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July 28, 2005
Ilusão de ótica
Há várias maneiras de descobrir que se é escritor; nenhuma delas nos extremos.
Os que sentem prazer escrevendo não deveriam publicar. Estão na companhia de atores de teatro e músicos de blues: adoram fazer o que fazem, mas o tédio impede o público de dizer o que se sente diante de suas obras. Os que dizem sofrer com a escrita devem despertar uma espécie de pena e me lembram a primeira vez que ouvi, ainda universitário (que Deus o tenha!), um escritor falar de sua “escrita dolorosa”: pensei que se tratasse de tendinite ou coisa que o valha.
Para um sujeito descobrir que é escritor de verdade deve examinar o que faz quando não escreve. Alguns ficam ansiosos, culpando-se diante do papel em branco. Outros escrevem sobre não ter sobre o que escrever, ficando a um passo da crônica mineira, na originalidade mais democrática dos jornais. O verdadeiro escritor, ao contrário, fica lendo o que escreveu e se dedica a uma tarefa muito mais radical — desescrever sua obra. Sim! O verdadeiro escritor é aquele que desfaz tudo, até o limite da perfeição: a coisa não-escrita.
Escrever é colocar tudo a perder, tratar mentira como ficção. Nenhuma história vale mais que uma mentira bem tramada, aquela que adia o castigo, garante a vantagem, dispensa o sofrimento. Todo escritor de verdade é um mentiroso compulsivo, mas perde sua mentira ao colocá-la no papel... ou na tela. Nenhuma história vale tanto.
Ainda agora, por exemplo, perguntaram-me por que estava há tantos dias sem escrever. Respondi a cada um de um jeito: o computador andou quebrado; a Internet foi interrompida por falta de pagamento; o trabalho exigiu de mim mais do que de costume; estava querendo ver o que diziam os leitores do blog...
Como alguns pareceram incrédulos, fui adiante: o cachorro comeu as folhas com os rascunhos dos últimos textos; tive que levar minha vó a um campeonato de jiu-jitsu em que ela competiu; fiquei desacordado duas semanas depois de um acidente de bonde em Macaé...
Com as risadas, ri também, arrematando: escrevi sim, mas configurei as letras para ficarem invisíveis, daí sua impressão equivocada; publiquei artigos com datas antigas, para ficarem todos nos arquivos, veja lá; acho que esqueci de apertar o botão do publish, deve ter sido isso...
Nada feito. As mentiras nem como mentiras serviram, de modo que explico agora o que aconteceu de verdade. Tudo não passa de um grande engano. A rigor, como eu nunca escreveria sobre não ter o que escrever — que faria de mim um não-escritor que não sou —, acabo tendo de contar a verdade: nunca escrevi nada, nunca tive um blog e este post que você está lendo nem escrito foi. Limpe os óculos e esfregue os olhos: coisas estranhas acontecem na Internet. Mas isso há-de passar.
Posted by Bruno Rabin at 01:50 PM | Comments (14)
July 20, 2005
S.P.Q.R. (ou S.P.Q.P.)

Quando a professora de História nos doutrinava, ela falava muito de um tal “analfabeto político”. Na época, achei que era uma coisa. Agora sei que é outra.
Posted by Bruno Rabin at 02:54 PM | Comments (4)
July 18, 2005
Profissionais e Amadores
O amadorismo é muito melhor que o profissionalismo, e por uma razão simples: amadores não se levam a sério. Qualquer profissional, ao contrário, por mais bem-humorado que seja, não brinca com sua fonte de renda — mesmo que seja renda escassa. A vida não deixa, e a auto-crítica tem um limite. O cara é o piadista da turma, o engraçadinho-mor, o típico iconoclasta, mas defende a mãe e a análise de sistemas como coisas sérias. Diante de um comentário alheio, faz aquele ar de banda de rock dos anos 80.
Há inclusive uma proporcionalidade inversa: quanto mais risível a atividade, maior a seriedade em defendê-la. Administradores e consultores, por exemplo, levam a sério os valores institucionais, a missão, a visão e a análise de pontos fortes e fracos da empresa. Será que não conseguem enxergar que fazem exatamente a mesma coisa que os super-heróis? Criam empresas como se estivessem no Palácio da Justiça e chamam a isso de gestão científica. Chego a pensar que essa talvez seja sua maior piada, mas desisto da idéia ao ver aquelas caras de contracapa de autobiografia.
Jornalistas também são gente assim. Falam de tudo e se permitem ser os primeiros a dizer que a Folha é infantil e que O Globo é chapa-branca; mas só na frente dos coleguinhas de barba. Numa roda variada, fazem cara de “estou por dentro” e ajeitam os óculos em silêncio investigador. Pior que isso: escrevem aquelas coisas todos os dias. Na política e na economia, sisudez; na cultura e no esporte, a brincadeira combinada, o trocadilho infame. Tudo ao contrário.
E não adianta, que essas coisas não mudam. Toda profissão nasce leve para crescer pesada. Vejam-se os blogueiros, por exemplo: já estão querendo fazer denúncia, virar capa da Times, ficar ricos. Que coisa estúpida. Eu, se ganhasse dinheiro com isso aqui, folhearia o blog a ouro, colocaria um fundo com notas de cem dólares e contrataria um ghostwriter para me dar menos trabalho. Até que seria uma boa idéia, não?
Não, acho que não. Vou resistir aos apelos. Prefiro insistir nesse blog-moleque, no post-arte, sem compromisso com o resultado. No compêndio da história dos blogs, lá estará o capítulo dedicado ao Farsante, com fotos dos primeiros encontros do A Postos, movidos a muito refrigerante e suco de laranja, sempre com hora marcada para acabar. Sei que posso parecer um romântico, mas o futuro dirá muito sobre esse amadorismo.
Posted by Bruno Rabin at 06:46 PM | Comments (6)
July 13, 2005
Recortes guardados para o futuro
Gaspari, há um ano:
É compreensível que o PSDB não queira mostrar suas contas em tempo real. Habituou-se a não fazê-lo. Também é compreensível que o comissário Delúbio chame de ingênuos os parlamentares petistas que querem botar as contas na internet. O que os doutores não perceberam é que o dilema já não é ir ou não ir para a internet. É ir ou não ir para a Polícia Federal.
(GASPARI, Elio. “Contas de campanha, caso de polícia”. O Globo, 09/06/04.)
Posted by Bruno Rabin at 05:27 AM | Comments (2)
July 11, 2005
Reminiscências da infância diante da crise
Mulheres, iates e... cem mil dólares!

O valor é quase anacrônico; a cara-de-pau, a mesma.
Posted by Bruno Rabin at 10:40 PM | Comments (3)
July 10, 2005
Avenida Brasil, 500
É cachorro morto, mas há quem goste de bater um pouquinho mais.
Posted by Bruno Rabin at 09:47 PM | Comments (0)
July 09, 2005
Que pepino!
Seu Sebastião fez piada sem saber. Batizou um filho como Genoíno e o outro como Nobre. Um quer nos fazer acreditar que não lê o que assina (que belo guerrilheiro, hein!); o outro fica aliviado porque o assessor flagrado com a mala cheia não abre o bico e dá uma explicação como há muito não se ouvia.
Posted by Bruno Rabin at 11:17 AM | Comments (1)
July 01, 2005
Meninos, comportem-se!
É educativo ler os cadernos culturais da grande imprensa. Ao lado do hard news político e econômico, lá está a cultura, tadinha, sem atenção de ninguém. Ela agora deu pra ficar assim, sempre brincando no balanço do play. Parece que não está ligando muito para os últimos acontecimentos. Quando lhe falaram sobre uma tal mesada do governo, ficou empolgada, inventando mil roteiros, instalações e projetos afins. De tão alegre, demorou a perceber do que se tratava. Quando enfim entendeu tudo, fez uma careta e voltou a quicar a bola na parede. Já tinha tentado brincar de denúncia, mas acabou ficando emburrada e sozinha.
Posted by Bruno Rabin at 08:20 PM | Comments (8)