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August 08, 2005

De touradas e vozes femininas

Durante muito tempo, eu quis gostar de touradas. Influência de uma voz feminina. Ela falava umas frases compridas, com palavras inúteis e, principalmente, fazia muitas comparações. Mulheres gostam muito de fazer comparações, mulheres artistas sobretudo, mulheres que aspiram a ser artistas mais do que todas. E ela aspirava a ser artista. Por isso, havia ido para a Espanha; por isso, falava tanto de touradas. Comecei a querer gostar de touradas, ouvindo aquela voz falando do da “vida em duas cores”.

Mas não deu certo. Invertendo a lógica da pena — que recomenda defender os mais fracos —, sempre fiquei do lado dos bichos, gostando pouquíssimo de vê-los à morte. Nem a beleza da imagem do touro estocado por aquela meia dúzia de bandarillas foi suficiente. “Uma pintura”, disse-me a voz feminina. Não era pintura: era ao vivo. Se pintura fosse, teria gostado (mais por ser pintura, menos por ser tourada). Não houve salvação. As touradas desapareceram da minha vida, e com elas a voz feminina — ou se deu justamente o contrário, mas isso já não importa.

Apesar de tudo, defendo a tourada até o fim dos tempos. Só não quero assistir a uma, e o motivo é personalíssimo. Não me parece razoável querer estender aos outros um defeito de sensibilidade individual. Se um sujeito tem pena de touros ou galos, o problema é dele, e a solução é simples: basta não assistir aos embates. Na opinião os defensores dos animais submetidos a barbaridades desumanas — suprema ironia —, uma boa estratégia é transformar essas práticas em crimes ambientais. Convém incomodar: não seria crime ambiental de verdade impedir galos-de-briga de brigar?

Realmente, tanto faz. Ainda hoje, porém, posso escutar aquela voz feminina, misturando espanhol e português, rindo da confusão, mas rindo bem depressa, para continuar umas frases compridas, umas frases cheias de comparações e palavras que não diziam nada. Ainda hoje ouço aquela voz e continuo achando que deveria ter insistido nas touradas.

[Este post integra a aposta #1 do Apostos, que agora conta com os ótimos Passa o Sal, Rinoceronte e Porco Capitalista, além do blog coletivo Todos a Postos repaginado. Fiquem à vontade para visitar e comentar.]

Posted by Bruno Rabin at August 8, 2005 11:53 PM

Comments

olá professor
sou aluno da barra. eu bem que deveria estudar pro vestibular, mas resolvi digitar "Bruno Rabin" no google, e achei isto aqui.
muito legal ver o professor de redação fazendo aquilo que ele ensina na sala de aula, escrever (embora seus posts não sejam dissertações de vestibular).
não vou ficam com rasgação de seda tecendo elogios, apenas direi que gostei do que li.
é só isso, um abraço =]

Posted by: Fabricio at August 9, 2005 08:29 PM

Ficou bonito o blog. :)

Posted by: Jules at August 10, 2005 02:44 AM

Grazie, Fabrício.

Jules, o público tem gostado; a crítica nem tanto. Parece que distorção de tipografia é uma espécie de crime entre designers. Não chega a ser um problema, né?

Posted by: Bruno Rabin at August 10, 2005 02:39 PM

Com certeza não é um problema.(Pelo menos não para mim)

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Que continue o "Olé" das torcidas. Mas longe de mim também.

Posted by: Pedro at August 13, 2005 04:37 AM

Eu Acho uma palhaçada, esses viadinhos de colan.
E tem mais eu torço com todaa vontade do mundo para o Touro.

Posted by: carlos Fernando at October 16, 2005 07:03 PM

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