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May 13, 2005

Giuseppe, coitado

Giuseppe dizia gostar de escrever. Por isso, coitado, foi aconselhado a estudar letras, mal sabendo que no curso de letras aprende-se a saber como se gosta de um texto e, assim, a gostar menos de textos. Com o tempo, Giuseppe passou a odiar certos autores. Dizem que chegou a queimar uma coleção inteira de Machado, a quem só chamava assim, com esse desprezo cheio de intimidade.

É claro que Giuseppe continuava escrevendo, mas preferia sempre curvas a retas, quando de retas se tratava, e retas a curvas, quando o contrário. Esse Giuseppe — que safado! — escrevia contos entortados, mas nem assim fazia bem feito. Uma vez resolveu perveter a narrativa, escrevendo um texto sem narrador: coitado, já tinham inventado o teatro. Depois, deu de fragmentar o discurso e descentrar o sujeito, mas isso virou tabu entre seus amigos, já que ninguém leu o livro até o fim. Giuseppe interpretou a atitude como prova de qualidade.

Esse Giuseppe! Certo dia, numa entrevista para o jornal da faculdade — a glória tarda, mas chega —, disse que sentia vergonha de ter dito que gostava de escrever. “Escrever não é questão de gosto; é necessidade”, disse na frase que seria manchete do tablóide. Que safado, o Giuseppe, já sabia até lidar com a mídia. Para ele, escrever era “um sofrimento e uma urgência transformadora” (ou “uma transformação e um sofrimento urgente”, whatever). O garoto que o entrevistava fez “sim” com a cabeça, pois, como qualquer estudante de jornalismo, tinha menos vocação que incompetência.

Com o tempo, Giuseppe foi perdendo o dom da inventividade e só conseguia escrever histórias completas, algumas lembranças da infância em Bom Jesus, duas ou três anedotas juvenis. Giuseppe passou a ter raiva de si mesmo; amassava os textos com fúria e os atirava num canto da sala. Sentia estar perdendo aquela força expressiva; não conseguia nem mesmo escrever uma crônica sobre a falta de assunto. Giuseppe decaía.

Ao contrário das estórias que escrevia (sempre com essa grafia, que ele julgava ter inventado), a história de Giuseppe teve um fim. Cansado de tanto tentar ser original escrevendo, teve uma última idéia. Às oito da manhã de uma terça-feira, quando a cidade se movimentava para o trabalho, Giuseppe atirou-se do décimo andar, atrapalhando o trânsito. No bilhete de despedida, poucas palavras: “Nada de mais, apenas um pouco de ar fresco.” Coitado de Giuseppe, achou que estava criando o suicídio vazio.

Nem esse episódio reabilitou o que Giuseppe escrevera. Uma amiga mais próxima que o achava “fofo” tentou ajudar, publicando suas obras completas na internet. O blog póstumo ainda está por aí, com meia dúzia de leitores. Um xingamento sem sentido de um garoto de quinze anos ficou como último comentário. Ninguém percebeu, mas esses palavrões diziam muita coisa sobre Giuseppe e sua obra.

Posted by Bruno Rabin at May 13, 2005 06:08 AM

Comments

That's the way a-ha, a-ha I like it.

Posted by: Igor at May 13, 2005 09:57 AM

É isso aí, Gertrudes...
Ficou maneiro seu conto!

Posted by: Sílvia at May 13, 2005 12:15 PM

Também gostei bastante do conto...é meio sinistro, mas foi coerente com a data (sexta-feira 13)!

Bjs!

Posted by: Sarah at May 13, 2005 09:51 PM

Nada de mergulhos - "guarda esse escafandro, meu filho. Só o raso é cool. A dor é kitsch."

Maravilhoso.

Um abraço;
Márcio Guilherme.

Posted by: Márcio Guilherme at May 13, 2005 11:56 PM

E depois dizem que quem não sabe ensina... Coitados.

Posted by: Juliana at May 14, 2005 12:13 AM

Bruno, há quanto! Só hoje soube do fim do blog antigo e da "associação" aos outros escritores. Dei uma olhada e vi uma perspectiva de dispêndio de bons momentos na Internet.

Aquele abraço,
George

Posted by: George de Lucena at May 15, 2005 08:55 AM

lindo

Posted by: alex castro at May 15, 2005 11:00 PM

Muito bom.

Posted by: Carlos Eduardo at May 16, 2005 07:00 PM

O novo post está demorando.

humpf!

Posted by: Márcio Guilherme at May 19, 2005 11:12 AM

{Panelaço
Post Já!
Panelaço segue}

Posted by: Igor at May 20, 2005 09:48 AM

Post! Post! Post! Post!

Posted by: Juliana at May 20, 2005 04:55 PM

Post!
Post!
Post!

Posted by: Sâmia at May 20, 2005 08:24 PM

muito bom.

só mudaria o título para Giuseppe, o uspiano.


abraço.

Posted by: ulisses at May 25, 2005 05:44 PM

texas holdem Не шастшаивайтес?, возможно этот товаш можно заказат? в отделе заказов... Thats all

Posted by: texas holdem at September 18, 2005 05:59 PM

Por um momento achei que se tratava da minha história - ou estória, como quiser.

Posted by: Giuseppe, acredite se quiser at July 22, 2008 08:32 PM

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