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April 26, 2005
Heróis de verdade (I)
Arnaldo pensou em desistir. Afinal, eram só cinqüenta pratas. Fazer falta, fariam, mas tem coisas que é melhor esquecer. Chegou a decidir deixar tudo de lado e resolveu tomar um banho do tipo mudando-de-assunto. Mal sabia Arnaldo que os banhos têm outra vocação: sob o chuveiro, alguns se acham sedutores; outros acabam se achando cantores. Arnaldo se achou alguém — e não hesitou: precisava lutar pelo que era seu.
Ainda de toalha, empunhou o telefone e discou. Digitou dois. Esperou. Digitou quatro. Nova espera. Digitou quatro novamente. A ligação caiu; ele sabia que deveria esperar a instrução completa. Repetiu a ligação. Estava tão sereno, que nem se importou com a demora habitual, até que finalmente foi atendido. Assim que a funcionária perguntou o que desejava, começou seu discurso. Arnaldo falou sobre como havia sido seu dia, o que fazia no trabalho, a que horas chegava em casa, como lidava com o dinheiro, a economia para pagar dívidas antigas, o medo de faltar alguma coisa para as crianças, o quanto gostava de não se preocupar com serviços pagos, a importância de conversar para resolver as coisas, a demora da Justiça, a chatice da Justiça e dos advogados, a vontade de que o mundo dependesse menos de regras e mais do bom senso, a lentidão burocrática, a previsibilidade do discurso pronto dos atendentes de telemarketing, o quanto era importante o homem ser comandado por sua consciência, a anulação do desejo no mundo comercial, os bons tempos em que tudo se resolvia com boa conversa, a crise de valores no mundo contemporâneo, o medo de perder tudo, um poema do Drummond que fala dessas coisas, o cansaço de tudo, a vontade de desistir, o banho encorajador, o telefonema inútil mais uma vez, como precisamos resistir apesar de tudo, um post que leu no Farsante sobre o “prefiro não fazer” do Bartleby, umas coisas estranhas que sentia quando ficava muito tempo ao telefone, esse hábito de responder sem dizer nada, os monólogos, o quanto o teatro sempre lhe parecera insuportável, a mania dos atores de acharem interessantes, a última peça boa a que havia assistido há uns cinco ou seis anos, o gosto pelo cinema, o desgosto pelas salas de cinema cheias de gente, o preço absurdo das entradas, o dinheiro que vai embora sem a gente perceber, as contas no fim do mês, as companhias telefônicas que fazem cobranças indevidas, a dificuldade de provar isso, a conversa mole dos atendentes, o direito de receber de volta seus cinqüenta reais.
Foram duas horas de conversa. “Entendo, senhor Arnaldo,” disse ela ao final. Mas antes que pudesse explicar alguma coisa, veio o corte. Arnaldo ficou sem seu dinheiro, mas ganhou o dia.
Posted by Bruno Rabin at April 26, 2005 08:21 PM
Comments
Não resisti e tive que dar uma olhada antes!
Incrível como ele(Arnaldo) só se esqueceu de falar se ia chover ou não no dia seguinte.
Abraços.
Pedro Vinces
Posted by: Pedro Vinces at April 27, 2005 12:35 AM
No blog do NoMinimo:
Comunidade
26.04.2005 | Isso não pode dar certo: os Farsantes dividiram-se em dois, Bruno Rabin foi prum lado carregando o nome, Márcio Guilherme pro outro, aí juntaram-se ao Alto volta. Não bastasse, chamaram um Naïf Gendarme para dar forma à quadrilha.
A web tupinambá apresenta: A postos.
Posted by: Ismael at April 27, 2005 03:26 PM
UFA! Foi só essa a sensação que me veio depois de viver tudo isso. E também, a capacidade de poder enxegar o quanto temos o que reclamar, o quanto as coisas se desdobram, mas ainda assim conseguimos tapar os nossos olhos por alguns momentos para tentar ser felizes sem tais preocupações. E ainda aguentar o cinismo da atendente robô!
Valeu D+ o seu texto.
Posted by: Luiza Breder at May 4, 2005 02:40 AM
Você é rico em idéias mas, seus textos são literariamente paupérrimos pois, intelectualmente falta pungência e poeticamente falta muito sentimento porém... Gostei!!! Nota 5 pra você que escreveu tudo muito certinho!!!
Baby Blue.
Posted by: Baby Blue at January 30, 2006 10:28 PM