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February 13, 2005
Furos de reportagem
O Rio fica a 45 minutos de São Paulo, se você desembolsar 300 pratas. Com um por cento disso — o preço de um jornal de domingo —, a distância é muito maior.
Leia-se a Folha de S. Paulo do dia 6 de fevereiro, domingo de Carnaval; aliás, bastam as páginas iniciais. Na cobertura da festa, a 1ª página traz duas chamadas para artigos. No primeiro, Ferreira Gullar demonstra sua reconhecida perspicácia com um insight brilhante: segundo o poeta, em pouco tempo, as escolas de samba do Rio só terão brancos, seja desfilando, seja na platéia. O leitor fica estupefato: que sacação! Genial, genial, diria o Roberto do post aí de baixo. Como ninguém pensou nisso antes?!
Ainda sem conseguir vencer o largo sorriso, o leitor passa os olhos pela outra chamada. Desta vez, Danuza Leão e uma pergunta inquietante: por que o Cordão do Bola Preta é o bloco de rua mais longevo do Rio? A resposta, precisa e inimaginável, não tarda: trata-se da espontaneidade do bloco, do gosto pelo samba de verdade, do apreço pelo Carnaval de verdade, sem marketing, uma coisa assim de raiz. Caramba — suspira o leitor —, é mesmo! Que coisa!, exclama novamente, que esse leitor é dado a exclamações.
Com o gosto da satisfação pelo dinheiro bem gasto, o leitor se arrisca à página 2. Mas não se adianta. Temendo o que lhe reservam as pensatas, vira a página devagar. Para manter a coerência da carioquice, vai logo ao texto do Cony. Sob o título “Tombamento inútil”, o escritor fala sobre o Cristo Redentor, propondo interpretações inovadoras. Os braços abertos representam não apenas a benção, mas a surpresa com as belezas da cidade e a bronca contra os problemas. Quanta simbologia em uma única imagem — admira-se o leitor. Esse Cony, hein! Quando alguém imaginaria enxergar no Cristo tudo isso?
Antes de prosseguir, o leitor suspende o olhar, balança a cabeça sob a imaginação do privilégio que está tendo. Pensa em continuar, mas teme a decepção. Prefere ficar com as impressões que lhe foram presenteadas por três nomes da inteligência nacional e suspira fundo antes de beber mais um golé de café.
Posted by Bruno Rabin at February 13, 2005 11:55 AM