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September 05, 2005

I'm a looser, indeed

Ser um perdedor tem suas vantagens. Ter um post pronto, por exemplo. É o seguinte: inscrevi um conto num concurso do Caderno Prosa&Verso, do jornal O Globo. No sábado saiu a lista dos dez finalistas, entre os quais não se encontrava o meu. Além da limitação do tema — a memória do Rio —, era preciso escrever em menos de 5500 caracteres. Se tiverem paciência, cliquem no link a seguir para ler o original. Se tiverem mais paciência ainda, deixem um recadinho elogioso a mim e agressivo a esses jornalistas tacanhos que fazem pseudo-crítica em caderno cultural e não sabem reconhecer um verdadeiro talento. Se preferirem, digam a verdade. Enfim,

Sorriso de Bronze

Se pudesse, abandonaria tudo. Do pouco que aprendi nestes anos, quase nada escapa à minha própria indiferença, não bastasse a dos outros. Aquilo se tinha tornado uma rotina. Consultas a livros, estudos de terreno, preparação de estratégias e mais um ataque. Para quê? Nenhuma notícia, nenhuma nota, nenhum ai. Mas eu não poderia parar.

Lembro-me da primeira vez.

Sempre amara Machado de Assis. Abundante, eu sabia, sem ligar muito. Menor fosse minha fixação, menor teria sido o impacto daquele dia, diante daquele texto. Nada de espantoso para um homem público, não fosse o tema: uma homenagem — ainda hoje me custa dizê-lo —, uma homenagem a José de Alencar. Li-a pulando frases, sem entender como aquelas palavras puderam ser ditas impunemente. Eram poucas linhas; eram linhas de mais. Cheguei a ponderar que não se esperaria menos de um discurso pela inauguração de uma estátua. Mas eu tinha menos de vinte anos e só enxergava impropriedades.

“Creio que jamais o espetáculo da morte me fez tão singular impressão,” dizia Machado a respeito de Alencar. “Quem o lê agora não tem idéia da fecundidade extraordinária que revelou tão depressa entrou na vida.” Cretinice. “Nenhum escritor teve em mais alto grau a alma brasileira.” Cretino, pensei novamente. Como teve coragem? Li tudo outra vez, procurando em cada frase a entrelinha cínica, uma ironia que fosse. Nada, nenhum sinal. Apenas um elogio; e, no entanto, uma mentira deslavada. Tive — por que não dizer tudo? —, tive nojo.

Mal devolvi o volume ao mofo da prateleira, mergulhei em livros sobre Machado. Queria entender aquilo tudo. Em menos de uma hora, tive vertigem. O estômago vazio fez ainda mais forte o enjôo que sentia diante das páginas amareladas. Meu desprezo por Alencar foi-se transformando em aversão a Machado. A mesma hipocrisia que ele denunciara estava ali sob meus olhos. Datas, locais, acontecimentos — uma vida mensurada em biografia, uma vida que se ausentava da obra. Era preciso fazer alguma coisa. Eu era jovem e exigia coerência de todos; sobretudo, exigia-a de mim. Tinha escolhido estudar História por amor à verdade. Encontrei a pior mentira. Era preciso fazer alguma coisa.

Saí da biblioteca desconsolado. Tomei um ônibus para casa. Saltei na Senador Vergueiro e caminhei em direção ao Catete, decidido a parar no Lamas. O conhaque, sorvi-o de um gole. Em frente ao caixa, o susto: “Fundado em 1874” — a placa! Eu havia esquecido. Despido do que ainda restava de sobriedade em mim, saí. Mas não me refiz de nada: estava diante da estátua de Alencar, ao lado do Café, como Machado o chamava. Senti-me ainda mais ultrajado e tive uma idéia ruim. Não hesitei: eu me vingaria, e vingaria a todos.

Já passava das dez, e a praça começava a ficar vazia. Pensei em ir ao número 18 da rua Cosme Velho, tomado pelo ódio do marido traído. Mas eu era um marido viúvo; e aquela casa já não existia mais. Tive outra idéia. Resolvi procurar um amigo antigo, a quem reputavam a pior fama. Às batidas insistentes, abriu-me a porta assustado. Há tanto tempo! E àquela hora! Fui seco. Sem entender por quê, trouxe-me o que lhe pedi. Agradeci e desci correndo as escadas, sua voz ecoando pelo vão.

Resolvi caminhar até meu alvo, dando mais tempo ao silêncio da noite. Quem me visse, diria estar diante do próprio assassino da velha usurária de Petersburgo. Riria de mim se soubesse que em minha mente um crime tão menor se tramava. No entanto, a cada passo, em vez de me dissuadir da idéia, mais meu ódio justificava a decisão. Pensava em como todos se chocariam com aquilo; pensava nas matérias de jornal; pensava, enfim, em como ajudaria a cidade a desiludir-se de um homem que se orgulhava de só ter tirado os pés dela uma única vez. Gago, epilético — nada me dava pena. Cretino.

Estava decidido. Não podendo ir à sua casa, iria ao seu lar, naquele prédio antigo do centro, em cuja escadaria repousava a estátua solene. Chegando à Academia, certifiquei-me de que ninguém me visse e, em pouco mais de um minuto, com o spray emprestado, escrevi duas palavras no trono em que repousava a imagem em bronze: “Mentiroso.” “Cretino.” Saí correndo antes que me pusesse a perigo. Fui para casa.

Mal consegui dormir. Sentia medo e prazer. Estava tonto e acho que cheguei a delirar. Assim que amanheceu, saí à rua em busca do primeiro jornal, demorando a perceber que não houvera tempo para a notícia. Vaguei pela cidade por algumas horas, mas só me restava aguardar.

No dia seguinte, nenhuma notícia, nenhuma nota, nenhum ai. Tive raiva de todos: maior o silêncio, mais eu sofria. Ao cair a noite, voltei a agir. Correndo maior risco, escolhi a estátua de José de Alencar. Mais uma vez, a eloqüência trágica da indiferença.

***

Não descansei desde então. Percorri todos os volumes e praças da cidade à procura de biografias e estátuas. Tornei-me um especialista na memória do Rio — só para poder aviltá-la. Escrevi tratados e romances históricos. Há alguns anos, acabei por ser eleito para a Academia, estimulado por amigos que nem desconfiam de minha obra secreta. Ainda tentei provocar o assunto, condenando em artigo de jornal a delinqüência vazia da pichação. Um leitor concordou comigo, e só.

Se pudesse, abandonaria tudo. Não posso: estou doente, e a morte não tarda. Por isso, escrevo este testemunho, para me salvar da ameaça que me ronda silenciosa: a de me transformarem em estátua, portando o sorriso amargo da ironia de bronze.

Posted by Bruno Rabin at September 5, 2005 10:41 PM

Comments

Só posso dizer que gostei, mas queria que tivesse pelo menos o dobro do tamanho. Achei que da primeira pichação em diante caberia mais desenvolvimento, mas o limite de caracteres atrapalhou.

[Pedro, comecei com 10 mil caracteres e fui fazendo versões menores; ficou mais conciso, embora eu talvez não tenha acertado nas passagens. E, claro, faltou render o suspense. Obrigado pela atenção. Vindo de quem mantém certa distância da prosa, é um honra. Um Abraço.]

Posted by: Pedro Sette Câmara at September 6, 2005 12:33 PM

Concordo com o comentário anterior.Ficou muito bom,poderia ser muito maior.
Realmente prendeu minha atenção e fiquei muito curiosa em saber o que aconteceria após a primeira pichação.
Pena esses jornalistas não terem selecionado seu conto.
E você não é looser nada,para com isso...eu hein!O texto ta ótimo e realmente ficarei aguardando um livro seu.Pelo visto promete...

[Larissa, a história dos jornalistas era implicância com uma amiga que compõe a banca e nem deve saber que eu participei. Não acho que tenha sido injustiça, não. Quanto ao livro, estou bolando um de piadas, mas tenho medo do encalhe. beijo.]

Posted by: Larissa(pH tijuca-301) at September 6, 2005 04:24 PM

Eu gostei do conto...é angustiante!
Agora que não vale mais nada, você podia continuar..
Jornalistas feios!

[Ton-Ton, quem sabe eu faço uma versão atualizada: um hacker que ataca o meu blog quando descobre que eu nem sou tão farsante assim. Beijo.]

Posted by: Ton-Ton at September 6, 2005 08:09 PM

Você tem que parar com essa mania de escrever bem! Alguma hora eu tenho que estudar! Não posso ficar perdendo tempo nesse blog fétido!

Posted by: Juju at September 6, 2005 11:21 PM

Meu caro, perdedor penso que você ainda não é, e se fosse? Ou você acha que o mundo é composto só de vencedores? A maioria das pessoas, ainda que não saiba, é perdedor... O mundo está repleto de derrotados. E eu não sou pessimista, sou realista!
Ah, o seu conto é bom, mas você como escritor ainda pode melhorar, sinceramente, mas duvido que eu não colocasse seu conto entre os melhores. Jornalistas não entendem nada de literatura!http://www.sabiosdesiao.blogspot.com

Posted by: Therence at September 9, 2005 01:32 PM

Nao Rabin,livro de piadas nao...hahahaha...nao eh q vc nao seja bom nisso,mas acho que seria melhor escrever um de contos mesmo ou uma narrativa,quem sabe...
Te garanto que o sucesso serah absoluto!hahahaha quase o slogan do "nosso querido pH".
Falando serio,escreve um livro legal...livro de piadas ja tem muitos e pra isso vc precisaria de uma ajudinha do ferrao,neh?Rs...
Bjos

Obs:Bom qdo eu te mando um e-mail e vc nao responde...adoro!Nem sei se vc recebeu....

Posted by: Larissa(pH-Tijuca 301) at September 9, 2005 02:53 PM

Bruno, acho que, sem exageros, você tem uma a melhor técnica literária da blogosfera nacional. A crônica está MUITO legal, embora tenho visto coisa ainda melhor escrita por você.

Será que não ficou, digamos assim, intelectual(Ou bom) demais pro padrão do Globo?

Posted by: André Kenji at September 9, 2005 08:17 PM

Bruno Rabin, sabemos que você se alimenta de elogios, embora não precise deles para manter o seu ego morbidamente obeso. É como comer sem fome, só por pecado. Entretanto, antes que suspeite de puro despeito de minha parte, seja pelo motivo que for, quero deixar aqui meu elogio de quem sempre adimirou seu trabalho, como professor, e agora como leitora. O conto é inteligentíssimo e uma delícia. Sei que a crítica é um tanto quanto amadora, não sou uma leitora respeitável do ponto de vista literário, mas escrevo isso com muita sinceridade porque apesar de te achar realmente um farsante, eu não consigo deixar de simpatizar com você. Há tempos que leio os seus posts, não regularmente, mas os leio. Apesar de achar seu jeito de escrever pretensioso na maioria das vezes, eu gosto( sei que está pensando : quem é ela para me dizer o que eu sou e gostar ou não da minha escrita? - a minha opinião pode até não importar , mas você disse que poderíamos ser sinceros!).
Beijos...

Posted by: Bia at September 29, 2005 05:31 PM

Achei o conto instigante, mas faltou também um quê de cinismo e abundou propriedade ao escrever.
Quando você junta os dois, dá o seu melhor, na minha sincera opinião.
E aproveito esse espaço para te incentivar a continuar escrevendo, o que é melhor que qualquer prêmio do Globo.
A voz do povo não é a voz de Deus?? :)

Posted by: Julia at September 30, 2005 08:35 PM

Não gostei.
(Alguém tinha que destoar da média. Esse alguém tinha que ser eu.)

Posted by: Tiago A. at October 17, 2005 12:53 PM

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