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May 31, 2005

O paradoxo de Edgar

Para D.B.

Edgar é dessas pessoas que gostam das pessoas. Gostam, admiram, idolatram. E as pessoas de que Edgar mais gosta são as pessoas que não gostam de quase nada. Como Edgar gosta dessas pessoas! Quanto mais um amigo fala mal de um filme, de um livro, de um governo, mais Edgar admira o amigo. Alguns conhecidos de Edgar são quase profissionais na arte do não-gostar. Um é crítico de arte; outro, professor de comunicação; o mais admirado, blogueiro paulista. Edgar não perde uma frase dos conhecidos, invejando não gostar do mesmo jeito. Principalmente, invejando não gostar de tantas coisas.

De uns tempos pra cá, Edgar resolveu não gostar também. Como era um gostador contumaz, teve de controlar sua vocação para o aplauso. Mas nenhuma disciplina parecia suficiente. Quando ia ao cinema, Edgar passava duas horas sofridas, olhando a defeitos em tudo: atores, enredo, poltrona, preço, o que fosse. Nada o demovia da sensação de que tinha valido a pena, e as horas não foram perdidas. Por aí não via um caminho.

Por isso, mudou de estratégia: já que não conseguia odiar ao vivo, Edgar resolveu odiar por escrito. Disseram-lhe que era mais eficaz, que a pessoa mais doce poderia se transformar num filósofo de jornal, só de colocar as mãos num teclado. Foi em vão: o primo de Edgar — homem rancorosíssimo, em quem nosso herói se espelhava acima de tudo — riu-se do primeiro artigo, achando-o de uma simpatia rara. “Mas, e os xingamentos?!”, espantou-se Edgar. “Engraçadíssimos”, respondeu-lhe o primo.

Quem via o esforço de Edgar e sua infelicidade crescente, tentava dissuadi-lo da empreitada, dizendo que ser odioso não era algo invejável. “Seja você mesmo”, diziam-lhe. Edgar ria dos conselhos dos amigos, que lhe lembravam outros ódios já lidos. Mas seu riso não era irônico, e os conselhos acabavam sendo ouvidos. Um dia, refletindo sobre seu gostar infinito, pensando bastante sobre sua admiração pelos não-gostadores, pensou que só gostava de quem não gostava de nada. Juntando isso com a evidência de que não conseguia odiar, Edgar montou um silogismo perverso. Até hoje não se recuperou da constatação.

Posted by Bruno Rabin at May 31, 2005 10:39 PM

Comments

Edgar não existe?

Como foi digitar com nove dedos?
bjuu

Posted by: Juliana at June 1, 2005 01:20 AM

Gostei muito, lindo!
Beijos.

Posted by: sua amada at June 2, 2005 03:40 PM

private joke...

Posted by: julia at June 3, 2005 09:41 PM

Ouch... me soa familiar o contexto...

Posted by: Primeira Dama (do blog ao lado) at June 8, 2005 09:52 PM

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