargalhadas, sem perceber que essa é justamente sua maior qualidade. E sem perceber que se trata de uma sensibilidade com poquíssima afetação. Ao contrário, muito mais afetados parecem seus desafetos, gesticulando com raiva recalcada; raiva da serenidade meio fanha do deputado.
Nós nos enganamos com muita gente de Brasília, mas o Gabeira não parece muito opaco. Não está lá por grana ou poder. Fica constrangido com a demagogia dos discursos panfletários. Quase não se agrupa em artimanhas e conchavos. Fica quieto quando não tem o que dizer; grita firme na hora certa. E, principalmente, submete as vantagens da circunstância à sensatez do mandato. Por isso nem chega a liderar movimentos, como querem que faça por esses dias.
Nem parece político o Gabeira, e isso é bem desconcertante. Mas certas coisas teimam em não ficar de lado. E o moralismo tem suas vantagens: seqüestro não vale.
Posted by Bruno Rabin at September 1, 2005 10:31 PM
Comments
Subversivo! Teje Preso!
Posted by: Igor at September 2, 2005 11:14 AM
Pô, elogiar político não dá.
Posted by: André Kenji at September 2, 2005 11:13 PM
A necessidade cria a moral,é muito diferente ser politico e estar no poder,na verdade acho que provavelmente se ele estivesse em algum cargo de alto escalão o fim nao seria diferente...talvez nao tivesse escandalos,mas talvez nada fosse de fato feito para o país...o líder é exemplo,um modelo,e como voce mesmo disse,sequestro não dá.
Posted by: Bárbara Maia (aluna do ph que nao tem o que fazer e entra no blogs alheios) at September 3, 2005 01:50 AM
O Gabeira já disse algumas vezes que aquela coisa toda de guerrilha nos anos 60/70 era uma estupidez, que estavam errados, etc. Outra coisa, e daí que ele usou tanguinha crochê? Acho que tem tudo a ver com o Brasil (não tem espaço pra lord inglês, não respeitamos esse tipo de coisa, assumamos a tosqueira nacional). Ademais, pelo o que acompanho, ele já amadureceu com a idade (e de verdade, diferente do misterioso e nunca explicado amadurecimento do PT). Dependendo das opções votaria no Gabeira para presidente numa boa.
Posted by: Raimundo Arão at September 3, 2005 02:01 PM