« August 2005 | Main | October 2005 »

September 30, 2005

No almoxarifado, ninguém sabe

No almoxarifado, ninguém sabe, há uma pequena janela cuja fresta deixa passar um solzinho quente entre nove e dez e meia da manhã, e é ali que eu passo essa hora e meia, o rosto virado pra cima, o corpo mal apoiado na mesinha com tampo de fórmica, fria que só ela, esperando uma coisa meio paradoxal do tempo, que ele passe depressa e que não acabe nunca, porque me aflige estar escondido, mas também me aflige saber que o resto do dia não trará sol, não trará quase nenhuma luz, nem trará o silêncio do almoxarifado, com o cheiro de limpeza, detergente, desinfetante, água sanitária, cera, limpa-vidros, álcool, essas coisas de embalagens coloridas, poluição visual feita para limpar, vejam só, nada disso ocupará meu dia, nem mesmo a lembrança de que fora dali, nas salas, nas mesas, nos computadores, ninguém imagina esse sol, ninguém imagina esse tempo roubado, nem essa posição estúpida, o corpo mal ajeitado, o rosto entortado, como cachorro à espera do carinho, entre nove e dez e meia da manhã, ninguém sabe, no almoxarifado.

Posted by Bruno Rabin at 09:38 PM | Comments (4)

Penseroso

Há pessoas que gostam tanto de refletir, que merecem virar espelho.

Posted by Bruno Rabin at 05:46 AM | Comments (0)

September 27, 2005

Não toque no meu pote

urso.jpg

Posted by Bruno Rabin at 11:02 PM | Comments (2)

September 24, 2005

Lado A, Lado B

Segundo um amigo, existem coisas Lado A e coisas Lado B. Do Lado A, Atari, Coca-cola, Flamengo, Caloi, Beatles; do Lado B, Odissey, Pepsi, Fluminense, Monark, Rolling Stones. Conhecer essa distinção implica escolher um lado; e escolher um lado implica pré-determinar todas as proximas escolhas.

Percebê-lo tirou um peso da minha consciência. Afeito a listas, hierarquias e toda espécie de injustiça, tinha dificuldade em me decidir entre Drummond e Bandeira — A e B, respectivamente — quando me perguntavam sobre o melhor verso destas bandas. Não tenho mais.

Posted by Bruno Rabin at 10:22 PM | Comments (4)

September 19, 2005

Liberd...

Preso ao tema da nova aposta, ia dizer que a escravidão tem suas vantagens, sobretudo a de opor o sujeito escravo aos tarados por liberdade — espécie reativa à gramática e a outros valores supremos. Ia dizer também que a escravidão à liberdade tem sido um problema pra muita gente, da literatura à economia. Escravo do trabalho, eu ficaria livre para dizer que não falaria de nada disso, não. Mas isso soaria libertário, e ser libertário é uma condição que viola princípios os mais valiosos. Fiquemos assim: deixo dito o que falaria, e não falo.

Posted by Bruno Rabin at 06:15 AM | Comments (4)

September 12, 2005

Diante do álbum antigo

Quando vejo essas “pessoas que se vendem para o sistema”, fico com muita inveja. Não cobrei nada; nem mesmo insinuei um valor simbólico. E achei que era esperto não me filiar à causa estudantil ou a alguma comissão democrática em favor das vítimas de uma tragédia qualquer. Antes tivesse valorizado meu passe, embora não me pareça razoável que o sistema quisesse me pagar alguma coisa.

Agora que descobri o valor do dinheiro, sinto a nostalgia da febre ingênua, quase agradável, da noite virada com os companheiros que nunca tive. O cinismo — ninguém me avisou — já era a forma menos lucrativa de viver. A ironia, a fonte menos fecunda das fotos mais bonitas, aquelas que vão desbotando aos poucos, num descolorido que costumo chamar de tempo.

Posted by Bruno Rabin at 10:05 PM | Comments (1)

September 10, 2005

Progressão Geométrica, as it should be

klee.jpg
U struji šest pragova, 1929, Paul Klee

Posted by Bruno Rabin at 07:16 PM | Comments (3)

September 05, 2005

I'm a looser, indeed

Ser um perdedor tem suas vantagens. Ter um post pronto, por exemplo. É o seguinte: inscrevi um conto num concurso do Caderno Prosa&Verso, do jornal O Globo. No sábado saiu a lista dos dez finalistas, entre os quais não se encontrava o meu. Além da limitação do tema — a memória do Rio —, era preciso escrever em menos de 5500 caracteres. Se tiverem paciência, cliquem no link a seguir para ler o original. Se tiverem mais paciência ainda, deixem um recadinho elogioso a mim e agressivo a esses jornalistas tacanhos que fazem pseudo-crítica em caderno cultural e não sabem reconhecer um verdadeiro talento. Se preferirem, digam a verdade. Enfim,

Sorriso de Bronze

Se pudesse, abandonaria tudo. Do pouco que aprendi nestes anos, quase nada escapa à minha própria indiferença, não bastasse a dos outros. Aquilo se tinha tornado uma rotina. Consultas a livros, estudos de terreno, preparação de estratégias e mais um ataque. Para quê? Nenhuma notícia, nenhuma nota, nenhum ai. Mas eu não poderia parar.

Lembro-me da primeira vez.

Sempre amara Machado de Assis. Abundante, eu sabia, sem ligar muito. Menor fosse minha fixação, menor teria sido o impacto daquele dia, diante daquele texto. Nada de espantoso para um homem público, não fosse o tema: uma homenagem — ainda hoje me custa dizê-lo —, uma homenagem a José de Alencar. Li-a pulando frases, sem entender como aquelas palavras puderam ser ditas impunemente. Eram poucas linhas; eram linhas de mais. Cheguei a ponderar que não se esperaria menos de um discurso pela inauguração de uma estátua. Mas eu tinha menos de vinte anos e só enxergava impropriedades.

“Creio que jamais o espetáculo da morte me fez tão singular impressão,” dizia Machado a respeito de Alencar. “Quem o lê agora não tem idéia da fecundidade extraordinária que revelou tão depressa entrou na vida.” Cretinice. “Nenhum escritor teve em mais alto grau a alma brasileira.” Cretino, pensei novamente. Como teve coragem? Li tudo outra vez, procurando em cada frase a entrelinha cínica, uma ironia que fosse. Nada, nenhum sinal. Apenas um elogio; e, no entanto, uma mentira deslavada. Tive — por que não dizer tudo? —, tive nojo.

Mal devolvi o volume ao mofo da prateleira, mergulhei em livros sobre Machado. Queria entender aquilo tudo. Em menos de uma hora, tive vertigem. O estômago vazio fez ainda mais forte o enjôo que sentia diante das páginas amareladas. Meu desprezo por Alencar foi-se transformando em aversão a Machado. A mesma hipocrisia que ele denunciara estava ali sob meus olhos. Datas, locais, acontecimentos — uma vida mensurada em biografia, uma vida que se ausentava da obra. Era preciso fazer alguma coisa. Eu era jovem e exigia coerência de todos; sobretudo, exigia-a de mim. Tinha escolhido estudar História por amor à verdade. Encontrei a pior mentira. Era preciso fazer alguma coisa.

Saí da biblioteca desconsolado. Tomei um ônibus para casa. Saltei na Senador Vergueiro e caminhei em direção ao Catete, decidido a parar no Lamas. O conhaque, sorvi-o de um gole. Em frente ao caixa, o susto: “Fundado em 1874” — a placa! Eu havia esquecido. Despido do que ainda restava de sobriedade em mim, saí. Mas não me refiz de nada: estava diante da estátua de Alencar, ao lado do Café, como Machado o chamava. Senti-me ainda mais ultrajado e tive uma idéia ruim. Não hesitei: eu me vingaria, e vingaria a todos.

Já passava das dez, e a praça começava a ficar vazia. Pensei em ir ao número 18 da rua Cosme Velho, tomado pelo ódio do marido traído. Mas eu era um marido viúvo; e aquela casa já não existia mais. Tive outra idéia. Resolvi procurar um amigo antigo, a quem reputavam a pior fama. Às batidas insistentes, abriu-me a porta assustado. Há tanto tempo! E àquela hora! Fui seco. Sem entender por quê, trouxe-me o que lhe pedi. Agradeci e desci correndo as escadas, sua voz ecoando pelo vão.

Resolvi caminhar até meu alvo, dando mais tempo ao silêncio da noite. Quem me visse, diria estar diante do próprio assassino da velha usurária de Petersburgo. Riria de mim se soubesse que em minha mente um crime tão menor se tramava. No entanto, a cada passo, em vez de me dissuadir da idéia, mais meu ódio justificava a decisão. Pensava em como todos se chocariam com aquilo; pensava nas matérias de jornal; pensava, enfim, em como ajudaria a cidade a desiludir-se de um homem que se orgulhava de só ter tirado os pés dela uma única vez. Gago, epilético — nada me dava pena. Cretino.

Estava decidido. Não podendo ir à sua casa, iria ao seu lar, naquele prédio antigo do centro, em cuja escadaria repousava a estátua solene. Chegando à Academia, certifiquei-me de que ninguém me visse e, em pouco mais de um minuto, com o spray emprestado, escrevi duas palavras no trono em que repousava a imagem em bronze: “Mentiroso.” “Cretino.” Saí correndo antes que me pusesse a perigo. Fui para casa.

Mal consegui dormir. Sentia medo e prazer. Estava tonto e acho que cheguei a delirar. Assim que amanheceu, saí à rua em busca do primeiro jornal, demorando a perceber que não houvera tempo para a notícia. Vaguei pela cidade por algumas horas, mas só me restava aguardar.

No dia seguinte, nenhuma notícia, nenhuma nota, nenhum ai. Tive raiva de todos: maior o silêncio, mais eu sofria. Ao cair a noite, voltei a agir. Correndo maior risco, escolhi a estátua de José de Alencar. Mais uma vez, a eloqüência trágica da indiferença.

***

Não descansei desde então. Percorri todos os volumes e praças da cidade à procura de biografias e estátuas. Tornei-me um especialista na memória do Rio — só para poder aviltá-la. Escrevi tratados e romances históricos. Há alguns anos, acabei por ser eleito para a Academia, estimulado por amigos que nem desconfiam de minha obra secreta. Ainda tentei provocar o assunto, condenando em artigo de jornal a delinqüência vazia da pichação. Um leitor concordou comigo, e só.

Se pudesse, abandonaria tudo. Não posso: estou doente, e a morte não tarda. Por isso, escrevo este testemunho, para me salvar da ameaça que me ronda silenciosa: a de me transformarem em estátua, portando o sorriso amargo da ironia de bronze.

Posted by Bruno Rabin at 10:41 PM | Comments (10)

September 03, 2005

No mínimo, coincidência

Parece que andam lendo este blog.

Posted by Bruno Rabin at 07:39 PM | Comments (2)

September 01, 2005

Nunca elogiei ninguém; começo por um político e me arrisco a ser expulso do Apostos, mas vá lá

Ser moralista tem suas desvantagens. Perde-se o Gabeira, por exemplo — porque seqüestro é seqüestro, e só mesmo um argumento comprometido com a “causa” pode servir de pretexto. Como o que se quer aqui é ganhar o Gabeira, deixemos o seqüestro de lado.

Há em mim um certo desconcerto em dizer que ele é o cara, mas vá lá: o Gabeira é o cara. Antes de todo mundo, veio com o papo da nova agenda, começou a falar do verde, sempre percebendo que a discussão ideológica era uma furada e uma perda de tempo. Lembro-me da campanha de 86, aqui no Rio, quando ele puxou o abraço à Lagoa; era uma novidade e era contagiante — pasmem os mais novos. Depois passou a falar sobre legalização da maconha, discussão menos interessante pelo conteúdo do que pela impopularidade. Gabeira sempre preferiu dizer o que pensa; poderia ser pouco, mas tem sido raro.

Na política partidária, a mesma coisa. Enquanto a esquerda transformava neoliberalismo em palavrão, votou a favor da quebra do monopólio da Petrobras e chegou a entender as privatizações. Quando o Partido Verde começou a virar circo, foi para o PT. Quando o PT virou o que sempre foi, saiu fora. E saiu sem dizer adeus para as câmeras, de mansinho, percebendo, sempre antes da manada — e sempre contra a manada —, que aquilo ali estava para descer a ladeira. Não que tivesse visto a corrupção da grana; viu mais: a corrupção do poder na mão de quem pela primeira vez encontrava o pote de mel.

Gabeira é sensível, dizem os severinos às gargalhadas, sem perceber que essa é justamente sua maior qualidade. E sem perceber que se trata de uma sensibilidade com poquíssima afetação. Ao contrário, muito mais afetados parecem seus desafetos, gesticulando com raiva recalcada; raiva da serenidade meio fanha do deputado.

Nós nos enganamos com muita gente de Brasília, mas o Gabeira não parece muito opaco. Não está lá por grana ou poder. Fica constrangido com a demagogia dos discursos panfletários. Quase não se agrupa em artimanhas e conchavos. Fica quieto quando não tem o que dizer; grita firme na hora certa. E, principalmente, submete as vantagens da circunstância à sensatez do mandato. Por isso nem chega a liderar movimentos, como querem que faça por esses dias.

Nem parece político o Gabeira, e isso é bem desconcertante. Mas certas coisas teimam em não ficar de lado. E o moralismo tem suas vantagens: seqüestro não vale.

Posted by Bruno Rabin at 10:31 PM | Comments (4)