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June 28, 2005
“A batata vem mais”
Descobre-se muita coisa entre a fila do pedágio e a fila do McDonald's. Descobre-se uma forma eficiente de roubar, por exemplo. Aliás, pensar em formas eficientes de roubo deve ser uma das atividades mais utilizadas para exercitar a inteligência. Por isso é que todo romance policial deveria ser alçado à condição de jogo, à semelhança do xadrez — ainda que tenhamos em mente o aviso do Millôr, para quem o xadrez desenvolve a inteligência para... jogar xadrez.
Pouco importa, as filas continuam ensinando coisas. Hoje, por exemplo, descobri que existe uma lei econômica que passou despercebida aos grandes pensadores. Fala-se muito sobre o mercado e sua mão invisível dirigindo as moedas. Funciona assim: quando você acumula moedas no cinzeiro do carro e resolve utilizá-las num pedágio (também nos livramos das moedas e da culpa ajudando pedintes, embora a ajuda, nesse caso, venha deles, nos livrando do peso), enfim, quando usamos metade daquelas moedas para pagar o pedágio, não há qualquer dúvida de que, na próxima compra feita com nota inteira, virão tantas moedas de troco quantas tivermos usado antes. Trata-se do “princípio de equlíbrio do acúmulo de moedas.” Funciona assim e funciona sempre.
Mas não é só isso. Aprende-se muito mais coisa útil entre as filas. Aprende-se, por exemplo, que o Brasil é um bom lugar para testar modelos de administração. Se derem certo aqui, funcionarão em qualquer lugar. Basta prestar atenção às pessoas que os colocam em prática: “Você faz o seu, que eu faço o meu”, diz o gerente ao caixa. Belo exemplo de colaboração vertical. “Olha, a coca light vai demorar um pouco, porque o rapaz da manutenção tá no horário de almoço,” adianta o mesmo caixa, sugerindo o suco de uva: “Docinho, docinho.” Tudo isso antes de arrematar: “Ih, essa salada é mais ou menos. A batata vem mais.”
Bem, talvez a transparência conste entre os valores institucionais do McDonald's. Não tenho certeza, mas é possível. Tomara que sim. Caso contrário, corre-se o risco de algum antropólogo ler isto aqui e escrever um ensaio — antigo nome usado para posts impressos — sobre a grandeza da brasilidade. Já antevejo o título: “O caixa-moleque e a globalização slow-food.” Nessas horas sou muito religioso e rezo bastante, embora ouça, bem baixinho, a advertência divina: “Quem mandou ir ao McDonald's.”
Posted by Bruno Rabin at 08:17 PM | Comments (6)
June 25, 2005
Nelson e as gotas de chuva [repost]
O trânsito estava lento. Era uma quinta-feira chuvosa e escura, lá pelas cinco da tarde. Nelson teve uma idéia. Colocou o rádio na estação que tocava música clássica e pôs-se a contemplar os pingos de chuva que caíam sobre o pára-brisa do carro, refletindo as cores das lanternas dos outros automóveis. Parecia que eles acompanhavam a melodia. Lindo, lindo, pensou. Aquilo tudo o sensibilizou demais. Nelson teve outra idéia. Estacionou o carro em um refugo à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, desligou o limpador e contemplou o infinito através do vidro do carro. A imagem dinâmica dos pingos coloridos ganhou uma imprecisão de contornos que acentuou a sensação bonita daquele momento. A música suave o envolveu por completo. Nelson começou a chorar.
Por que chorava Nelson naquele fim de tarde cinzento à beira da Lagoa? Será difícil dizê-lo. Não que ele tivesse tantas angústias e inquietações, que qualquer palavra fosse incapaz de dizer seu sentimento intenso. Nada disso. Na verdade, Nelson era o típico representante da mediocridade mundana. Não refletia muito, nem tinha grandes problemas existenciais. Se chorava, era por um motivo muito mais banal. Por que, então, a dificuldade em dizê-lo? Ora, porque o narrador fica constrangido em contar que Nelson chorava apenas pela beleza do choro. Não entendia nada de música clássica. Para ele, tratava-se apenas de trilha sonora. O colorido da chuva era seu cenário; o choro, seu enredo. Faltava-lhe argumento.
Desde pequeno, Nelson se sentia pertencente a uma espécie intermediária de homem. Não era um idiota, a quem coubesse estudar na véspera da prova, passar na reclassificação para uma faculdade particular e fazer planilhas pensando nas férias. Mas também não era uma inteligência à mostra, capaz de perceber com agudeza a realidade, identificar referências nos filmes ou escrever uma frase de efeito. Vivia no pior dos mundos. Admirava as profundidades, mas só podia contemplá-las da superfície. Queria mergulhar, mas se afogava a cada tentativa. A essa altura, o leitor deve imaginar que essa limitação consciente fazia de Nelson uma pessoa infeliz. Engana-se. A infelicidade seria demais para ele. Nelson não a alcançava.
Seus amigos e familiares dividiam-se entre os idiotas e os sensíveis. Os primeiros achavam Nelson idiota. Os outros não achavam nada. Algumas vezes, alcançou dos amigos inteligentes — na verdade, ex-colegas, que o convidavam ao cinema por falta de companhia — uma atenção momentânea. Num jantar ou numa festa de aniversário, formavam-se rodas de conversa. Nelson acompanhava todos os movimentos com dedicação concentrada. A cada lance, cada frase dita por um amigo, voltava a Nelson aquela sensação de sempre: a de que quase pensou o mesmo com alguns segundos de atraso. Era sempre assim; alguém sempre se antecipava a ele. Melhor que fosse dessa maneira, porque, nas poucas vezes em que deu um passo à frente, arrependeu-se mortalmente:
— Mas isso não é nada. Tem um livro...
De repente, todos o olhavam. E Nelson ia murchando, murchando, baixando a voz, até quase desistir de falar. Uma vez ou outra, um amigo mais próximo ainda tentou salvá-lo, elogiando seu comentário. Era uma concessão, e Nelson sabia disso.
Na verdade, Nelson tinha a impressão de que algo muito profundo, complexo e agudo se retorcia dentro dele. Era como uma intuição que, de tão singular, se fazia inefável. Para ele, era só ter um pouco mais de concentração e disciplina que as coisas se arrumariam. Achava que lhe faltava apenas confiança. Nelson se enganava. Faltava-lhe talento. E, à falta dele, sobrava-lhe vontade. Nunca, porém, a vontade superou o talento, mas isso Nelson não era capaz de perceber.
Naquela tarde escura, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, Nelson quis sentir alguma coisa. A música o sensibilizou; o colorido informe dos pingos no vidro também. Algumas lágrimas correram seu rosto, e ele viu nisso uma bela analogia com as gotas da chuva. Poderia ter pensado que aquela água insistente e abundante representava a fluência que ele não tinha. Poderia, em vez disso, imaginar que aquela cena bela e vazia era uma metonímia para sua própria vida. Mas Nelson não pensava nada disso. Intuia algo grandioso, belo e comovente, mas não sabia bem o que era. Suas lágrimas cessaram logo, a chuva também, e a música deu lugar à publicidade. Nelson ainda tentou mudar de estação e olhar na direção de uma paisagem bonita, mas o sentimento o havia deixado novamente.
Posted by Bruno Rabin at 02:07 PM | Comments (8)
June 17, 2005
Diante do Planalto
— Você está rindo porque não foi com você!
— Precisamente.
Posted by Bruno Rabin at 10:41 PM | Comments (1)
June 16, 2005
Se correr, o bicho pega...
Eu dizia a mesma coisa para poder almoçar logo.

Posted by Bruno Rabin at 11:59 PM | Comments (1)
Outro filme para as sessões do Planalto
Apud o Alto Volta aqui ao lado:

Posted by Bruno Rabin at 11:57 PM | Comments (1)
June 14, 2005
Pra cima deles, Roberto, pra cima deles!
Por que não chamam o Galvão para narrar esses depoimentos na Câmara?
Posted by Bruno Rabin at 10:16 PM | Comments (5)
June 12, 2005
A lista das listas
Se você pudesse ser uma lista, qual seria?
Eu seria uma bela e completa lista de compras, dessas em que se colocam pães, queijos, pastas, livros, discos e algumas mulheres, sem se olhar a preços.
Que lista você levaria para uma ilha deserta?
A Lista de Schindler. Não dando sono, duraria tempo suficiente para pensar em outras listas.
Qual é sua lista inesquecível?
Poderia listar uma infinidade de listas, mas fico com esta.
A quem repassa esta lista e por quê?
Ao Jorge Luís, porque sua lista teria um rei desencontrado, um animal inumerável e um símbolo atópico, além de algumas listas de listas, todas dentro de uma enorme lista, em que esta lista estaria incluída, ainda que a incluísse também. Mas deixa pra lá...
Posted by Bruno Rabin at 01:00 PM | Comments (4)
June 11, 2005
Contos de Namorados (I)
Dia dos namorados é uma data muito comercial. O pessoal das lojas aproveita e mete a mão mesmo. Um absurdo!, arrematou, antes de passar o cartão para comprar uma namorada novinha em folha.
Posted by Bruno Rabin at 07:31 PM | Comments (0)
June 07, 2005
O que pensar sobre o escândalo do mensalão
Nessas horas, cada um fica à procura de um lugar digno, sem saber muito bem o que pensar e o que dizer. A seriedade sisuda corre o risco de parecer ridícula; a ironia cínica é previsível demais; no meio do caminho, o meio do caminho — sem graça que só ele.
Resta ficar observando os observadores. Por enquanto, vale o riso não muito cínico provocado pela enrascada em que se meteram os repórteres que tentam explicar a história. Sem provas, embananam-se ao falar sobre a suposta hipótese que teria sido sugerida por uma denúncia que possivelmente foi feita numa ocasião imprecisa por um interlocutor indefinido. Quem quiser saber mesmo o que se passa tem duas opções: ou se aventura na selva lingüística do jornalismo responsável ou toma um táxi. Acaba dando na mesma.
Posted by Bruno Rabin at 08:14 PM | Comments (11)
Rindo por último
Houve um tempo em que nós ríamos de quem dissesse que “político é tudo igual”. Caminhamos para um tempo em que riremos de nós mesmos.
Posted by Bruno Rabin at 07:50 PM | Comments (0)
June 06, 2005
O lobo-guará, à falta de leopardos
A beleza da aristocracia é maior na decadência. Como nem à monarquia temos direito, fiquemos com a nostalgia dessa forma menor da aristocracia decadente, que são os restaurantes tradicionais. Vencidos, de um lado, pela concorrência da comida aquilo e, de outro, pelas redes de restaurantes únicos, os velhos recantos da comida honesta — aquela dispensada por quem faz cirurgia de redução do estômago... —, esses lugares começam a decair. Fregueses antigos, daquele tipo idiossincrático de almanaque, reclamam bastante das mudanças. Não percebem a beleza daquela área para não-fumantes desrepeitada por todo mundo, daquele brownie sabor nescau com sorvete aguado que nem o garçom recomenda e, sobretudo, daquela TV ligada em volume acima do mínimo durante a novela. O dono, olhando melancólico as mudanças necessárias, lembra Dom Fabrizio Salina, ainda que seu sobrinho não tenha a Claudia Cardinale como futuro.
Posted by Bruno Rabin at 11:23 PM | Comments (4)
June 03, 2005
Este post foi feito especialmente para você
Uma banco aí da praça, cujo nome é piada pronta para humor de segunda, está chegando ao limite com essa história de atendimento personalizado. Agora, cada novo cliente recebe um telegrama do próprio presidente da instituição, assim que faz o primeiro depósito. Como se não bastasse o constrangimento de supor que esse público seleto acredite na amizade pessoal impressa, ainda é engraçado pensar que um erro de digitação pode estragar a melhor intenção: doutor Vladimir vira Valdir e não perdoa falha tão grave.
Além de tudo, essa estratégia pode dar galho. Dia desses, dona Sônia viu um telegrama para o marido assim que chegou do salão. Como estava atrasada para a aula de ginástica do Marcão, deixou por isso mesmo. Quando voltou, perguntou sobre a mensagem. “Ah, joguei fora. Era um telegrama do presidente do banco,” respondeu o doutor Rogério, antes de ser atingido por uma sandália Gucci e perder de vez a esposa. Situação dificílima, mas que nesse caso, pelo menos, acabou sendo uma belo pretexto: doutor Rogério está disponível e de posse de uma senhora conta, a única desconhecida do advogado da ex-mulher.
Posted by Bruno Rabin at 05:29 PM | Comments (6)