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August 23, 2005

That's why the lady is a tramp

Há quem ache casamento uma cerimônia chata. São pessoas que preferem uma coisa assim mais informal, sabe — a noiva num vestido colorido, o padre fazendo piadinha, o noivo entrando ao som de Tati Quebra-barraco, enfim, tudo que não lembre um casamento. E nenhum lugar é melhor para essa iconoclastia GNT do que o Brasil; e no Brasil o Rio de Janeiro.

Tudo se passa como se a tradição não fizesse sentido. E essa é maior ironia, porque essas pessoas são justamente as que mais se orgulham de cultivar outras tradições. Funciona mais ou menos assim: troca-se música nupcial por um sambinha das antigas, muito mais verdadeiro, autêntico, uma coisa de raiz, sabe? Saem de cena a roupa de gala, os canapés e o champagne, entram as havaianas, a feijoada e a cachaça. Sobram os noivos, se tanto. Claro, a mera formalidade não faz sentido mesmo. Mas em vez de suprimir o adjetivo, elimina-se o substantivo. E sem o substantivo, qual a substância?

A filosofia do século XX conseguiu estragar quase tudo, e o casamento também precisava passar por uma desconstruçãozinha. Pensar sob esse prisma ainda pode nos encher de esperança: já que o legal é fazer tudo às avessas, talvez alguém invente uma festa de divórcio ao som de Sinatra ou Ella. Não há de faltar felicidade. Não pelo divorciado, mas pela música, sem dúvida.

Posted by Bruno Rabin at 09:52 PM | Comments (10)

August 13, 2005

Contos Sensoriais (IV)

Desde muito novo, Augusto percebeu que era diferente: nasceu com um problema de paladar; uma espécie de persistência retiniana só que com o gosto das coisas, e muito mais duradoura. O pedaço de pão levado à boca, ainda quente, mantinha-se com igual intensidade quando um gole de leite era sorvido e incorporado ao paladar, já à espera de uma fatia de queijo, de outro pedaço de pão e de tudo que viesse. Sua mãe não entendia por que Augusto recusava o gomo de laranja no café-da-manhã ou a goiabada após o prato de feijão. Ele já sabia que os melhores sabores só se misturam como lixo e começou a ter aversão a comidas novas.

Com o tempo, Augusto parecia ter-se adaptado. Fazia longos intervalos entre as refeições, evitava misturas radicais e, definitivamente, recusava tudo que lembrasse cozinha contemporânea. Mas os cuidados mostraram-se inúteis. Semana após semana, a densidade gustativa aumentava, prolongando-se por horas e horas, até atingir um ponto sem retorno: acordar com a sensação do café-da-manhã do dia anterior.

Um alentou o consolou por alguns meses: Augusto passou a adorar resfriados. Quanto mais congestionado estivesse, menos gosto sentia. Chegou ao ponto de inverter as ordens maternas: ia para a rua sem agasalho, tomava sereno e andava descalço na cozinha. Nessas ocasiões, Augusto aproveitava para comer de tudo, misturar quente e frio, salgado e doce, deliciar-se com jiló e limonada suíça. Comia tanto e tão bem, que logo curava a gripe, voltando à insuportável saúde de sempre.

Todo esse sofrimento, porém, parecia ter acabado quando Augusto viveu seu primeiro amor e aprendeu a beijar. Antes de acabar o gosto do beijo anterior, vinha o próximo. E depois outros e tantos, num acúmulo de sensações que ninguém deve ter experimentado em lugar algum. Se já não gostava muito de comer, Augusto reduziu suas refeições ao indispensável, tão apaixonado que estava pela menina da turma.

E de tão apaixonado, decidiu contar à namorada sua história. Arrependeu-se como nunca: ela ficou assustada ao imaginar que cada beijo seu se misturava a um prato de salada ou a uma xícara de chá. Teve nojo e preferiu afastar-se dele. Antes de ir embora, prometeu-lhe um último beijo, contra a vontade, mas em respeito às lágrimas de Augusto. Foi um beijo delicioso, um último beijo, um beijo para Augusto guardar para sempre em seu paladar. Foi o que ele fez. Nunca mais colocou nada na boca e resistiu alguns dias. Nada mais.

[Outros contos sensoriais estão aqui, aqui e aqui também.]

Posted by Bruno Rabin at 12:16 PM | Comments (5)

August 10, 2005

Animais

Como vocês leram na nova entrada do Apostos (não leram? É aqui, ó!), nossa primeira aposta temática consistia em falar sobre animais. Já tinha um post requentado: fiquei preguiçoso. Pena. Deixei de lado um bom zoológico e cheguei a dar um murro na mesa quando li a notícia na Folha. Como não tive essa idéia?! Fica aqui o registro:

(...) [Roberto Jefferson] foi convidado para uma palestra pelo Centro Acadêmico 11 de Agosto da Faculdade de Direito da USP, comandado pela chapa auto-intitulada Escória. Simultaneamente, a faculdade promovia uma outra palestra, esta sobre ética, com o jurista Fábio Konder Comparato. O deputado, que é advogado criminalista, foi recebido na sala dos estudantes sob o coro: "Ei, Jefferson, vai tomar no c...". Ele manteve o sorriso no rosto e se voltou aos repórteres para dar entrevista. "Ei, jornalista, vai tomar no c..." foi o bordão seguinte da platéia. O clima hostil seguiu, até mesmo quando o parlamentar começou a falar. (...) "Ele [Jefferson] vir aqui é uma ironia. Existem alienados que o tratam como herói. Me deram o ovo e eu joguei. Se pudesse, jogava na cara", disse o estudante Julio César Pereira, 23.

(Folha de S. Paulo, 09/08/05)

Posted by Bruno Rabin at 02:01 PM | Comments (3)

August 08, 2005

De touradas e vozes femininas

Durante muito tempo, eu quis gostar de touradas. Influência de uma voz feminina. Ela falava umas frases compridas, com palavras inúteis e, principalmente, fazia muitas comparações. Mulheres gostam muito de fazer comparações, mulheres artistas sobretudo, mulheres que aspiram a ser artistas mais do que todas. E ela aspirava a ser artista. Por isso, havia ido para a Espanha; por isso, falava tanto de touradas. Comecei a querer gostar de touradas, ouvindo aquela voz falando do da “vida em duas cores”.

Mas não deu certo. Invertendo a lógica da pena — que recomenda defender os mais fracos —, sempre fiquei do lado dos bichos, gostando pouquíssimo de vê-los à morte. Nem a beleza da imagem do touro estocado por aquela meia dúzia de bandarillas foi suficiente. “Uma pintura”, disse-me a voz feminina. Não era pintura: era ao vivo. Se pintura fosse, teria gostado (mais por ser pintura, menos por ser tourada). Não houve salvação. As touradas desapareceram da minha vida, e com elas a voz feminina — ou se deu justamente o contrário, mas isso já não importa.

Apesar de tudo, defendo a tourada até o fim dos tempos. Só não quero assistir a uma, e o motivo é personalíssimo. Não me parece razoável querer estender aos outros um defeito de sensibilidade individual. Se um sujeito tem pena de touros ou galos, o problema é dele, e a solução é simples: basta não assistir aos embates. Na opinião os defensores dos animais submetidos a barbaridades desumanas — suprema ironia —, uma boa estratégia é transformar essas práticas em crimes ambientais. Convém incomodar: não seria crime ambiental de verdade impedir galos-de-briga de brigar?

Realmente, tanto faz. Ainda hoje, porém, posso escutar aquela voz feminina, misturando espanhol e português, rindo da confusão, mas rindo bem depressa, para continuar umas frases compridas, umas frases cheias de comparações e palavras que não diziam nada. Ainda hoje ouço aquela voz e continuo achando que deveria ter insistido nas touradas.

[Este post integra a aposta #1 do Apostos, que agora conta com os ótimos Passa o Sal, Rinoceronte e Porco Capitalista, além do blog coletivo Todos a Postos repaginado. Fiquem à vontade para visitar e comentar.]

Posted by Bruno Rabin at 11:53 PM | Comments (5)

August 06, 2005

Brasil, de terça a quinta

Comparar a CPI à Copa do Mundo é injustiça. Com os jogadores, claro. Na verdade, estamos muito mais para Big Brother que para qualquer outra coisa. O problema é que, até agora, quem vai ao paredão não é eliminado. Mas isso pode ser resolvido. Já que a galera prefere mesmo a democracia 0300, aí vai uma sugestão:

big-brother-brasil2.jpg

Posted by Bruno Rabin at 07:53 AM | Comments (5)

August 05, 2005

As beautiful as boring

Beleza excessiva, tédio idem. Nem chega a ser coisa rara. As mulheres e as canções mais lindas costumam prová-lo: quanto mais próximas da perfeição, mais acabadas; quanto mais acabadas, maiores os bocejos.

Sin City é isso. E quem quiser falar da simbologia crítica que fale sozinho. Pois se justamente a gratuidade faz sentido, como fazer da intenção um mérito? Cá pra nós: quer coisa pior que história em quadrinhos engajada?

Posted by Bruno Rabin at 05:47 AM | Comments (5)